Impressionante
drama de dois jovens, na cidade gaúcha de Cachoeira do
Sul. O amor proibido os levou a viverem dez meses como feras e
sete meses entre dois túmulos, para um final de toque melancólico.
PÔRTO
ALEGRE - Setembro - (Via Varig)
Na tarde tranqüila
do domingo gaúcho, um grupo de môças resolveu
aceitar o convite que fêz a mais irrequieta da turma:
- Vamos dar um passeio até o cemitério?
Marlene, Dany, Zilá, Silvia, Teresinha e Diná, tôdas
residentes nas proximidades do Hospital de Caridade, em Cachoeira
do SUl, ao fazerem a combinação, estavam longe de
pensar que, momentos depois, quando em jovial bulício paravam
frente às sepulturas, comentando a mocidade ou a beleza
dos mortos cujas fotografias apareciam nas lousas, ouviriam uma
voz sumida, parece que partida das profundezas da terra, transmitindo
um apêlo patético:
- Tirem-me daqui! Quero água!
As môças empalideceram. Olharam-se estarrecidas e,
em questão de segundos, descambavam cemitério afora,
olhos esbugalhados de pavor. No portão, encontraram com
João Picolotto, pedreiro da necrópole e contaram,
com voz entrecortada, o que tinham ouvido. Mais adiante, defronte
ap hospital, o Advogado Edyr Lima também era informado
do assunto. Em poucos minutos, auxiliados pelos enfermeiros Alberto
José e Altamiro Ferreira, o pedreiro e o advogado localizavam
a procedência do apêlo. Uma jovem suja e esquálida
jazia sôbre um túmulo, deitada em trapos, numa imundície
e fraqueza de causarem pena.
Enquanto
alguns a retiravam, em maca, ela continuava em seu apêlo
angustioso:
- Quero água! Quero água!
Alguém mais expedito alcançou-lhe uma garrafa cheia
do líquido que ela implorava. A desconhecida bebeu bastante
e, em seguida, deitou a vomitar, caindo em total prostração.
A notícia, em seguida, ganhou as ruas da Capital do Arroz.
Chegou até um clube da cidade, onde o pessoal se entregava
a um inocente jôgo de roleta, os números substituídos
por figuras de animais. Um médico da roda, convidado a
ir ao cemitério , negou-se fazendo “blague”:
- Não vou porque não se trata de cliente meu. Os
que mandei para lá, tenho certeza, mandei bem mortos.
A descoberta naquele estado, da jovem Vicentina Dorneles, com
18 anos de idade, natural do distrito de Capané, tornava
Cachoeira do Sul o palco do mais impressionante e estranho romance
de amor. Desaparecida havia 17 meses, em companhia do namorado,
João de Oliveira Simões Pires, também com
a mesma idade, a jovem dera à luz no mato, completamente
sem assistência; e oito meses depois da “delivrance”
ainda permanecia como um bicho, escondida no pequeno terraço
formado pelo teto de um jazigo. Ali sofreu fome e frio, agüentou
as chuvas e geadas do inclemente inverno dos pampas. Julieta caipira
viveu horas de fome, sêde e pavor em cenário de cemitério,
apaixonada por sua encarnação de Romeu, filho de
um cabo da milícia estadual com uma presidiária
que assassinou o primeiro marido.
Vicentina,
cujo comportamento anterior não era dos melhores, é
filha de um curandeiro, agregado de uma fazenda, homem que goza
de prestígio como parteiro entre as gestantes daquele êrmo.
Acostumada ao trabalho do pai, não lhe foi difícil
amarrar com um trapo o umbigo da criança, cortá-lo
com uma faquinha que possuía e ficar à espera de
João para que êste executasse o prometido: deixar
a criança na casa do Sr. João Pivetta, residente
na Rua Moron, onde a pequenina foi encontrada sob um telheiro
guardada por Tupi, o cão da casa, que choramingava ao lado
do pequeno ser.
