Luizas pedem que todos se lembrem dos que envelhecem a sós

O que São Vicente de Paulo fêz na velha Paris, em tempo de fome e peste, repetiu Luiza de Marillac, estendendo a sua mão, armada pela caridade, aos pobres da França. E êles foram saciados na sua fome e na sua sêde de justiça. Mas a história não ficou entre as páginas de heróis e santos gauleses. Correu mundo. Virou legenda viva de amor e dedicação. Em cada canto da Terra surgiu uma Luiza. E com essas jovens damas de caridade iniciou-se um período histórico e belo para os velhos e velhinhas de tôdas as partes. Isso porque as Luizas tomaram para si a tarefa de cuidar dos que já começaram a ver o ocaso. Êsses seres que já se despediram do dia de hoje para viver de lembranças. Para cada um dêles que parecem debruçar-se, esquecidos, sôbre o passado, voltou-se uma Luiza. O Brasil também foi invadido por elas. Nossos velhinhos recebem, hoje em dia, o seu quinhão de caridade. E no dia 27 de setembro último (Dia dos Velhinhos, para as Luizas), a coisa foi mais longe. Além de confôrto e caridade, êles também receberam festa. Em tôda parte onde existisse uma pessoa idosa e pobre, lá estavam elas. Não ficaram pelo asfalto. Subiram os morros, bateram em todos os casebres. E nossa reportagem, como companhia, seguindo-as nessa peregrinação da bondade.

Desde o dia em que a môça se torna uma Luiza (ao receber de um sacerdote a fita negra com um bonito crucifixo), ela assume um compromisso com o toque da missão sagrada. Tanto é que cada uma delas recebe da Igreja 300 dias de indulgências plenas. Isso revela o seu compromisso abençoado. Há Luizas por todo o Brasil. Seu número alcança, atualmente, a casa das 2.600 voluntárias da caridade. Todos os dias uma môça recebe uma incumbência. Seja onde fôr, as Luizas estão a postos, enfrentando tôdas as dificuldades para ver um velho enfêrmo ou atender a uma família necessitada. Seu trabalho não têm o cunho da simples palavra amiga de confôrto. É dinâmica a sua caridade. Com as instruções que recebem, seguem também alimento, roupas e tudo que a velhice necessita para enfrentar os dias que ainda lhe estão reservados. Muita vez, o sustento permanente de uma velhinha é obra e graça das Luizas. Um exemplo: no Colégio da Imaculada Conceição há uma escala diária para as voluntárias. Assim, o alimento de uma velha senhora é levado à sua casa tôdas as manhãs. No Diário das Luizas existem muitos registros das dificuldades encontradas por elas em sua missão. Há o caso de uma anciã (com 115 anos) que mora em lugar muito afastado da petropolitana Quitandinha. O caminho é difícil e a solidão da paisagem torna-se séria ameaça para duas jovens. Mas elas não cedem a qualquer dificuldade. Têm missão a cumprir e dela nada as pode afastar. Há outros casos marcados por uma ternura humana que faz o segrêdo da atividade das Luizas. Nem sempre é o alimento que importa. Às vezes, é um pequeno nada, mas importantíssimo para uma velha senhora. No Asilo para Velhos (Copacabana), uma senhora de idade lutava, certo dia, para dar um arremate em seu hobby de velhice: o crochê. A vista não a ajudava mais. O problema desapareceu por arte e bondade de uma Luiza. A que trouxe para a velhinha um providencial par de óculos. E, num asilo carioca, uma senhora prossegue hoje o seu roteiro de pontos de crochê. As Luizas sabem compreender a velhice. E cada um dos problemas (todo velho tem o seu) é estudado com carinho. Velhas e velhos que já não têm mais relações de amizade (alguns estão abandonados inteiramente) só têm um traço de união com a vida: as Luizas. Elas sobem os morros cariocas e deixam, em cada rua de subúrbio, a marca de sua passagem amiga e devotada. Mas para cumprir melhor a sua missão as Luizas precisam de auxílio constante. Seu apêlo se renova sempre. Mandem o que puderem: roupas, mantimentos, envelopados em ternura e compreensão. É preciso ajudar as Luizas a tornar menos triste a velhice. E, para os que não sabem para onde enviar seus donativos, eis alguns endereços: Colégio Imaculada Conceição (Botafogo); Casa da Providência (Laranjeiras); Dispensário da Medalha Milagrosa (Tijuca).

 

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