POUCAS vêzes um só homem dependeu de tantos para a sua libertação. Raras ocasiões um cidadão esperou tanto por uma palavra decisiva, um argumento dêsses que vêm com o impacto de um telefonema de vida ou morte para um condenado. Quantas passadas nervosas, quanta noite sem sono, quantas preces e quanto olhar para a vida correndo lá fora, rotulada com a palavra: liberdade. E êste homem que todos vocês, leitores desta Revista, conhecem está esperando ainda. Seu cenário: o cubículo 21 de um presídio. Lá fora, na agitação de uma grande cidade, seu nome é murmurado várias vêzes durante uma só hora. Uma hora vital para o habitante angustiado do cubículo 21. Uma hora a mais, vivida longe da vida em liberdade. Um hora a mais de lutas, de pesquisas, de testemunhas preciosas sendo entrevistadas numa campanha de alto sentido humano. Um oceano de vozes e de provas. Um mar de clamores pedindo justiça para um inocente. Na Câmara, na Justiça, nas ruas, nos jornais, tudo se agita em tôrno de um homem. Êste homem que perdeu galões e anos de ar livre e que ainda não pode respirar aliviado. Em seus olhos uma só mensagem se lê: “Sou inocente. Devolvam-me à sociedade”. Êste homem, a quem só não tiraram a liberdade de usar um nome, chama-se: Alberto Jorge Franco Bandeira.
 
Texto de Ubiratan de Lemos   -   Fotos de Indalécio Wanderley

Só o Chefe de Polícia da época nega haver existido o “dossier” Tornaghi sôbre o Sacopã

NESTE capítulo, o Deputado Tenório Cavalcanti apresenta argumentos contra as acusações feitas pelo General Ciro Rezende, chefe de polícia do Distrito Federal ao tempo do crime do Sacopã - acusações essas contidas numa entrevista que o citado General concedeu a O Globo, na sua edição de 29 de setembro passado.

Lembramos, a propósito, que o General Ciro Rezende, depois de declarar que não desejava fornecer carniça a corvos esfomeados, que procuram, na dignidade alheia, saciar os seus instintos desgraçados, afirma peremptòriamente não ter existido nenhum processo, na Divisão de Polícia Técnica, em relação ao crime do Sacopã. Tampouco existem - garante o General - cópias datiloscópicas ou outros quaisquer documentos ou provas que inocentam o Tenente Bandeira. O General é categórico: É tudo mentira. Houve, isto sim, a entrega, por parte daquela divisão especializada, de dois ou três ofícios, encapados numa fôlha de papel comum. Na mesma entrevista, o General nega que o diretor da Polícia Técnica, Doutor Alberto Tornaghi (já falecido), tenha levado para o túmulo a mágoa do seu trabalho (que favoreceria a Bandeira) ter sido interrompido por ordens superiores. São palavras textuais do General: É miserável e indigna a afirmação de que o saudoso Delegado Tornaghi haja falecido pesaroso por não ter sido levado em conta o trabalho que realizara no caso. A Divisão de Polícia Técnica, que êle então chefiava a meu convite, nada fêz; nem existe êsse segundo processo de que fala a Imprensa. E acrescenta mais adiante: A única providência que tomei, realmente, foi proibir que policiais não lotados no Segundo Distrito Policial dessem entrevistas à Imprensa, para não tumultuar o andamento do processo e evitar explorações. Nada mais.

O repórter fará perguntas. O Deputado dará as respostas. Nós começamos assim:

UBIRATAN: - O Deputado tem elementos para responder às acusações do General Ciro Rezende? Poderia apresentar provas concretas, segundo as quais o General estaria equivocado, com relação ao que êle afirma?

