Sexta-feira, 13, Dia Fatídico

Muitas pessoas perguntam-me se não estou fazendo do Sr. Abelardo Jurema um mártir da Revolução, se sua situação econômica é, realmente, precária. Em resposta transcrevo carta particular que dêle recebi, fornecendo elementos para que os homens de boa-fé possam julgá-lo. A verdadeira missão do jornalista é a da busca incessante da notícia verdadeira. Nossas emoções não são notícias.
NILO DE OLIVEIRA

Lima, 19 de junho de 1964

Nilo, amigo – Concluído o livro e de acôrdo com o seu telefonema de ontem, estou-lhe enviando os originais. Peço-lhe telefonar para minha mulher, 26-84-64 e 26-62-64, para ela ir receber os “cobres” na segunda-feira. Preciso dêles, pois assim minha mulher terá elementos para pôr em marcha o enxoval de uma filha noiva em João Pessoa, cujo noivo já está construindo a sua casinha para casar-se êste ano. Com os acontecimentos, havia suspendido o casamento. Agora, com o livro, já disse à minha mulher para fazê-lo êste ano. OK?

Ontem, com surprêsa, recebi o número de “O Cruzeiro”, de quarta-feira, já com o COMÊÇO DO FIM. Você foi extraordinário. Está bom e sobretudo os subtítulos que você colocou estão magníficos. Penso que o livro terá grande público. Fui narrando, quem era grande, ficou maior, quem era pequeno, não cresceu, e quem não valia nada, nem sequer apareceu nas páginas do livro. Fui mais o jornalista do que o político. A alma de repórter continua em mim. Que me desculpem os personagens de tôda a vida brasileira dos últimos tempos. Escrevo para a História e não posso mentir. Você vai ver pelos originais que há capítulos de sensação pela oportunidade, pelo ineditismo e sobretudo pela veracidade. Podem, por convenicência, alguns dos citados negar fatos. Negá-los apenas, mas êles existiram. Não criei nada, apenas botei a memória para funcionar. Foi só.

Logo que ficar pronto o livro, mande-me alguns exemplares. Sim? Mande-me dizer sempre como vão as coisas.

Estou sempre sedento pelas notícias.

a) ABELARDO JUREMA


Por ABELARDO JUREMA
Fotos da Equipe de “O Cruzeiro”

Passado o episódio do Estado de Sítio, parecia que o Presidente João Goulart iria nortear o seu Govêrno mais para o predomínio do fato administrativo, sobrepondo-se ao fato político que já consumira mais da metade do seu mandato. Seguiram-se reuniões com os técnicos. Os Ministérios de Minas e Energia, Viação e Obras Públicas, Educação, Saúde e Agricultura passaram a organizar planejamentos. Planos até audaciosos, mas de reclamo de tôda uma Nação em desenvolvimento. JK havia sacudido o País de Norte a Sul com obras monumentais. Jânio Quadros foi apenas o ético, consumindo todos os seus sete meses de Govêrno com inquérito e bilhetinhos. Em mais de um ano de govêrno parlamentarista, o Presidente não marcara nenhum tento administrativo. Estava na estaca zero. Os conciliábulos políticos tomaram-lhe todo o tempo. Não sobrava nada para despacho com chefes de serviços, nem para estudos com os técnicos. Por tôda a imprensa, comentarista políticos, cronistas, observadores e articulistas, via-se o fato político predominar totalmente.

A tônica do combate ao Presidente era a sua frouxidão administrativa. Procuravam os oposicionistas impingir a idéia de que o Chefe da Nação era incapaz, primário, preguiçoso e até analfabeto. Subestimavam uma figura de homem público que não era nada daquilo. Inteligente, astuto, vivo, com imensa capacidade de audiência e outra enorme de falar e de expor, o Sr. João Goulart pregou, realmente, sustos aos seus inúmeros adversários. Sustos de verdade com jogadas imprevisíveis, que pecavam apenas pela sua falta de complementação, pela sua improvisação e falta de continuidade. Sobretudo, pela sua imaturidade, pois o Presidente as lançava logo, sem que estivesse armada ainda a alternativa para o êxito ou para o insucesso. Curioso, no manuseio com os políticos, com o fato político, com a própria administração, era êle lento, demasiadamente demorado em qualquer solução definitiva! No jôgo político, nas cartadas, nos lances era precipitado e jamais aguardava o amadurecimento da idéia!

