O caso estranho do outro Tenente Bandeira

Há um cafèzinho, Bandeira acende um cigarro, e a conversa toma outro rumo. O repórter indaga de Tenório e Bandeira escuta, perplexo:

Ubiratan: - Tenório, você já ouviu falar de um outro Tenente Bandeira, também da Aeronáutica, talvez até amigo de Marina? Seria isto mais um boato para embaraçar os fios da teia do Sacopã?

Tenório: - Não, não é boato. É fato, aliás ausente do processo. Chama-se Carlos Leão de Sousa Bandeira, e era também Tenente ao tempo do crime. Hoje deve ser Capitão ou Major.

Bandeira (interrompendo): - Lembro-me, sim, de outro Bandeira. Êle até fez parte da minha escolta. Quando fui prêso e apareci no Distrito Policial, êle estava do meu lado. Recordo até que havia, na ocasião, um movimento para linchar-me, por parte dos amigos de Afrânio. Lembro-me de que êste meu companheiro de farda acalmou os ânimos. Êste fato vem-me à memória, porque nunca esquecerei de que recebi uma cusparada no rosto de um popular exaltado, talvez amigo de Afrânio.

Ubiratan (para Tenório): - Mas êste novo Bandeira tem algo com o caso? Ou apenas uma coincidência de nomes?

Tenório: - Com a autoria do crime posso garantir que êle não tem nada. É tão inocente quanto êste que aqui está. A sua exata posição não posso revelar agora. Só tenho a lamentar é que êste fato não conste do processo, embora fôsse do conhecimento das autoridades policiais.

Tenório (para Bandeira): - Você já viu alguma vez o criminoso Joventino? Faça um esfôrço de memória, vamos...

Bandeira: - Deputado, depois que V. Exa. me mostrou o retrato dêle, eu fiquei pensando, pensando. Não posso garantir, devio à distância do tempo. Mas a fisionomia do Joventino não me é estranha. Um dia eu estava nas pedras da Urca, ao lado de Marina. Recordo que havia um grupo de três pessoas nos observando atentamente. E com tal insistência, que eu me levantei e dirigi-me a um homem, cujos traços me lembram os de Joventino. Disse-lhe: Que é que há, rapaz? O homem saiu às pressas, desapareceu. Várias vêzes havia grupinhos que nos olhavam, nos seguiam, não sei com que intenções.

Tenório: - Mas eu sei, Bandeira. Êsses grupinhos queriam provocar um encontro seu com Afrânio e, como conseqüência, uma briga entre vocês. Então, Afrânio receberia uma bala perdida, e você seria acusado como criminoso. Isso que você me conta coincide perfeitamente com as minhas provas e com o ritmo do meu raciocínio. Diga-me com tôda a sinceridade, você não andou recebendo telefonemas estranhos? Telefonemas que lhe falavam da infidelidade de Marina? Telefonemas que Marina namorava outro home? Fale a verdade, Bandeira.

Bandeira: - Deputado, para V. Rxa. eu não escondo nada. Já lhe disse tudo o que sei e tuo o que, aos poucos, me volta à memória. É verdade: recebi dezenas de telefonemas estranhos, que falavam de Marina. Eu nunca os ouvi até o fim. Quando percebia o assunto, desligava o aparelho.

Tenório: - Está vendo? Êles queriam provocar um choque seu com Afrânio, um encontro, uma briga. Dêste incidente, êles tirariam partido. Aproveitavam a briga para matar Afrânio. Não está claro, Bandeira?

Bandeira: - E poderiam até errar o alvo e acertarem em mim.

Tenório: - E sôbre Marina? Qual a verdadeira posição de Marina? Fale, homem, que eu quero conferir a sua história com a minha. Precisamos cotejar fatos. Só a verdade me interessa.

Bandeira: - Juro por Deus que esta minha famosa paixão por Marina é lenda pura. É subliteratura do processo. Deputado, eu vivia em Fortaleza, não no Rio. Aqui vim para passar férias. Logo, como poderia eu ter êsses amores brutais por Marina? Essa paixão de fogo de que fui acusado, a ponto de assassinar um homem? Marina nunca significou nada para mim. Foi uma colega de praia, exatamente isso, uma colega de praia.

Tenório: - Como você explica certas insinuações pessoais suas, em relação a Marina, logo após sua prisão?

Bandeira: - Segui instruções do meu advogado. Êle me recomendou que tratasse bem a Marina, para que ela não me envolvesse no crime. Argumentei que isso era duro para mim, andar fingindo amôres falsos. Maso meu advogado insistia, argumentava e eu confiava nêle. Lembro que certa vez, já depois de ter prestado oseu segundo depoimento no Distrito Policial, aquêle que me acusava, Marina telefonou para a base de Santa Cruz. Recusei-me a atender o telefonema.Tinha motivos fortes. Marina, dois dias antes de me acusar na Polícia, tinha pedido que eu casasse com ela. Contornei a situação. Disse que tinha que pensar muito. Afinal, um casamento não se decidia assim. Vamos casar e pronto... sem amor. Pois o meu advogado irritou-se por eu não ter falado com a môça. Disse que eu estava-me enterrando.

Tenório: - Você voltou a falar com Marina?

