Do
preconceito de côr
Rachel
de Queiroz
LÊ-SE
nos jornais que um hotel de S. Paulo recusou hospedar a cantora
Elza Soares, estrêla de palco e televisão, musa de
Garrincha e môça de côr. Está bom de se
fazer um “revival”
da Lei Afonso Arinos, a qual, aparentemente, anda meio esquecida.
Se êles ousam recusar uma artista famosa, como não
se atreverão a tratar pessoas obscuras e sem cartaz? A cantora,
justamente indignada, protestou, e o seu empresário promete
agir judicialmente contra o hoteleiro criminoso.
Mas, ao lado das indispensáveis
punitivas contra os vilões racistas, creio que também
se pode fazer um pouco de propaganda esclarecedora: explicar aos
comerciantes que correm perigo de cair em pecado de discriminação,
em defesa de supostos interêsses da sua clientela, que êles
são vítimas de um tremendo êrro de apreciação.
Ao contrário do que pensam os que se anquilosam em preconceitos
vitorianos - para o mundo de hoje, a democracia racial brasileira
não é fraqueza que se oculte, é atrativo que
se proclama. Democracia racial, tal como legislamos e tentamos praticar
integralmente no Brasil, é artigo de propaganda e atração
turística. Tão bom como ruínas romanas ou como
as belezas da Guanabara. Para o estrangeiro, habitante de países
onde só há gente de uma côr, ou onde há
uma barreira rígida separando as côres dos homens,
a democracia racial brasileira, a nossa mistura descuidosa, é
espetáculo fascinante e incomum. Todos querem ver como é
que ela funciona e se é verdade que funciona. Só o
visitante estúpido, crassamente reacionário e, portanto,
indesejável, evitará, aqui, o hotel que não
seja exclusivo de brancos.
Então não compreendem que o hóspede do apartamento
vizinho se sentirá em vez de chocado, pelo contrário,
interessado, trilled, ao saber que está
paredes-meias dessa Cleópatra do samba, sôbre a qual
os jornais falam e cujo encanto fatal, dizem, influi tanto nos resultados
da seleção de futebol campeã do Mundo quanto
o nome do técnico ou o escalamento do time?
Hoje a democracia racial brasileira
é assunto tão mundialmente conhecido quanto Brasília,
e mais vendável turìsticamente, porque está
por tôda parte, não se oculta a algumas horas de avião
no meio do planalto goiano. O turista chega aqui (principalmente
o que vem dos países onde o negro é segredado pela
linha de côr), ansioso por ver com os seus próprios
olhos como é que pode ser um país onde a côr
das gentes não importa - e se sentirá decepcionado,
enganado, ao verificar que a propaganda mentiu, e que aqui também
há segregação - apenas mais hipócrita.
Assim, o hoteleiro que recusa hóspedes por motivo de côr,
além de estar cometendo crime que dá cadeia e multa
(multa essa que, diga-se de passagem, deveria ser atualizada - multa
de cinco a vinte contos é hoje ridiculamente baixa, é
um verdadeiro convite à contravenção), está
também se prejudicando comercialmente. Pois, para o turista,
vir ao Brasil e não encontrar pessoas de tôdas as origens
raciais convivendo familiarmente, sem preconceitos nem diferenças,
é como ir ao Ártico e não ver esquimós,
ir à Rússia e não ver comunista, ir a Paris
e encontrar fechado o Folies Bergère e escamoteada a Tôrre
Eiffel.
Vejam o tremendo impacto publicitário que representou a eleição
da linda Miss Guanabara. Numa eleição onde as brancas
concorriam em maioria, fizemos Miss Brasil, Vera Lúcia Couto,
mulata daquela estirpe que, com grande propriedade, se chama imperial.
Mulata imperial, palmeira imperial, modinha imperial - qualquer
coisa que é ao mesmo tempo belo, tradicional, emocionante
e majestoso.
E o êxito de Vera Lúcia
lá fora, a simpatia geral com que a receberam, representa
não só o sucesso pessoal da beleza da môça,
como também o que ela significa para uma humanidade exausta
de ódios, de preconceitos mesquinhos - a alegria da boa mistura,
a liberdade de cada um nascer da côr que queira e, sobretudo,
a novidade daquela presença de beleza fora de padrões
e tabus.
Fazendo de Vera Lúcia a
nossa miss nacional, na verdade promovemos a legitimação
da mulata perante o Mundo.
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