Passou, de repente, o Sr. João Goulart, para estudos sérios da administração. Lançou em pauta o aproveitamento das Sete Quedas do Iguaçu, planejou hidrelétricas do extremo-norte ao sul; investiu no setor da agricultura, adquirindo numerosos tratores e máquinas agrícolas; agitou o campo educacional com um programa intensivo de alfabetização popular; traço, na Viação, largo programa rodoviário que subia a centenas de bilhões de cruzeiros; avançou sôbre as refinarias particulares de petróleo; ampliou a assistência médica aos Estados, através de convênios pelo Ministério da Saúde; abriu frentes de luta contra a exploração e a carestia; abriu perspectivas para o magistério primário, Polícia Militar e magistratura estaduais; convocou técnicos da melhor categoria para o acêrto das nossas dívidas externas, imprimindo novos rumos econômicos e financeiros à nossa política externa.

ESTRATÉGIA DAS REFORMAS

Não saíam de sua cabeça, contudo, as reformas. Especialmente a agrária. A princípio, pensava que, com um programa de obras tão arrojado, conseguiria uma opinião pública embalada em tôrno das reformas, com reflexos intensos no Congresso Nacional e debilitamento de tôda a oposição.

Sem paciência para aguardar alguns efeitos da nova política de administração, o Presidente começou a fazer pronunciamentos que provocavam não apenas a oposição, mas assustavam aos seus próprios correligionários. As suas mensagens ao Congresso Nacional, apesar de vasadas em têrmos altos e respeitosos, colocando em pauta vários problemas, sobressaltavam os partidos políticos. Mais ainda, aumentava êsse sobressalto, a versão que lhe davam vários intérpretes do plano político do Presidente. Dava-se mesmo a impressão de luta aberta contra o Congresso. Pessoalmente, não. Nessas ocasiões, o Presidente mantinha os melhore contactos parlamentares e a mim, apesar de queixas dos líderes do PSD, sempre me fazia crer que, através de um grande movimento pacífico de opinião, iria conseguir o apoio do Congresso para as suas metas reformistas.

Irritado com a iniciativa dos senadores, de prorrogação dos trabalhos parlamentares nas férias natalinas, na presunção de um golpe do Govêrno contra as instituições democráticas, o Presidente revelou tôdo êsse estado de espírito, retirando-se de Brasília para Petrópolis. Esvaziava-se Brasília não apenas de seus Ministros e Diretores de Serviço, como dos próprios parlamentares.

Nesse clima e com essa tensão, o Presidente começou a planejar coisas. Primeiro uma mensagem ousada ao Congresso, com tôdas as questões de reforma fixadas de modo a despertar, nos parlamentares, a consciência da Hora Brasileira. Esta mensagem de início de sessão legislativa, em 1964, foi cuidadosamente preparada pelo staff presidencial, sem participação de qualquer dos Ministros, cuja colaboração foi a de rotina, fornecendo elementos para a parte expositiva. O conteúdo político era segrêdo de Estado. Só nas vésperas é que o Prof. Darcy Ribeiro fêz chegar exemplares, bem encadernados, aos Ministros. Por muito tempo, a boataria campeou e se tinha a impressão que coisa mais grave iria conter a mensagem, lida, afinal, no Congresso, sem maiores frissons.

Mas, para que o Congresso reabrisse suas portas, para a nova sessão legislativa de 1964, num clima de tensão política que o capacitasse a sentir uma opinião pública definitivamente favorável às reformas, o Presidente programou um grande comício para o Rio de Janeiro, ao qual se deviam seguir outros, em São Paulo, Minas, Pernambuco e Pôrto Alegre. Queria o Presidente trazer para as ruas o povo em massa. Para isso, teve que recorrer às esquerdas, minorias atuantes que sabem botar povo na rua. Do Estado de Sítio para frente, foi a primeira vez que o Presidente voltou a ter contactos com as lideranças sindicais. Preparava-se um grande comício na Guanabara. Para dirigi-lo, entretanto, na arregimentação e mobilização populares, voltou as vistas para José Gomes Talarico e Gilberto Crockrat de Sá, antigos e leais amigos, que nada tinham com o plano ideológico, mas se especializaram em atividades sindicais, a serviço exclusivamente do Presidente.