TENÓRIO: - Responderei ao General Ciro Rezende ao pé da letra, Ubiratan. Apenas não usareí das expressões cortantes que S. Ex.ª houve por bem empregar, na sua entrevista o O Globo. Acredito que a verdade não precisa de embalagem vibrante para firmar-se na consciência coletiva. Responderei ao General com fatos secos, enxutos, com provas ainda não contestadas. Farei uso, aqui, das declarações do hoje General-Médico Álvaro de Sousa Jobim, que assiste, desde 1938, a família Tornaghi. É a palavra de um General contra a do outro. Não é, portanto, a palavra de um simples deputado federal contra a de um general. Cito um documento datado de 3 de janeiro de 1955, do qual destacarei alguns itens essenciais. Vejam os leitores: Eu, abaixo-assinado, Coronel-Médico Álvaro de Sousa Jobim, no interêsse da Justiça, e a bem da verdade, declaro, espontâneamente, o seguinte: que, na qualidade de médico do ex-diretor da Polícia Técnica, não raras vêzes tive oportunidade de folhear um inquérito da mencionada Polícia Técnica, na qual o chamado crime do Sacopã TINHA VERSÃO MUITO DIFERENTE DA QUE É DO CONHECIMENTO PÚBLICO, SENDO CERTO, TODAVIA, QUE O DOUTOR ALBERTO TORNAGHI, TENDO EM MÃOS UM INQUÉRITO CONCLUSIVO, FÔRA, ENTRETANTO, SOB AMEAÇA DE PUNIÇÃO, PROIBIDO DE CUIDAR DO ASSUNTO PELO CHEFE DE POLÍCIA, GENERAL CIRO RIOPARDENSE REZENDE. - Outro tópico do General Jobim: QUE, CERTA FEITA, PRESENTE O MEU CLIENTE, DOUTOR ALBERTO TORNAGHI, EXAMINEI, NOS AUTOS DÊSSE INQUÉRITO, UMA IMPRESSÃO PALMAR DO FILHO DO EX-PREFEITO, SR. JOÃO CARLOS VITAL, SEGUNDO LEGENDA ALI POSTA, PELA POLÍCIA, SEM A MENOR DÚVIDA OU RESTRIÇÃO. ESTRANHEI, POR ISSO, QUE SE DISSESSE, POSTERIORMENTE, HAVER DÚVIDA QUANTO A DOIS PONTOS QUE NÃO COINCIDIAM. No mesmo documento, mais adiante, acrescenta o General denunciante: QUE A VIÚVA DO DOUTOR TORNAGHI, TAL COMO EU, EXAMINOU O INQUÊRITO CONCLUSIVO. E QUE NÃO CUIDAVA, EM ABSOLUTO, DO TENENTE ALBERTO JORGE FRANCO BANDEIRA.

UBIRATAN: Que mais acrescenta o General Jobim? Êle faz referência a outro episódio?

TENÓRIO: - Claro que sim. Veja esta revelação: QUE EM CONSEQUÊNCIA DO QUE VINHA OCORRENDO, UM FILHO DO DOUTOR ALBERTO TORNAGHI, CERTA FEITA, PROCUROU O GENERAL CHEFE DE POLÍCIA, ALTERCANDO COM ESTE, POR CAUSA DA AMEAÇA DE PUNIÇÃO FEITA A SEU PAI, SE PROCURASSE, COM BASE NO INQUÉRITO A QUE PROCEDEU, DAR AOS FATOS VERSÃO DIFERENTE DAQUELA DO SEGUNDO DISTRITO POLICIAL. E atento, Ubiratan, para esta denúncia, de indisfarçável gravidade: QUE O DOUTOR ALBERTO TORNAGHI, ENTÃO JÁ DOENTE, APAIXONADO POR NÃO VER O SEU TRABALHO LEVADO EM CONSIDERAÇÃO, TEVE SEUS PADECIMENTOS AGRAVADOS, VINDO POUCO TEMPO DEPOIS , A FALECER.

UBIRATAN: - Que mais poderá dizer sôbre o inquérito da Polícia Técnica?

TENÓRIO: - Continuarei reproduzndo a denúncia do General Jobim: QUE O INQUÉRITO CONCLUSIVO FOI UM DIA ENTREGUE PELO DOUTOR TORNAGHI AO SEU SECRETÁRIO, SR. FIGUERÔA, TENDO ÊSTE O CONSERVADO NO COFRE FORTE DA POLÍCIA TÉCNICA, DEVOLVENDO-O DEPOIS A DONA ADELAIDE BASTOS TORNAGHI, QUANDO DA MORTE DO SEU ESPÔSO, REFIRO-ME A SEGUNDA VIA, POIS A PRIMEIRA O DOUTOR TORNAGHI FOI OBRIGADO A ENTREGAR AO CHEFE DE POLÍCIA. LEMBRO-ME PERFEITAMENTE QUE O DOUTOR TORNAGHI TEMIA A PERDA DESSA SEGUNDA VIA, TENDO, CERTA OCASIÃO, ME CONSULTADO COMO E ONDE DEVIA GUARDÁ-LA, POIS TINHA MÊDO QUE A SUA CASA FOSSE UM DIA INVADIDA, SE PORVENTURA A POLÍCIA SOUBESSE DA EXISTÊNCIA DO DOCUMENTO QUE NÃO ACUSAVA O TENENTE BANDEIRA E CHEGAVA A CONCLUSÕES INTEIRAMENTE DIVERSAS DAQUELAS PREFERIDAS PELAS AUTORIDADES DO SEGUNDO DISTRITO POLICIAL.

UBIRATAN: - O General Jobim fêz mais alguma revelação?

