Diálogo no escuro

Mauro Borja Lopes é mineiro e ganhou fama com seus bonecos sem bôca e sem palavras, que correram o Mundo com a assinatura Borjalo. Não têm bôca porque não falam, e não falam porque a poesia de Borjalo é feita de silêncio. Isso alterou a verdade convencional de que quem tem bôca vai a Roma. Os bonecos de Borjalo falam, em silêncio, todos os idiomas e os milhares de dialetos do Mundo. Mas Borjalo não é só o homem dos bonecos chaplinianos. Na televisão, funciona na cozinha dos jornais do Canal 2 carioca.

 

Amilde Pedrosa, amazonense, chargista e pintor, é responsável por muito do que se tem feito no Brasil em favor da humanização da política através da irreverência com os políticos. Nas páginas de O Cruzeiro, há mais de dez anos, suas caricaturas dão ao homem comum da rua uma sensação de intimidade com as figuras que fazem notícia nas grandes crises e na rotina da política nacional. Alguns politicos podem reagir negativamente, mas os que escapam ao seu humor é porque ainda não significam muita coisa na vida do País.

 
Coordenação de Leda Barreto
Fotos de Douglas Alexandre
 

Appe - Poeta Borjalo, se seus bonecos falassem, as legendas seriam em verso?
Borjalo - Se meus bonecos falassem, você não me chamaria de poeta. Meu verso é o silêncio. Rima rica.

Appe - Você concorda que seus bonecos não têm corpo, só têm alma? É por isso que êles não falam?
Borjalo - Quem fala é a alma. O corpo é caixa. Meus bonecos não falam porque o silêncio é necessário. Você já ouviu o silêncio?

Appe - Sei que você começou em Minas fazendo charges políticas. Por que deixou? Por ser bom mineiro? E como tal bom político?
Borjalo - O mineiro faz política por necessidade, sobrevivência. O pássaro sobrevive voando, o peixe nadando, tatu cavando, cobra picando, sabiá cantando. Só a política salva o mineiro. O mineiro nasceu assim: andarilhando, faiscando, garimpando, de cascalho em cascalho, de ribeiro a ribeiro, de eira em eira. Catou, fundiu o ouro; pesou e contou. A coroa tomou: taxas, dízimos, impostos, penas, rapina. O mineiro percebeu que não bastava garimpar o ouro. Era preciso protegê-lo do Govêrno. Eu continuo fazendo charges políticas; impublicáveis.

Appe - Borjalo, é fato que o Brasil está vivendo uma fase áurea de humor-desenho? Está evoluindo? Decaindo? Que acha você?
Borjalo - A fase é boa. Áurea não, talvez do ventre livre, Steinberg, mãe de muita gente, já não influi. Andrés François, bastante. Os pés de chumbo, triangulares, de François pisam as calçadas cariocas. Pisam mas não atrapalham; pelo contrário, abrem caminhos novos. E é bom caminhar com o pé alheio.

Appe - Se você tivesse que viver fora do Brasil, que país escolheria para desenhar piadas?
Borjalo - Gostaria de morar em Paris ou Florença. Mas não para desenhar. Quem vai a Paris para desenhar não merece sair do Brasil.

Appe - Você acha que a piada desenhada cederá lugar para o humorismo puro e simples?
Borjalo - Humorismo só existe puro e simples. Seja desenho, seja texto, seja o que fôr.

Appe - Diga, Borjalo. Você acha o Steinberg o melhor desenhista do Mundo? Êle é uma EMINÊNCIA PARDA no nosso humor-desenho? Ainda é? Ou já existe outro?
Borjalo - Não. Antes de mais nada sou contra o melhor. Arte não admite concurso. Mas sei onde você quer que eu chegue. Steinberg bebeu demais no poço de Paul Klee, fonte boa. O desenho de Klee exerceu exagerada influência no de Steinberg, que não se libertou dêle. Mas Steinberg acrescentou uma dimensão gigantesca ao desenho de Klee: o espírito do mais fino humorismo, a grandeza de elaboração. Quanto à sua influência em nosso desenho, já disse; agora estamos sob a tutela de Andrés François.

Appe - Você já é um vitorioso homem de televisão. Mas conserva, ali, uma intencional e injustificável omissão do Borjalo humorista. Por quê?
Borjalo - Não omiti o humorismo. Convivemos amàvelmente. Somos amigos. Ganho dinheiro da televisão, perco o tempo do humorista. Talvez o humorista veja o produtor de TV com um travo de amargura mas com a barriga cheia. E o que é importante: sem indigestão.

Appe - Se o humor-desenho pagasse o que paga a TV e você tivesse que optar entre os dois, você deixaria a televisão?
Borjalo - Não gosto de resolver hipóteses, embora seja facílimo. Sou um desenhista de nome feito e um produtor de TV quase anônimo. Como desenhista tenho mercado no Mundo. Já recebi em dólares, libras, francos franceses e suíços, liras e escudos. Fui câmbio, fiz divisas. Nem todos conseguem isso. Na televisão muitos podem ganhar bem.