O destino não podia fugir à sua ação e, nas marchas e contramarchas para a marcação da data, muitas vêzes fixada e várias desmarcada, assentada afinal para as vésperas da instalação do Congresso. O prazo era curto, entre a idéia do comício e a sua realização. Foi-se prorrogando, prorrogando, até que não havia outro jeito, senão na sexta-feira, pois o Congresso se instalava no sábado. E caiu ser 13, sexta-feira, justamente o dia do Presidente fazer a maior demonstração de prestígio e apoio popular que a história política registraria. E essa sexta-feira, 13, já por si tão envolvida pela opinião pública em mistérios e lendas, essa sexta-feira tão cuidadosamente evitada por milhões, essa sexta-feira que desperta, até nos mais indiferentes, precauções e cuidados especiais, passou a constituir a pedra-de-toque da oposição no seu combate ao Govêrno. Criou-se em tôrno do comício, uma expectativa de crise, de golpe, de baderna, de amotinadas, de quebra-quebra, de subversão geral no País. Na realidade, o desejo do Presidente era demonstrar ao Governador da Guanabara que quem dispunha de povo era êle e, em seqüência, marcar a presença do Presidente nas ruas de todo o País, até que a Nação sentisse que o Congresso Nacional a ela se juntava, nos seus anseios reformistas. Era, realmente, uma luta democrática e as praças públicas são as grandes tribunas de onde as vozes de uma Nação sempre se alteiam aos seus homens públicos. Temê-las, receá-las, impedi-las, fechá-las, seria a sufocação dos pulmões populares!

PRAÇA PÚBLICA, ARMA DO POVO

Tôdas as grandes conquistas do homem, os seus direitos e as suas liberdades, partiram das praças públicas.

A contrapropaganda, entretanto, se não conseguiu diminuir as proporções do comício, criou um estado de espírito que se refletia, sem dúvida, mais intensamente, no bloco militar antigovernista. A partir dessa sexta-feira, 13, a frente de oposição galvanizou-se. A massa assustou realmente tôda a reação como aumentou as preocupações sèriamente dos bem intencionados que achavam o País à beira da comunização. Dessa sexta-feira para frente, a luta teria que ser dura, áspera e muito difícil. Faltou perspectiva ao Presidente, para compreender que qualquer falha, qualquer deslize, qualquer gesto a mais ou a menos, que servisse de interpretação para o transbordamento da gôta no copo dágua, levaria tudo ao desastre total, tanto para o seu Govêrno, como para as fôrças políticas que o sustentavam. Difícil é construir, mas fácil é a tarefa de destruir.

Daquele dia em diante, a programação teria que se assentar na serenidade de uma atuação vigilante, que não permitisse fôssem os seus sucessos explorados nem distorcidos por agitações ideológicas estremadas, capazes de dar a impressão de que as esquerdas eram as donas da festa. A bandeira da reforma não poderia passar a outras mãos e nem tampouco convinha deixá-la ser utilizada por lideranças dissociadas e até rivais do Presidente.

Aquelas duzentas mil pessoas que se comprimiram na praça pública, com o feijão caro, com a carne cara, com o leite caro, com o arroz caro, com o pão caro, com tudo caro, não ia agradecer nada, ainda, ao Presidente. Estava ali confiante de que as coisas melhorassem com as reformas. Nem era tampouco uma multidão comunista como a oposição quis fazer crer! Seria comunista demais numa praça pública, em um País católico, onde as fôrças de esquerda, em eleições livres, jamais haviam conseguido eleger bancadas numerosas. Aquela multidão acreditava em alguma coisa e o Govêrno não poderia decepcioná-la. Aquelas legendas comunistas que se liam, entre inúmeros cartazes, davam a presença dos seus adeptos, era verdade, mas o mar humano que se estendia de ponta a ponta do imenso logradouro que se abre entre a Estação da Central, o Palácio da Guerra e a Praça da República, sufocaria tôdas as questões ideológicas e esmagaria qualquer sectarismo político, porque ali estava, por acreditar num Govêrno que emanara de seu voto livre.

