De Joventino a Kléber Cordovil, uma dúzia de testemunhas que são apontadas por Tenório

Joventino Galvão da Silva - É um dos autores materiais do crime, segundo as testemunhas do Deputado Tenório. Foi um dos gatilhos. Grudou-se a Araçatuba, com unhas e dentes. Tem mêdo de enfrentar os seus acusadores, no Rio. Apesar de não ter sido tecnicamente interrogado, já caiu em muitas contradições. Citou duas testemunhas que lhe construiriam um alibi: as testemunhas falharam, desmentiram Joventino. Negou, no comêço, os crimes que lhe eram atribuídos, na Paraíba. Depois passou a admiti-los. Recentemente, confessou que um certo Miguel lhe furtou um revólver, no Rio. E até fêz referência a um passeio estranho a Copacabana. Um passeio que bem poderia ter ocorrido na noite do crime. Mas Joventinho não avançou a tanto. Com o encaminhamento das testemunhas de Tenório a Juízo, provàvelmente Joventino deporá no Rio. Poderá fazê-lo em Araçatuba, onde, segundo êle, há segurança. Mas não conseguirá esconder a verdade por muito tempo.
João Amâncio dos Santos - Esta é uma das mais fortes testemunhas de Tenório Cavalcanti. Era, por ocasião do crime do Sacopã, chefe do policiamento da Central do Brasil . Chefe de Joventino, mas possuia menos prestígio que êste, junto aos grandes chefes da Central, na época. Amâncio conta que recebeu ordens para queimar as fichas de Joventino, que recebeu ordens para transportá-lo para S. Paulo, porque Joventino estava se abrindo muito, no Rio. Sustenta que o pistoleiro não só atribuía a si o assassínio do bancário, como narrava outras proezas criminosas a quem quisesse ouvi-las. Não fazia segrêdo de suas façanhas sangrentas. Amâncio reserva, para a Justiça, revelações mais definitivas sôbre Joventino. Garantiu ao Deputado Tenório que contará, em Juízo, tudo o que sabe, sem quaisquer rodeios: o suficiente para robustecer a convicção da inocência de Bandeira a quem, aliás, Amâncio levou um abraço, na cadeia.
 
João Lacerda Filho - Foi convidado para fazer um serviço num bancário, quando funcionava como secreta da Central do Brasil. Não aceitou o convite. Viu quando Joventino, na noite do crime, embarcou numa camioneta da Central do Brasil, ao lado de outros. A camioneta que partiu para as bandas do Sacopã. Falou, minutos antes, com Joventino, com quem tomou um trago. Disse-lhe Joventino que ia, naquele momento, fazer um serviço num bancário de m... Afrânio era cadáver barato, na gíria do refugiado de Araçatuba. Depois do crime, Lacerda teve vários contatos com Joventino, que não fazia segrêdo da sua participção no caso da morte do bancário. Há poucos dias, dois inimigos políticos de Tenório deram entrevista a um vespertino, segundo a qual Lacerda era testemunha comprada. Êle vibrou de indignação e foi procurar os seus detratores. A um dêles fêz engolir o jornal. O outro, que se preparava para recebê-lo a bala, foi alvejado na coxa antes que pudesse dar no gatilho.
 
Manoel Constantino da Silva (Manèzinho) - É hoje investigador da Polícia da Central do Brasil . Na época do crime era empregado da Farmácia Pedro II, de propriedade do então Diretor daquela ferrovia. Manèzinho declara que conheceu Joventino, na Central, por ocasião do crime do Sacopã. A pedido de Joventino estêve, com êle, na praia de Ramos, onde foram batidas duas fotos: provas da presença do pistoleiro no Rio. Conta que o prisioneiro de Araçatuba freqüentava assiduamente a farmácia da Central. Era homem de prestígio junto aos seus chefes. Manèzinho revela que Joventino costumava gabar-se de seus crimes, sob inspiração de um simples gole de cachaça. Acrescenta que, na Central, todo mundo sabia que o jagunço tinha sido o autor da morte de Afrânio Arsênio de Lemos. Também afirma que havia um clima de coação, na Central do Brasil, na época do crime. Pagaria caro quem ousasse falar do caso. Manèzinho está disposto a contar tudo o que sabe à Justiça . Doa a quem doer.
 