O encontro
da menina, que posteriormente foi batizada com o sugestivo nome
de Maria Aparecida, agitou a população de Cachoeira
do Sul. A pequenina perdera muito sangue pelo orifício
umbilical. Levada ao Hospital de Caridade, estêve muitos
dias à morte. Salva pela dedicação dos médicos
e das freiras, foi entregue pelo Juiz de Menores ao Sr. Jair Bittencourt,
garçom de um estabelecimento comercial da cidade; sua espôsa,
D. Júlia, explicando os motivos que levaram o casal, cuja
situação financeira não era das melhores
e que já tem três filhos, a adotar a menina, disse
muito comovente:
- Nossas crianças já estão crescidas. E,
depois, ela não era tão doente, a pobrezinha...
O
exílio voluntário dos jovens amantes teve início
há 17 meses, quando o físico de Vicentina começou
a mostrar o estado de gravidez em que se encontrava. Alegando
que não queria permanecer no emprêgo, que não
desejava ser vista na cidade, que os homens faziam gracejos a
respeito de seu estado, a jovem foi para as barrancas do Rio Jacuí,
onde, em companhia do namorado, passou a viver no mato. Quinze
dias depois, João regressou à cidade e tôdas
as noites voltava ao mato onde dormia numa furna com a companheira.
Após nascer-lhe o filho, assustado com a revolta da opinião
popular pela maneira como êles se livraram do inocente,
aconselhou Vicentina a permanecer escondida. Disse-lhe que tôda
a cidade procurava a mãe desnaturada, que se ela reaparecesse
poderiam suspeitar dela, já que fôra vista, anteriormente,
em estado de gravidez. E desta forma, o exílio voluntário
de Vicentina prolongou-se. Com a chegada do inverno, o bambual
onde viviam os amantes tornou-se excessivamente úmido.
O rapaz, que procurava desesperadamente por emprêgo, conseguiu
com o ozelador do cemitério a empreitada da pintura de
alguns jazigos. Neste trabalho, descobriu o pequeno terraço,
no alto do túmulo do finado João Carlos Costa. Aconselhou
Vicentina a mudar-se para lá. Durante a noite dormiam juntos.
De dia antes que o cemitério fôsse aberto, desciam
para o mato próximo, usando a cruz do jazigo vizinho como
escada. Degradavam-se cada dia mais, não se importando,
depois de terem vivido tanto tempo no mato e no alto do jazigo,
em dormir, quando chovia ou esfriava muito, dentro de um túmulo
próximo.
O pai de João,
entretanto, sargento reformado da Brigada Militar, protestou contra
as despesas que o filho fazia em sua conta de armazém.
Cortou o crédito do rapaz, impossibilitando-o de continuar
comprando alimentos para Vicentina. Quando arrumava uns trocados,
João levava frutas e restos de comida para sua lúgubre
morada. Durante a noite, alumiavam o ambiente com cotos de vela
das sepulturas. Tinham como moringa um vaso de vidro também
retirado de um túmulo. Eis, entretanto, qua a parca alimentação
começa a abater as fôrças de Vicentina, já
bastante debilitada pelo parto. O inverno caiu de rijo e ela não
pôde mais se locomover. Passou a permanecer dia e noite
sôbre o teto da sepultura. Impossibilitada de descer para
a capelinha onde são enterrados os sacerdotes falecidos
da paróquia, Vicentina cobria o rosto com um trapo e assim
enfrentava a chuva e o frio. Uma anciã, que da janela do
hospital próximo via luz e movimento sôbre o túmulo,
narrou ao médico que algo de estranho ocorria no cemitério.
Considerando a idade da paciente, o facultativo vaticinou:
- São coisas da velhice!
Quando
Vicentina foi localizada, já fazia uma semana que não
comia. Havia oito dias, João lhe levara meia dúzia
de bananas e algumas laranjas. Nem subiu. Assobiou e jogou as
frutas para a jovem. Regressou logo para os braços de uma
gorda matrona, cujo quarto, cuja cama e cujo carinho eram muito
mais atraentes que sua fria, tétrica e macabra última
moradia.