Bandeira: - Sim, em atenção ao estrilo do meu defensor. Ela telefonou outra vez e eu conversei com ela. Marina soluçava, pedia-me perdão pelas suas acusações. Disse que fôra forçada a depor contra mim, no interior de um apartamento secreto. Naquela ocasião, o Promotor Emerson de Lima (se não me engano Marina falou nêle e não no Delegado Hermes Machado) apontou-lhe uma arma. A moça desmaiou, e quando acordou êles estavam rindo. Alguém lhe disse: Marina, você se assusta à toa. Nós estávamos apenas lhe mostrando a arma. Não foi com uma dessas que o Tenente Bandeira matou o bancário Afrânio?

Tenório e o processo

O Deputado Tenório Cavalcanti fêz uma pausa na conversa com Bandeira, voltando-se para o repórter. Desta vez para comentar alguns tópicos do processo. Foi quando ouviu uma revelação de Bandeira:
- Era meu intuito ao sair daqui, por livramento condicional, investigar o meu caso. Só sossegaria quando provasse a minha inocência.
Ficou depois escutando o Deputado, que respondia à primeira pergunta dêste novo capítulo:
- Sôbre o aspecto jurídico teríamos que escrever um mar de páginas. Cuidarei dos aspectos isolados, os vulneráveis por excelência. O próprio relatório do Delegado Hermes Machado é um achado, uma triste ironia pra Bandeira. O Delegado sabia que estava denunciando um inocente, tinha certeza disso. Tanto assim que teve uma frase providencial, deixou uma brecha para escapar, uma saída para acontecimentos futuros. Veja, Ubiratan, esta sentença do Sr. Hermes: Se aparecerem amanhã outras pessoas ligadas direta ou indiretamente ao crime, estarei pronto a lavar as mãos como Pilatos. Está aí, vibrante, feérica, a prova de que o Delegado estava sob coação, agia pressionado por fôrça maior, a fôrça que construiu a desgraça do Tenente Bandeira.

Ubiratan: - Por que o Delegado não acreditava firmemente na culpa de Bandeira? Você tem alguma idéia?

Tenório: - Tenho muitas idéias. Havia muitos motivos. Um dêles, de ordem técnica. Está nos autos. O Delegado não encontrou no Citroen nenhuma individual dactiloscópica de Bandeira, nem de Avancini. Nem impressões palmares de ambos. Mas encontrou impressões digitais de pessoas desconhecidas, cuja identidade a Polícia não quis apurar. Nem mesmo tentou fazê-lo, embora sobrassem indícios poderosos que encaminhavam o crime para outros rumos. Bem diferentes, bem prováveis. Há por outro lado, êste fato singular, extra-processo: a camisa que Afrânio vestia, quando foi encontrado, morto, no Citroen, não é a mesma vista no Instituto Médico-Legal. Quem trocou a camisa do cadáver? Por que trocou? Outro detalhe é o das diferentes perfurações de bala, no corpo do bancário, com a trajetória dos tiros, que autorizam, mesmo a um aprendiz de Sherlock, a pensar na pluralidade de autores. Assunto, aliás, que tratarei mais adiante, e com provas. Também curioso é o fato de o Promotor Emerson de Lima ter arrolado testemunhas que êle classificou de indispensáveis, por ocasião do julgamento. Por que dispensou, por exemplo, a Avancini? Respondo por êle: porque temeu que Avancini fraquejasse. Temeu que a testemunha falsa enfraquecesse o libelo da acusação.

Ubiratan: - Posso entender isto como acusação frontal ao Promotor Emerson de Lima?

Tenório: - É uma acusação direta, uma bala na pupila moral dêste homem.

Ubiratan: - Outro fato, Tenório?

Tenório: - Não desejo lançar suspeitas sobre o Juiz João Claudino Oliveira Cruz. Só falo mal de alguém, com provas na mão. Mas quero chamar a atenção do povo para o seguinte detalhe, que poderia receber o batismo de mera coincidência. O juiz substituto, que atuou no processo, foi o mesmo que decretou a prisão preventiva de Bandeira, contrariando dispositivo de lei; o mesmo que presidiu ao Júri, omesmo que sumariou e agora é juiz da Vara de Execuções. E ainda vai ser quem decidirá sôbre o julgamento condicional do rapaz. Você não acha que isto é muita mera coincidência?

Ubiratan: - Que mais sôbre a letra do processo?

Tenório: - Todos os argumentos que favorecem a Bandeira, em relação ao processo, já foram objeto de muitas reportagens dos Diários Associados e do próprio O Cruzeiro. São conhecidos, populares, ao alcance do raciocínio menos avisado. Por que repeti-los, gastando tinta e papel? Bem, publique mais êste: o bancário Nuno Alves Pereira, colega de Afrânio, na agência do Banco do Brasil de Botafogo, conta que viu um homem alto e moreno procurando pela vítima, às vésperas do crime. Estava furioso. E êste homem não era Bandeira, sustenta o informante. Tampouco aquêle episódio da briga, no Clube dos Caiçaras, se refere ao Tenente Alberto Jorge Franco Bandeira, detalhe explorado pela acusação, que procurou pintar o rapaz como pessoa violenta, como homem brigão. Posso garantir que o meu Tenente Bandeira, êste que habita o cubículo 21 da Rua Frei Caneca, só uma vez esteve no Caiçaras, quando ainda era cadete, muitos anos antes do crime. E não brigou com ninguém.

Retorna    1 | 2 | 3 | 4    Continuação

O Cruzeiro on line é um trabalho de preservação histórica do site Memória Viva