Ninguém
conhece ninguém
JOSÉ
AMÁDIO apresenta KIM NOVAK
Bossa
Nova & Pêssego
A Kim Novak
do cinema é beleza bossa-nova. É um pêssego,
como todo mundo diz. Admitamos que a imagem não é
muito original, mas que fazer com a voz do povo? A diabinha exibe
uma sensualidade serena, quase irreal, como se estivesse envolta
em névoa. Altona, quase gordota, quando fala derrama sôbre
o interlocutor o seu olhar verde-avelã e se o dito interlocutor
não é firme das pernas, senhoras minhas, vai direitinho
ao chão. É suave, sem ser adocicada. É mel,
sem ser açucarada. Abelhas espirituais estão sempre
esvoaçando em cima de seus atributos físicos.
- Mulher
assim, só de cem em cem anos - dizem os entendidos.
Por que não comentar!
Modêlo
& Bilheteria
Quando Rita
Hayworth deixou a Califórnia, em 1952, ou 3, o estúdio
ficou sem sua prima-dona, sem sua Gilda, Harry Cohn, o big-boss,
massageou a careca e decidiu que precisava fazer uma nova estrêla.
E assim despontou Kim Novak. Despontou porque já surgiu
estrêla, de quantas pontas não sei. Dez, vinte talvez,
ou setenta. Ela foi inventada para tapar buraco. Quando chegou
a Hollywood (era modêlo nobremente desconhecido), sem nunca
ter ouvido sequer falar na arte de representar, e a colocaram
diante das câmaras para teste, um produtor exasperou-se:
- Ela é
incapaz de recitar até mesmo o Hino Nacional!
Dizem que Cohn interferiu:
- Para quê? Basta olhá-la.
E tinha razão.
O público do mundo inteiro passou a olhá-la . Depois
de seis filmes, era a bilheteria n.º 1 dos Estados Unidos,
a nova deusa.
Made in Hollywood.
Rosas
& Cogumelos
Mulher bonita
não precisa de história, assim como rosa não
precisa de história, nem nuvem precisa, nem crepúsculo,
nem pássaro, sem trigal maduro. Uma rosa, como disse aquela
nossa amiga, é uma rosa. Uma Kim é uma Kim. Bem
Novak. Uma rosa amarela. Para explicá-la não adianta
ser psicólogo ou mestre de almas. Creio que só um
botânico a compreenderia. Uma rosa ampla, farta, que desabrochou
com violência e espalha suas pétalas sempre renovadas
pelo mundo inteiro. Uma rosa para todas os ventos. Digo isso com
serenidade, sem arroubos de marinheiro de segunda viagem. Depois
que andei às voltas com Elizabeth Taylor, fiquei vacinado
contra artistas de cinema. Consigo enfrentá-las sem me
sentir canibal em jejum. Verdade, verdade, a mulher mais bonita
que vi em minha vida foi certa adolescente alemã que vendia
cogumelos à margem de uma auto-estrada, na Alemanha. Eu
viajava num Volkswagen com Ed Keffel quando a vi, numa indecisa
manhã de novembro. Foi um choque, uma emoção,
uma pancada de luz.
Instante de beleza.
Vulcão
& Confusão
Nosso primeiro
bate-papo aconteceu no apartamento de Harry Stone, o embaixador
de Hollywood no Brasil. Era como se estivéssemos na cratera
de um vulcão ativo. Pobre môça! Dezenas de
fotógrafos, de cinegrafistas e caçadores de autógrafos,
de mocinhos que querem aparecer ao lado dos cartazes. O programa
de entrevistas e horários, que Mr. Stone elaborara britânicamente,
foi brasileiramente conturbado. Todos queriam a môça
ao mesmo tempo. Parecia bicharada. Ela se manteve amável
até o fim, forçando sorrisos, mas deve ter pensado
cobras e elefantes da nossa educação. Deve ter pensado
tatus e tamanduás, também. Conseguimos encerrá-la
num quarto do apartamento. Estava quase chorando. Mas nada reclamou
contra a turba, a não ser uns discretos “uffs”.
Mário Camarinha, com seu inglês de Berkeley, tentou
consolá-la. Ela retocou a maquilagem, com mais alguns “uffs”.
E passou para a história.
Autenticidade
& Puritanismo
De perto, é
ainda mais impressionante. Se eu fôsse editor do Larousse,
escreveria só isso: Kim Novak, môça bonita.
A gente tem vontade de tomá-la por um canudinho, como se
fôsse cajuada. Seu encanto é tridimensional, e como
estamos no regime da bossa-nova, diria que seus gestos são
quase estereofônicos. Afirma que se considera uma jovem
simples porque consegue ser ela mesma no epicentro do ciclone
que é sua vida. Gosta de publicidade, é claro, precisa
dela, mas luta para não se deixar envolver fundamentalmente.
Procura, às vêzes, a liberdade do anonimato de que
goza uma garôta de Bangu, por exemplo. Ou de Montmartre.
É uma espécie de Cleópatra com alma de balconista
da Sloper. Consegue ser assim, quando não está diante
das câmaras. Tem a suprema coragem de ser fiel a si própria
e de conciliar essa fidelidade com o puritanismo vigente.