Mário Vento - Já matei um na Lagoa (Sacopã), eis uma das frases que Joventino largou para Mário Vento, ex-funcionário da Central do Brasil. Quando ouviu aquela advertência, de Joventino, era Mário Vento vendedor de jóias. Joventino comprou dêle um colar, por 120 cruzeiros, para pagar no outro dia. E como não pagou, Mário zangou-se. Queria o colar de volta. Houve discussão, eis quando Joventino soltou a frase: Já matei um na Lagoa. Posso matar outro. Mário estaria em maus lençóis, com Joventino, se um amigo seu não o salvasse. Está disposto a sustentar, frente a frente com Joventino, o epsódio da discussão. Afirma, por outro lado, que o pessoal do serviço de policiamento, na Central, sabe que foi Joventino o autor da morte de Afrânio. Revelou que, na época do crime, chegou a aproximar-se da sede do Segundo Distrito Policial , para depor a favor de Bandeira. Entretanto, pensando melhor, resolveu não se complicar, com receio de contrariar a orientação das autoridades, voltadas contra Bandeira.
 
Alberto Moreira - Bem nascido em Portugal, com 40 anos de Brasil. Freqüentava um bar, na Penha, na mesma ocasião em que Leopoldo Heitor, Vinagre e Avancini faziam noitada ali. Tudo isto, logo após o crime do Sacopã. Conseguiu acampar na mesa do trio e ouvir conversas. Quando Vinagre foi prêso (não por seu trabalho no crime do Sacopã), Moreira telefonava para o malandro, na Penitenciária. Usava uma senha: Casa Lucena. Por mais que se enfronhasse na roda do bar da Penha, jamais conseguiu ouvir de Vinagre ou Avancini uma palavra secreta do Sacopã. Teve de Leopoldo Heitor dolorosa experiência: o peculatário abocanhou-lhe 20 mil cruzeiros, por um serviço que não fêz. Um despejo. A grande descoberta de Alberto Moreira foi Zeca, batizado José Antônio Carneiro, lanterneiro por conta própria. A sua presença, entre os elementos novos apresentados pelo Dep. Tenório Cavalcanti, tem êste único mérito.
 
Waldemar Guilherme de Carvalho - Era chefe da garagem da Central do Brasil, na época do crime do Sacopã. Waldemar pratica o espiritismo. É homem de consciência limpa. Procurado, há mais de um mês, pelo Deputado Tenório Cavalcanti, não tergiversou: contou muito do que sabia e prometeu contar mais em Juízo. Uma de suas afirmações foi a de que estêve escondido na garagem da Central, durante dois meses, uma camioneta de madeira, uma Plymouth, que pertencia a uma papelaria de propriedade do então Diretor da Central do Brasil. Garantiu, ainda, que a dita camioneta era vigiada, de perto, pelo Sr. Geovan Ferreria, empreteiro da Central, o qual fazia recomendações para que ninguém tocasse no veículo. A presunção do Deputado Tenório Cavalcanti é a de que esta camioneta também funcionou no crime da Lagoa, dando cobertura aos assassinos. Mas êste detalhe ainda não está confirmado.
 
Odo Acâmpora Filho - Foi secreta da Central do Brasil, quando Joventino também o era. Afirma, como todos os outros, que o ambiente, nos corredores da Central, não era para bincar. Quem falasse no caso Bandeira, sofria as conseqüencias imediatas. O importante é que Acâmpora foi convidado para dar um surra num cara, cujo nome não lhe foi declarado. Não chegou a dizer sim, nem não, porque o convite foi logo retirado. Não confiavam em Odo Acâmpora Filho. Alguém lhe disse que êle falava muito. Portanto, não servia. O serviço era para quem falasse pouco. Odo também afirma que, após o crime, viu Joventino. Afirma, ainda, que todo mundo, na Central, sabia que Joventino tinha sido um dos gatilhos do crime. Recorda que viu o solitário de Araçatuba uns 5 ou 6 dias depois do crime. E não o viu mais - só agora, pelo noticiário. O seu depoimento, em Juízo, reforçará o de outras testemunhas, em muitos pontos. Pois, aqui, damos apenas um pouco do que sabe Odo Acâmpora.
 
