Ludmila

Textos e fotos de LUCIANO CARNEIRO
 

Há certos nomes que dispensam apresentação, e Ludmila Popov poderia ser um dêles. Para justificar esta reportagem, bastaria mostrar suas fotos e dizer: vejam, é bonita. Nada mais. Acontece que Ludmila, além de ter um rosto, tem uma história: passou a infância num campo de trabalhos forçados durante a guerra. E tem também sua vitória no concurso de recepcionistas da próxima Feira Internacional do Rio. Eram 2.000 candidatas que disputavam 200 lugares. Ludmila, falando português, espanhol, francês, inglês, alemão, polonês, russo e ucraniano, e tendo cultura e inteligência, além de boa aparência, ficou em primeiro lugar.

E acontece, por último, que Ludmila agora é brasileira. Acaba de se naturalizar. Há dias, encontrando o Chefe da Nação, disse seu muito-obrigada:
- Presidente, permiti que vos agradeça o decreto de minha naturalização.
Ao que Juscelino retrucou:
- O Brasil é que tem de agradecer a você, Ludmila.

Ludmila Popov baixou os olhos, comovida. Ludmila nasceu em novembro de 1937, na Polônia, de uma família de refugiados russos. Seu pai era o engenheiro de minas Alexandre Popov. Sua mãe, D. Valentina, era arquiteta. E Irene, a irmã mais velha, tinha dois anos.

Ao tempo em que as crianças ouvem canções de ninar, Ludmila escutava as bombas que explodiam. Ao contrário das crianças que ela vê hoje em dia no Brasil, com festas de Natal e de aniversário, praia onde ir, presentes a receber - Ludmila Popov teve uma infância sem doces, sem mingau, sem brinquedos.

Antes dos três anos, teve de mudar de casa - e a família tôda levou apenas o que podia levar em maletas de mão. Um ano mais tarde, enquanto os Popov se protegiam numa trincheira, os aviões reduziram a cinzas a segunda casa de Ludmila. E ficaram apenas com a roupa do corpo. E aí os alemães, donos do terreno, os puseram em vagões de transportar gado, e os mandaram para um campo de trabalho forçado na Alemanha.

A comida era igual à dos prisioneiros dos campos de concentração: rações de batata amassada com casca. O contrôle era rigoroso, nem as crianças como Ludmila tinham liberdade de movimentos. Mas porque o pai era engenheiro, Irene e Ludmila podiam freqüentar a escola.

Os dias eram horríveis. A comida escassa e miserável. O trabalho escravo e a falta de liberdade, um pesadelo. A vida não tinha graça. Mas ruim mesmo era a noite. Se não havia alarme de bombardeio, todos tinhamde dormir vestidos, prontos para uma saída súbita. Se havia alarme, tinham de ir para as trincheiras, passar a noite ao relento, tiritando de frio. Só os alemães tinham direito a abrigo antiaéreo. Refugiados e prisioneiros apenas as trincheiras.

Até hoje Ludmila destesta ouvir sirene de ambulância. Tudo lhe volta à mente. É como se os aviões estivessem para chegar, com se fôsse o anúncio de um bombardeio.

Em Niterói, meses depois de sua família distanciar-se da guerra e das ruínas da Alemanha, Ludmila assistiu casualmente a um choque de dois carros. E ante o estrondo, desatou a chorar. Ela associa qualquer barulho forte à sua infância triste de menina refugiada.

Foi quando uma senhora se aproximou da menina que chorava na rua e perguntou:
- Minha fillha, o que aconteceu? Posso fazer algo por você?
Ludimila levantou os olhos sem entender. Era a primeira vez que chorava e um estranho se interessava por ela. E sorriu, ainda com lágrimas nos olhos.

Nesse momento preciso sentiu ter descoberto sua pátria.

Mais tarde, quando o pai arranja um emprêgo de engenheiro no Arsenal da Marinha, e pergunta se ela quer ir para a América reunir-se a parentes, Ludmila responde sem hesitar:
- Meu pai, minha terra é o Brasil.

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