Appe - Se você pintasse (você pinta Borjalo?), seria figurativo ou abstrato?
Borjalo - Outra hipótese. Não pinto. Gosto de Picasso figurativo, Picasso abstrato, cubista, azul; rosa, prêto e branco. Você pinta, Appe, e sua pergunta reflete uma preocupação: sua pintura deve ser figurativa ou abstrata? Decida-se, amigo.

 
 
Borjalo - O que mais importa na boa caricatura: a face interior ou a exterior?
Appe - Na caricatura, a face exterior é apenas o veículo. Eis por que os introvertidos dificilmente dão uma boa caricatura. Talvez por isso mesmo seja tão difícil fazer uma boa caricatura de mulher.

Borjalo - A charge política perdeu a importância e o vigor do comêço da República. Politicamente o Brasil melhorou?
Appe - A caricatura do comêço do século era coisa inédita aqui no Brasil. Constituía uma fôrça nova, temida e respeitada, mas usada e abusada. No decorrer dos anos, nossos políticos foram-se acostumando à charge até se tornarem quase insensíveis à sua ação. Igual fenômeno se repete hoje no uso e abuso dos poderosíssimos antibióticos.
A charge política mudou muito pouco. Está, isto sim, procurando uma forma nova. Uma dimensão nova, como diriam os intelectuais. Quanto à sua importância, não acho que dependa das melhoras ou pioras da nossa política.

Borjalo - Você cria a caricatura de um político. No comêço ela não se parece muito com o modêlo, mas depois de um mês, invariàvelmente, êste vai tomando o jeito daquela até se igualarem. A vida imita a arte?
Appe - A vida, em todos os seus aspectos e manifestações, é uma criação artística.
Não vejo por que a arte imitar a vida, se está é criação daquela.
O político acaba se igualando à minha caricatura porque não tem outra saída.

Borjalo - Eça de Queiroz dizia: “Faça uma gargalhada passar 7 vêzes por uma instituição que esta ruirá para sempre”. Você já arruinou alguém ou alguma?
Appe - Talvez o velho luso tivesse as suas razões. Minha dúvida é apenas quanto ao número 7, bastante desacreditado.
Hoje em dia, para fazer ruir uma instituição, seria preciso que a gargalhada passasse por ela 7 vêzes, assim mesmo em doses muito bem administradas. Se já arruinei alguém ou alguma coisa, nunca me apresentaram cobrança por perdas e danos.

Borjalo - A caricatura política é uma expressão democrática. Faça a caricatura de nossa democracia.
Appe - A democracia é um regime tolerante. A caricatura, principalmente a charge política, é o próprio ataque. Vê-se, portanto, que só num regime democrático ela pode alcançar a sua plenitude.
Para caricaturar a nossa democracia eu a colocaria na figura de uma velha e respeitável senhora num moderno vestido nôvo.

Borjalo - Você é amazonense, eu mineiro. Como o caricaturista amazonense vê o político mineiro?
Appe - Borjalo, você sabia que o jacaré dorme de ôlho aberto?
Pois bem: o político mineiro é o jacaré com alma de rapôsa. Ponham um político mineiro em Washington e outro em Moscou e acabaríamos todos falando a mesma língua sem a medonha ameaça da guerra atômica.

Borjalo - Appe: nos Estados Unidos, Inglaterra, França etc., um caricaturista como você seria milionário. O Brasil não sabe rir?
Appe - Sabe rir sim. O Brasil ri até demais.
Dizem que o RICO RI À TOA. Eu gostaria de saber por que o Brasil ri tanto. O riso no Brasil é uma instituição nacional. Talvez seja por isso que, aqui, nós ganhamos tão pouco. O critério de valor aqui é uma piada de mau gôsto. Uma piada do chamado HUMOR NEGRO.

Borjalo - Os políticos brasileiros amam ou temem suas caricaturas?
Appe - Borjalo, você, que já fêz charges políticas, sabe que somos solicitados para chargear êste ou aquêle político. Quanto a mim, não me lembro de ter ocorrido o contrário.
Será isso amor? Temor? Em qualquer dos dois casos, verificaríamos então um curioso masoquismo.

Borjalo - Qual o melhor político para as suas caricaturas?
Appe - É o que contém a melhor matéria-prima. Isto é, aquêle que está no ápice dos acontecimentos políticos.

Borjalo - É verdade, Appe, que você mudou seu corte de cabelo (raros cabelos) por causa de uma caricatura?
Appe - Certo. Nem eu escapei a essa fatalidade da caricatura. Tenho observado que os caricaturados calouros apressam-se em disfarçar e até remover certos defeitos que nunca tinham percebido antes.
Eu aparei as laterais capilares. Um nosso colega, Ed Keffel, podou suas frondosas sobrancelhas. Um conhecido ator de teatro passou a pentear cuidadosamente sua hirsuta e amarfanhada cabeleira. E danou-se quando lhe observei o fato, dizendo que seu cabelo sempre tinha sido assim. Seu nome: Gláucio Gill. Já o veterano Plínio Salgado alterou sua galinácea caricatura operando o seu gostoso nariz.

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