José Antônio Carneiro (Zeca) - Na acareação feita pelo Deputado, entra Zeca e Alberto Moreira, ficou esclarecido que o primeiro, embora conhecendo Leopoldo, Vinagre e Avancini, não participara da trama do Sacopã. Apesar disso, Zeca deu ao Deputado uma informação preciosa, de grande valia para desmascarar o processo usado por Leopoldo Heitor, o criador de testemunhas falsas. Depois do crime do Sacopã, Zeca foi convidado por Vinagre para assinar um depoimento falso. Nem sequer lhe mostraram o texto do documento, sôbre o qual (no escritório de conhecido advogado ciminal) foi colocado um papel em branco. Apenas ficou o espaço para a assinatura de Zeca, o qual se recusou a testemunhar algo que êle evidentemente ignorava. Zeca recorda, também, que levado a um bar, onde Vinagre lhe mostrou um homem, calvo e forte, o qual teria de ser identificado oportunamente por Zeca. Foi mais ou menos assim que surgiu um Avancini contra Bandeira. Leopoldo vendia testemunhas falsas.
 
João Pedro Gonçalves - É o dono do barraco, dentro do qual Vinagre e Avancini permaneceram 8 dias, logo após o crime do Sacopã. Avancini declarou, no seu depoimento-falso, que viajou para São Paulo, depois de ver Bandeira matar Afrânio, quando, em verdade, foi esconder-se na choça de João. Êste só aceitou os dois, porque o seu patrão, amigo de Leopoldo Heitor, um dos arquitetos da trama do Sacopã, garantiu que a dupla era de bem, incapaz de abusar da família do lavrador. João se recorda que, certo dia, lá apareceu o próprio Leopoldo Heitor. Levava jornais do Rio para Avancini e Vinagre. Nessa oportunidade, Leopoldo atirou num gato magro, usando o revólver de Avancini, um 32, duplo, cano longo. João não chegou a escutar a confidência dos seus hóspedes. Tampouco sabia, naquela época, que êles eram importantes personagens do crime do Sacopã.
 
Antônio Steter - Êste é lavrador da Fazenda da Grama, no Estado do Rio, perto da Barra Mansa. Um homem simples, honesto, corajoso. Steter falou ao Deputado Tenório Cavalcanti a sua palavra verdadeira. É testemunha de que, após o crime da Lagoa, viu Avancini e Vinagre chegarem estranhamente àquelas paragens rurais. Ficaram escondidos, por 8 dias, no barraco de sapé de outro lavrador, de nome João Pedro Gonçalves. Recorda que, de certa feita, Avancini dêle se aproximou para uma conversinha sem maior interêsse. Steter estava pescando. Não desconfiava de nenhuma ligação de Avancini e Vinagre com o assassínio do bancário. Recorda que a dupla evitava a estrada. Tampouco falava do cime. Até a comida chegava ao barraco discretamente. Vinha da Fazenda da Grama, cujo proprietário era amigo do peculatário Leopoldo Heitor, segundo afirmações desta e de outras testemunhas do lugar.
 
Kléber Cordovil - No momento em que o Promotor Emerson de Lima, por ocasião do julgamento de Bandeira, afirmava a uma rádio que Walter Avancini estava no Paraná, por isso não apareceu na sala do Tribunal do Júri, êste e Hélio Vinagre, seu comparsa, divertiam-se dentro do carro de praça de Kléber Cordovil. Durante 15 horas, a dupla movimentada pelo peculatário Leopoldo Heitor rodou pelo território da Ilha do Governador. Pelo rádio do carro, ouviram os lances mais empolgantes do julgamento. Kléber reconstituiu, para o Deputado Tenório Cavalcanti, todo o roteiro dos dois, no dia do julgamento. Avancini fêz piada sôbre Bandeira, riu do Promotor, que o declarou fora do Rio. Por volta das duas da madrugada, o carro de Kléber deixou Avancini e Vinagre na residência. Kléber Cordovil assumiu compromisso de dizer tôda a verdade quando fôr interrogado em Juízo.

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