Joventino, Cangaceiro em férias

Na tarde de quarta-feira última, dia 2 de setembro, uma notícia correu célere pelas ruas da cidade paulista de Araçatuba: Joventino Galvão da Silva, cangaceiro aposentado, o homem apontado pelo Deputado Tenório Cavalcanti como autor do crime do Sacopã, era, nada mais nada menos, do que o proprietário de um bar na cidade. A Polícia pôs-se a campo, mas Joventino não foi encontrado em parte alguma. O fato contribuiu para que a sensação aumentasse. Entretanto, às 23 horas do mesmo dia, Joventino se apresentava ao Delegado Regional de Araçatuba. Dr. Sebastião Fonseca, munido de um habeas-corpus preventivo e acompanhado por dois advogados, os Drs. Maurício Martins Leite e Rubens Carvalho Homem. Além do documento legal que lhe garantia a liberdade, êle levava nos lábios, prontinha pra ser dita, uma frase: - Nada tenho a ver com êsse crime.

Antes mesmo de iniciar as suas declarações, solicitou garantias para sua pêssoa. Motivo alegado: atribuiu a acusação que lhe faz o Deputado Tenório Cavalcanti à vingança política. No requerimento encaminhado pos seus advogados, pede seja evitada a sua remoção para o Rio, onde, afirma, tem certeza de que será vítima de coação e violências. O Delegado-Adjunto, Dr. Hernani Ferreira, a quem ficou afeta a proteção pessoal requerida pelo pistoleiro, tomou as declarações de Joventino, que nega, terminantemente (e com insistência), tenha participado do crime em que perdeu a vida o bancário Afrânio. Mas seu depoimento confirma quase totalmente as informações prestadas pelo Deputado Tenório a O Cruzeiro. (Nega apenas a autoria de crimes de morte na Paraíba e no Caso do Citroen Negro.)

Joventino permaneceu na Delegacia de Araçatuba das 23 horas de quarta-feira até as 16 horas do dia seguinte, quando, em companhia dos seus advogados, retirou-se para uma residência particular.

Homem franzino, baixo, rosto escuro e olhar frio, Joventino aparenta uma calma só traída, de vez em quando, por um leve tremer de mãos. Parece que tem decoradas tôdas as respostas para as perguntas que lhe fazem. Afirma, com ênfase na voz, que não conhece o Deputado Tenório nem qualquer das personagens envolvidas no crime do Sacopã. Quando alguém fala do Deputado Tenório, êle não consegue esconder uma certa raiva:
- O Deputado Tenório Cavalcanti está doido. Eu nunca pensei que o meu nome fôsse envolvido nesse crime. Ninguém pode provar uma coisa que eu não fiz.

O repórter pergunta como êle recebeu a acusação do Deputado, segundo as quais é autor de vários crimes de morte na Paraíba. Joventino ensaia um sorriso e faz um pequeno discurso:
- Apelo para a Justiça do País para que aponte qualquer crime de morte por mim cometido.

E acrescenta, a uma nova pergunta, que respondeu a alguns processos por agressão (tiros e facadas), mas isso quanso era soldado na Paraíba e tôdas as vítimas apresentaram resistência. Quanto à tentativa de morte contra o Deputado Luiz Bronzeado, Joventino dá a seguinte versão: no dia 12 de agôsto de 1951 ia passando por Lagoa do Remígio. Era dia de eleição municipal. Parou num bar para tomar café, quando populares começaram a trocar tiros. No meio estava o Deputado Bronzeado que, sem dizer nada, atirou em sua direção. Êle, Joventino, sacou de uma arma e revidou. Ambos ficaram feridos. Do hospital, foi para a Casa de Detenção de João Pessoa, onde permaneceu 45 dias e saiu mediante habeas-corpus. Depois de 15 dias embarcava para o Rio. Atribuiu ao incidente com o Deputado Bronzeado a perda do emprêgo que tinha na Delegacia de Trânsito de João Pessoa e, agora, a acusação de que foi o autro do crime do Sacopã:
- A acusação do Deputado Tenório é política. Êle é amigo do Deputado Luiz Bronzeado, seu correligionário político e meu inimigo. Eu sempre fui cabo eleitoral do P.S.D. lá na Paraíba. Só pode ser por isso.

O repórter pergunta se as atividades de cabo eleitoral não estavam ligadas às agressões por resistência e Joventino responde simplesmente que a política de lá é agitada e cheia de incidentes.

Indagado sôbre a possibilidade de ser pôsto frente ao Deputado Tenório, declara que não teme e que responderá a qualquer pergunta. Mas acrescenta, logo a seguir, que deporá desde que as autoridades autorizem.

Finalmente, faz questão de contar a sua vida, desde a chegada ao Rio até o presente. Em síntese: saiu da Paraíba em outubro de 1951. Em setembro, no Rio, empregou-se como secreta da Central do Brasil, onde permaneceu de 4 a 5 meses. Em fevereiro de 1952 foi para a cidade de Andradina (São Paulo), morar na companhia dos pais. Depois de 3 meses foi para Monte Castelo, onde trabalhou por conta própria, com uma fábrica de farinha de mandioca. Está em Araçatuba há 3 anos, estabelecido como bar e café.

Diz que não sabe se ainda estava no Rio, quando ocorreu o crime, e que não mais voltou desde que foi para o interior de São Paulo. Mais uma vez, o repórter insiste no Caso Sacopã e êle responde:
- Se eu tivesse alguma coisa a ver com êsse crime não me tinha apresentado e o senhor não estava aqui falando comigo.

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