Se é que vocês
me entendem.
Society
& Samba
Kim detesta fundamentalmente
o artificialismo da vida social. Não gosta de grã-finos,
de um modo geral. Diz que prefere contato com o povo, com a gente
simples. Foi por isso que permaneceu apenas 45 minutos no Baile
do Municipal (show absoluto) e saiu para as ruas com Jorginho
Guinle, seu acompanhante no Brasil. De calça comprida e
camisa folgada, entrou num bloco de sujos no Tabuleiro da Baiana.
Sua grande máscara preta permitiu que aderisse (incógnita)
ao grupo do sereno para assistir à saída do Municipal.
Aplaudiu as fantasias mais bonitas. Achou o pessoal "gentil
e bondoso". Adorou o samba, tentou dançá-lo
e ficou com as pernas doloridas. Sua música preferida foi
"Me dá um Dinheiro Aí" (aprendeu a letra
em português). Divertiu-se pelo prazer de se divertir, sem
dopings. Num entardecer foi à Cantina Sorrento com o Jorginho
e Oscar Ornstein comer democràticamente uma pizza napolitana
do Emílio & tio. Não bebe, não fuma,
não sei se joga. Diz textualmente que ama o amor. Mas nessa
parte prefiro não tocar.
A môça
é noiva.
Kit
& Costados
Nasceu em
Chicago, no dia 13 de fevereiro de 1933, estando a Natureza em
instante de capricho. (Afirmei que mulher bonita não precisa
de história mas jornalista é jornalista. Vou contá-la,
embora todo mundo já a conheça.) Seus pais, Joseph
e Blanche Novak (norte-americanos de ascendência tcheca),
batizaram-na Marilyn Pauline. Mais tarde o estúdio rebatizou-a
Kit Marlowe. Ela insistiu no Novak. Finalmente, a parada ficou
resolvida: Kim Novak. Sua infância foi comum. O pai tinha
desgôsto porque a menina era canhota (continua canhota e
suas mãos não são bonitas). Diz que era magra,
anêmica, e que na escola estava sempre nos últimos
lugares. Adolescente, treinou para modêlo e mereceu os primeiros
assobios. Tanto ela como a irmã (três anos mais velha)
tiveram aulas de piano, canto e dança. Aos 19 anos era
modêlo profissional. Foi como garôta-propaganda que
deu com os costados em Hollywood.
Costados que lhe garantiram
fama.
Fidel
& Krutchev
Tem admiração
por Fidel Castro e, quando o barbudo assumiu o poder, enviou-lhe
longo telegrama de apoio. Também gosta de Krutchev, com
quem bateu papo em Hollywood. Considera o Presidente Einsenhower
um regular jogador de gôlfe (isso não me disse, mas
sei). Seu partido nos Estados Unidos é o Democrata “mas
também depende de quem estiver concorrendo às eleições”.
Seu filme preferido: Picnic. Gosta de gatos e
é dona daquele com quem contracenou em Sortilégio
de Amor. Pinta, esculpe e faz poesia. Gostou muito do
Rio de Janeiro e ficou impresionada com o Cristo Redentor. Diz
que, com aquela estátua, a cidade fica parecendo uma grande
igreja.
É
católica.
Temperamento & Psicanálise
Em Hollywood
consideram-na temperamental. De quando em quando é acometida
por aquêles ataques histéricos tão comuns
às prima-donas. Sempre fica nervosa antes de filmar. Vive
rodeada de talismãs e amuletos. Seu primeiro papel de responsabilidade
(Picnic) deixou-a em estado de tensão
constante. Tinha mêdo do diretor Joshua Logan, tinha mêdo
do cartaz de William Holden e de Rosalind Russel. Durante a filmagem
de Pal Joey, fêz o estúdio inteiro
esperar por ela durante duas horas. Entre os que a aguardavam,
estava Rita Hayworth, a deusa que substituíra. Sua vida
emocional também é muito complexa e diversificada.
Até pouco tempo submetia-se a tratamento psicanalítico.
Já apareceu na capa de tôdas as revistas importantes
do mundo. Já passou centenas de horas da sua vida concedendo
entrevistas, posando para fotógrafos e cinegrafistas. É
inteligente e sabe falar com desembaraço. Entretanto, quando
foi inventada, o estúdio obrigou-a a decorar respostas.
Para perguntas assim:
- Você
gosta de ler? Que livros prefere?
A resposta era assim:
Poesia e prosa. Adoro Shakespeare e bons livros de filosofia.
Agora responde
por conta própria.
Fotogenia
& Grandeza
Os cameramen
a consideram uma das estrêlas mais fotogênicas do
cinema. Seu rosto é material inesgotável. Fotografa
bem em qualquer ângulo e o resultado comove os espectadores.
Em Um Corpo que Cai (Vertigo)
estava irreal de tão bonita. E, representou muito bem.
Como atriz madura. Em suma: grau 100 para a lourinha Novak. Perguntou-lhe
se gostava de Liz Taylor. Respondeu:
- Quem não
gosta?
Por tudo isso, pelo
que ela é, pelo que a gente gostaria que ela fôsse,
meto-me na pele de uma das nossas macacas de auditório
e afirmo com certa solenidade:
- É
a maior!