Romeu e Julieta em palco de cemitério

Texto de TABAJARA TAJES         Fotos de ANTONIO RONEK
 

Impressionante drama de dois jovens, na cidade gaúcha de Cachoeira do Sul. O amor proibido os levou a viverem dez meses como feras e sete meses entre dois túmulos, para um final de toque melancólico.

PÔRTO ALEGRE - Setembro - (Via Varig)

Na tarde tranqüila do domingo gaúcho, um grupo de môças resolveu aceitar o convite que fêz a mais irrequieta da turma:
- Vamos dar um passeio até o cemitério?
Marlene, Dany, Zilá, Silvia, Teresinha e Diná, tôdas residentes nas proximidades do Hospital de Caridade, em Cachoeira do SUl, ao fazerem a combinação, estavam longe de pensar que, momentos depois, quando em jovial bulício paravam frente às sepulturas, comentando a mocidade ou a beleza dos mortos cujas fotografias apareciam nas lousas, ouviriam uma voz sumida, parece que partida das profundezas da terra, transmitindo um apêlo patético:
- Tirem-me daqui! Quero água!
As môças empalideceram. Olharam-se estarrecidas e, em questão de segundos, descambavam cemitério afora, olhos esbugalhados de pavor. No portão, encontraram com João Picolotto, pedreiro da necrópole e contaram, com voz entrecortada, o que tinham ouvido. Mais adiante, defronte ap hospital, o Advogado Edyr Lima também era informado do assunto. Em poucos minutos, auxiliados pelos enfermeiros Alberto José e Altamiro Ferreira, o pedreiro e o advogado localizavam a procedência do apêlo. Uma jovem suja e esquálida jazia sôbre um túmulo, deitada em trapos, numa imundície e fraqueza de causarem pena.

Enquanto alguns a retiravam, em maca, ela continuava em seu apêlo angustioso:
- Quero água! Quero água!
Alguém mais expedito alcançou-lhe uma garrafa cheia do líquido que ela implorava. A desconhecida bebeu bastante e, em seguida, deitou a vomitar, caindo em total prostração. A notícia, em seguida, ganhou as ruas da Capital do Arroz. Chegou até um clube da cidade, onde o pessoal se entregava a um inocente jôgo de roleta, os números substituídos por figuras de animais. Um médico da roda, convidado a ir ao cemitério , negou-se fazendo blague:
- Não vou porque não se trata de cliente meu. Os que mandei para lá, tenho certeza, mandei bem mortos.
A descoberta naquele estado, da jovem Vicentina Dorneles, com 18 anos de idade, natural do distrito de Capané, tornava Cachoeira do Sul o palco do mais impressionante e estranho romance de amor. Desaparecida havia 17 meses, em companhia do namorado, João de Oliveira Simões Pires, também com a mesma idade, a jovem dera à luz no mato, completamente sem assistência; e oito meses depois da delivrance ainda permanecia como um bicho, escondida no pequeno terraço formado pelo teto de um jazigo. Ali sofreu fome e frio, agüentou as chuvas e geadas do inclemente inverno dos pampas. Julieta caipira viveu horas de fome, sêde e pavor em cenário de cemitério, apaixonada por sua encarnação de Romeu, filho de um cabo da milícia estadual com uma presidiária que assassinou o primeiro marido.

Vicentina, cujo comportamento anterior não era dos melhores, é filha de um curandeiro, agregado de uma fazenda, homem que goza de prestígio como parteiro entre as gestantes daquele êrmo. Acostumada ao trabalho do pai, não lhe foi difícil amarrar com um trapo o umbigo da criança, cortá-lo com uma faquinha que possuía e ficar à espera de João para que êste executasse o prometido: deixar a criança na casa do Sr. João Pivetta, residente na Rua Moron, onde a pequenina foi encontrada sob um telheiro guardada por Tupi, o cão da casa, que choramingava ao lado do pequeno ser.

O encontro da menina, que posteriormente foi batizada com o sugestivo nome de Maria Aparecida, agitou a população de Cachoeira do Sul. A pequenina perdera muito sangue pelo orifício umbilical. Levada ao Hospital de Caridade, estêve muitos dias à morte. Salva pela dedicação dos médicos e das freiras, foi entregue pelo Juiz de Menores ao Sr. Jair Bittencourt, garçom de um estabelecimento comercial da cidade; sua espôsa, D. Júlia, explicando os motivos que levaram o casal, cuja situação financeira não era das melhores e que já tem três filhos, a adotar a menina, disse muito comovente:
- Nossas crianças já estão crescidas. E, depois, ela não era tão doente, a pobrezinha...

O exílio voluntário dos jovens amantes teve início há 17 meses, quando o físico de Vicentina começou a mostrar o estado de gravidez em que se encontrava. Alegando que não queria permanecer no emprêgo, que não desejava ser vista na cidade, que os homens faziam gracejos a respeito de seu estado, a jovem foi para as barrancas do Rio Jacuí, onde, em companhia do namorado, passou a viver no mato. Quinze dias depois, João regressou à cidade e tôdas as noites voltava ao mato onde dormia numa furna com a companheira. Após nascer-lhe o filho, assustado com a revolta da opinião popular pela maneira como êles se livraram do inocente, aconselhou Vicentina a permanecer escondida. Disse-lhe que tôda a cidade procurava a mãe desnaturada, que se ela reaparecesse poderiam suspeitar dela, já que fôra vista, anteriormente, em estado de gravidez. E desta forma, o exílio voluntário de Vicentina prolongou-se. Com a chegada do inverno, o bambual onde viviam os amantes tornou-se excessivamente úmido. O rapaz, que procurava desesperadamente por emprêgo, conseguiu com o ozelador do cemitério a empreitada da pintura de alguns jazigos. Neste trabalho, descobriu o pequeno terraço, no alto do túmulo do finado João Carlos Costa. Aconselhou Vicentina a mudar-se para lá. Durante a noite dormiam juntos. De dia antes que o cemitério fôsse aberto, desciam para o mato próximo, usando a cruz do jazigo vizinho como escada. Degradavam-se cada dia mais, não se importando, depois de terem vivido tanto tempo no mato e no alto do jazigo, em dormir, quando chovia ou esfriava muito, dentro de um túmulo próximo.