Lembro-me bem que nessa noite, a convite do General Jair, que revelava cuidado com a minha segurança pessoal, jantei com vários generais no Palácio da Guerra. Tôdos êles estavam eufóricos e achando de grande beleza e significado democráticos o povo se misturando, tranqüila e confiantemente, com os tanques e carros blindados, com a tropa maciçamente distribuída por tôda a praça do comício. De cima, das varandas do Palácio da Guerra, generais e inúmeros oficiais das três armas exultavam com o espetáculo cívico. Uma mole humana, ordeira, pacífica, ao som de bandas de música reunia-se na praça, sob a proteção de um Exército que sempre foi das causas populares.

No ingresso à praça, momentos antes da chegada do Presidente, eu e os Ministros militares, sobretudo o General Jair, fomos todos delirantemente aclamados pelo povo. Não fôssem os cordões de isolamento dos PE, nenhum de nós chegaria inteiro ao palanque. Um a um, fomos chamados à tribuna e as ovações populares eram entusiásticas.

ESPETÁCULO DEMOCRÁTICO

A participação dos Governadores Arraes, Seixas Dória e o Deputado Leonel Brizola, ao invés de indicar a coloração vermelha do comício, mostrava que êles, como líderes populares e com mandatos populares, apesar de tôdas as restrições ao Presidente e de tôdas as mágoas e queixas, vieram de longe para não se perderem no conceito das massas. Na realidade, ali, o grande denominador comum, quem somava gregos e troianos, era Jango! O seu nome era o alvo. O seu discurso a voz de comando.

Dificilmente se pode controlar discursos de improviso e muito mais ainda de líderes que não ouvem a ninguém e nem acham ninguém acima de suas cabeças.

Na verdade em que pesem os destemperos da linguagem de vários e a incontinência política de alguns o espetáculo era essencialmente democrático e o seu sentido indicava ao Presidente rumos de equilíbrio, de prudência e de bom-senso. O Govêrno tinha povo e o Govêrno tinha Fôrça Armada. Tudo sincronizado, e não para a seqüência de agitações e nunca para radicalizações que jamais foram bem entendidas ou compreendidas pelo povo. O próprio Presidente me dizia, ainda empolgado pelo acontecimento, que aquela massa frenética ali estava mais pelo combate ao custo de vida, mais pelo tabelamento de aluguéis, mais pela prisão dos exploradores da bôlsa do povo, mais pela luta a seu favor em têrmos concretos e objetivos, do que pelas reformas de base, pela temática ideológica, pelos refrãos dos pregadores nacionalistas de extrema-esquerda. Aquela massa, me dizia Jango, ali estava, porque confiava no seu Govêrno, para minorar o seu sofrimento e assegurar-lhe condições mais dignas e mais humanas de existência.

E o que impressionou a todos foi a ausência de qualquer fato desprimoroso da conduta popular. Nenhum incidente se verificou e a ordem foi absoluta.

Contrariando todos os prognósticos, a massa se dissolveu ordeiramente, indo para a casa distante sem provocações e revelando disciplina e compreensão. Emprestaram maior significação, ainda, ao acontecimento.

Do fato, porém, outras interpretações abundaram. A direita se sentiu frustrada e até ameaçada e a extrema-esquerda se superestimou, esquecendo a fôrça aglutinadora de Jango, para se considerar já tão forte que talvez pudesse ultrapassar o Presidente. E o acontecimento, ao invés de servir de base de sustentação ao Govêrno, serviu como tema divisionista, enquanto as fôrças de oposição dêle se serviam para se unirem e se alinharem na conspiração.

O que ocorreu no Sindicato dos Metalúrgicos e no Automóvel Club mostrou a quanto se superestimaram as lideranças radicais e como alimentaram a oposição, num temário que não saiu mais das manchetes dos jornais e das edições extraordinárias dos jornais falados!

O Presidente João Goulart dormiu sob os louros de uma noite de massas empolgadas pelo seu Govêrno e não ouviu os tropéis de uma cavalgada que partia dos setores que se assustaram, incentivados por um jôgo político que vinha de muito longe, que vinha desde quando pela primeira vez depuseram a Getúlio Vargas.

Sexta-feira, 13, marcou a caminhada do Presidente pelo Poder. Levou-o ao delírio de uma glória efêmera, ao mesmo tempo que o jogou no ostracismo de um exílio, êle que, por sua vez, subestimou os seus adversários e julgou invencíveis os sentimentos populares.

Sexta-feira, 13, mais uma vez se fortalecia na superstição popular e mais uma vez mostrava que os antigos tinha razão quando afirmavam – não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem!

 

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