Um dia antes
de ser descoberta, Vicentina ouviu passos de uma freira que foi
rezar no túmulo dos padres. Pediu que a tirassem dali e
lhe dessem água, da mesma forma que no dia seguinte pediria
para as jovens. A irmã afirma que ouviu o apêlo e
procurou pela dona da voz. A jovem, entretanto, diz que sentiu
que alguém, com passos apressados, rumava em direção
à porta do cemitério.
Certa tarde
- conta Vicentina - quando era maior sua fome e mais cruel sua
sêde, ouviu os passos que sabi serem do zelador. O homem
parou num túmulo ao lado, ond depositou uma lata de água.
Esperou que êle se afastasse um pouco e içou a lata
com grande dificuldade. O zelador, hoje, confirma a história
e diz que só agora encontrou explicação para
o misteriosos desaparecimento de sua lata de carregra água.
O único cuidado da infeliz era não ser vista por
ninguém, temerosa da prisão onde ela e João
pagariam o crime de ter enjeitado o filho recém-nascido.
Protegida por um pequeno muro, que não chega a ter meio
metro de altura, permanecia deitada o dia inteiro. E assim ficou
pelo espaço de sete meses até que, febril e quase
inconsciente, ouvindo as vozes das môças, implorou
por socorro.
Ao ser retirada
de sua tétrica reclusão, Vicentina pesava apenas
28 quilos. Cabelos longos e emaranhados, coberta de andrajos,
unhas enormes, era a figura perfeita da miséria. Uma freira
afirmou que jamais encontrara, em tôda a sua longa prática
de hospital, uma criatura tão suja e tão fraca.
E enquanto durava o suplício de Vicentina, não era
menor o sofrimento de João. Isto êle confessa com
a simplicidade dos ignorantes, na carta que, do fundo do cárcere,
escreveu ao Delegado Ruy Weber Dias. “Eu
passava dia e noite pensando: o que vou fazer com aquela mulher?”
Fruto
do meio em que foi criado, as boas intenções do
rapaz (se é que podem ser assim classificadas) ressaltam
no fato de êle ter colocado a filhinha na casa de uma família
que sabia gostar de crianças. Podia ter jogado a pequerrucha
no rio, podia ter assassinado a mulher e enterrar o cadáver
no mato. Naõ narrou seu drama ao pai, porque êste
nem a pensão para dormir lhe pagava mais. Da autoridade,
só conhecia o direito de castigar. Temia ser prêso
pela sedução da namorada e pelo abandono da filha.
Habituado com a liberdade, pois freqüentava o “bas-fond”
desde os 15 anos, reagiu à prisão quando um cabo
da Fôrça Estadual foi buscá-lo em casa, após
a descoberta de Vicentina. Tudo isso foi reconhecido pelo íntegro
Juiz de Menores de Cachoeira do Sul, Dr. Arthur Prates Picoli,
que determinou a libertação do rapaz.
Cena profundamente
tocante, à margem do caso, foi proporcionada pelo encontro
de Vicentina com a filhinha, atualmente com sete meses de idade.
Conduzida pela reportagem de “O
Cruzeiro”
e pelo correspondente do “Diário
de Notícias”,
de Pôrto Alegre, Maria Aparecida entrou no quarto do hospital
onde sua infeliz mãe se recupera. Vicentina tomou a criança
nos braços, olhou-a ternamente e beijou-a com carinho.
A seu lado, Dona Júlia, a mãe de criação,
temerosa de perder a menina, era a mais emocionada.
- Nós gostamos muito dela - explicava arquejante para Vicentina.
- Ela é muito boazinha. Dá muita despesa. Come duas
latas de leite em pó por semana.
A pequena ajeitou-se no regaço materno e caiu em profundo
sono.