O pai de João, entretanto, sargento reformado da Brigada Militar, protestou contra as despesas que o filho fazia em sua conta de armazém. Cortou o crédito do rapaz, impossibilitando-o de continuar comprando alimentos para Vicentina. Quando arrumava uns trocados, João levava frutas e restos de comida para sua lúgubre morada. Durante a noite, alumiavam o ambiente com cotos de vela das sepulturas. Tinham como moringa um vaso de vidro também retirado de um túmulo. Eis, entretanto, qua a parca alimentação começa a abater as fôrças de Vicentina, já bastante debilitada pelo parto. O inverno caiu de rijo e ela não pôde mais se locomover. Passou a permanecer dia e noite sôbre o teto da sepultura. Impossibilitada de descer para a capelinha onde são enterrados os sacerdotes falecidos da paróquia, Vicentina cobria o rosto com um trapo e assim enfrentava a chuva e o frio. Uma anciã, que da janela do hospital próximo via luz e movimento sôbre o túmulo, narrou ao médico que algo de estranho ocorria no cemitério. Considerando a idade da paciente, o facultativo vaticinou:
- São coisas da velhice!

Quando Vicentina foi localizada, já fazia uma semana que não comia. Havia oito dias, João lhe levara meia dúzia de bananas e algumas laranjas. Nem subiu. Assobiou e jogou as frutas para a jovem. Regressou logo para os braços de uma gorda matrona, cujo quarto, cuja cama e cujo carinho eram muito mais atraentes que sua fria, tétrica e macabra última moradia.

Um dia antes de ser descoberta, Vicentina ouviu passos de uma freira que foi rezar no túmulo dos padres. Pediu que a tirassem dali e lhe dessem água, da mesma forma que no dia seguinte pediria para as jovens. A irmã afirma que ouviu o apêlo e procurou pela dona da voz. A jovem, entretanto, diz que sentiu que alguém, com passos apressados, rumava em direção à porta do cemitério.

Certa tarde - conta Vicentina - quando era maior sua fome e mais cruel sua sêde, ouviu os passos que sabi serem do zelador. O homem parou num túmulo ao lado, ond depositou uma lata de água. Esperou que êle se afastasse um pouco e içou a lata com grande dificuldade. O zelador, hoje, confirma a história e diz que só agora encontrou explicação para o misteriosos desaparecimento de sua lata de carregra água. O único cuidado da infeliz era não ser vista por ninguém, temerosa da prisão onde ela e João pagariam o crime de ter enjeitado o filho recém-nascido. Protegida por um pequeno muro, que não chega a ter meio metro de altura, permanecia deitada o dia inteiro. E assim ficou pelo espaço de sete meses até que, febril e quase inconsciente, ouvindo as vozes das môças, implorou por socorro.

Ao ser retirada de sua tétrica reclusão, Vicentina pesava apenas 28 quilos. Cabelos longos e emaranhados, coberta de andrajos, unhas enormes, era a figura perfeita da miséria. Uma freira afirmou que jamais encontrara, em tôda a sua longa prática de hospital, uma criatura tão suja e tão fraca. E enquanto durava o suplício de Vicentina, não era menor o sofrimento de João. Isto êle confessa com a simplicidade dos ignorantes, na carta que, do fundo do cárcere, escreveu ao Delegado Ruy Weber Dias. Eu passava dia e noite pensando: o que vou fazer com aquela mulher?

Fruto do meio em que foi criado, as boas intenções do rapaz (se é que podem ser assim classificadas) ressaltam no fato de êle ter colocado a filhinha na casa de uma família que sabia gostar de crianças. Podia ter jogado a pequerrucha no rio, podia ter assassinado a mulher e enterrar o cadáver no mato. Naõ narrou seu drama ao pai, porque êste nem a pensão para dormir lhe pagava mais. Da autoridade, só conhecia o direito de castigar. Temia ser prêso pela sedução da namorada e pelo abandono da filha. Habituado com a liberdade, pois freqüentava o bas-fond desde os 15 anos, reagiu à prisão quando um cabo da Fôrça Estadual foi buscá-lo em casa, após a descoberta de Vicentina. Tudo isso foi reconhecido pelo íntegro Juiz de Menores de Cachoeira do Sul, Dr. Arthur Prates Picoli, que determinou a libertação do rapaz.

Cena profundamente tocante, à margem do caso, foi proporcionada pelo encontro de Vicentina com a filhinha, atualmente com sete meses de idade. Conduzida pela reportagem de O Cruzeiro e pelo correspondente do Diário de Notícias, de Pôrto Alegre, Maria Aparecida entrou no quarto do hospital onde sua infeliz mãe se recupera. Vicentina tomou a criança nos braços, olhou-a ternamente e beijou-a com carinho. A seu lado, Dona Júlia, a mãe de criação, temerosa de perder a menina, era a mais emocionada.
- Nós gostamos muito dela - explicava arquejante para Vicentina. - Ela é muito boazinha. Dá muita despesa. Come duas latas de leite em pó por semana.
A pequena ajeitou-se no regaço materno e caiu em profundo sono.

O Cruzeiro on line é um trabalho de preservação histórica do site Memória Viva