TENÓRIO: - A declarações do General Jobim são límpidas e fortes. Êle as firma sob as penas da lei, colocando-se à disposição da Justiça. Escreva mais êste tópico: QUE, DEPOIS DE AFASTADO DA POLÍCIA TÉCNICA, O DOUTOR ALBERTO TORNAGHI MUITAS VÊZES COMENTOU COMIGO A INDIGNIDADE QUE CONSTITUIA A ACUSAÇÃO AO TENENTE BANDEIRA, EM FAVOR DOS VERDADEIROS ELEMENTOS QUE HAVIAM COMETIDO O CRIME, CONFORME INDÍCIOS E PROVAS COLHIDOS PELA POLÍCIA TÉCNICA.

UBIRATAN: - Existem outros elementos de prova que se choquem com a entrevista do General Ciro Rezende? Alguma coisa em reforço do que afirma o General Jobim?

TENÓRIO : - Existe a declaração firmada pelos policiais Paulo Corimbaba e João Marques, que participaram das diligências que a Polícia Técnica desenvolveu em tôrno do crime. Trata-se de uma declaração autenticada, legal, que consta de justificação judicial estruturada pelo criminalista Serrano Neves. Não é conversa fiada: são fatos, seu Ubiratan. Vamos a êles: Que, a certa altura das investigações a Polícia Técnica recebeu ORDENS SUPERIORES PARA QUE SE AFASTASSE DO CASO. Que, naquela altura dos trabalhos, porém, as investigações marchavam com êxito, SEM SENTIDO DIFERENTE DAQUELE PREFERIDO PELAS AUTORIDADES DO SEGUNDO DISTRITO POLICIAL. Que, entretanto, as testemunhas que esclareciam determinados fatos, certa feita, FORAM CHAMADAS, ÀS 24 HORAS, A RESIDÊNCIA DO DELEGADO BRANDÃO FILHO, NA RUA CONDE DE IRAJÁ, E, ENTÃO, CONVENCIDAS PELA REFERIDA AUTORIDADE, À ÉPOCA LOTADO NA DELEGACIA DE VIGILÂNCIA E CAPTURAS, DE QUE DEVERIAM IGNORAR QUALQUER COISA SÔBRE O CRIME DO SACOPÃO.

UBIRATAN: - Deputado, existe alguma referência a uma camioneta Dodge, que estava estacionada às proximidades do local do crime?

TENÓRIO: - Você naturalmente se refere à camioneta de Milton Pedro Gomes. Vou prosseguir citando textualmente tópicos da declaração de Corimbaba e Marques: Que, na ladeira do Sacopã, na noite dos fatos, estava estacionada uma camioneta Dodge, cujo mototista foi visto, em cuecas (mudando a roupa), depois de haver retirado, do interior do auto em aprêço, um tapête do piso dianteiro. Que, mais tartde, o motorista da Dodge foi identificado como sendo o SR. MILTON PEDRO GOMES, PESSOA ALTAMENTE COLOCADA NO BANCO DO BRASIL, O QUAL, OUVIDO PELA POLÍCIA TÉCNICA, PRESTOU DECLARAÇÕES EQUÍVOCAS, ALEGANDO QUE ESTAVA NO LOCAL EM COMPANHIA DE UMA SENHORITA QUE DISSE CHAMAR-SE ANA MARZULIQUE, ESSA CRIATURA, OUVIDA, POSTERIORMENTE, NA POLÍCIA TÉCNICA, POR PAULO CORIMBABA, REVELOU QUE MILTON LHE HAVIA PEDIDO QUE CONFIRMASSE SUAS DECLARAÇÕES, EMBORA NÃO FÔSSE EXATO QUE NA NOITE DO CRIME ESTIVERA COM ÊLE NA REFERIDA LADEIRA".

UBIRATAN: - Estas revelações fazem parte do inquérito da Polícia Técnica?

TENÓRIO: - Continuarei citando Paulo Corimbaba e João Marques: Que, naquela mesma ocasião (conta Ana na Polícia Técnica), Milton pediu a ela que não falhasse no seu depoimento, POIS, NA NOITE DO CRIME, HAVIA ÊLE, MILTON, SE METIDO NUMA COMPLICAÇÃO. Informam ainda, os policiais, que as declarações de Ana e Milton foram deixadas à margem do inquérito, E ISSO EM VIRTUDE DE ORDENS SUPERIORES.

UBIRATAN: - A quem Paulo Corimbaba e João Marques fizeram tais revelações?

TENÓRIO: - Trata-se, como disse, de documento idôneo, tal qual o outro, firmado pelo General Jobim. Essas declarações foram assinadas, autenticadas, na presença do Advogado Serrano Neves, então patrono do Tenente Bandeira; do Coronel Rutênio, da segunda seção do Estado-Maior da Aeronáutica; do Major Pires, também lotado naquela seção; do Major Rui Moreira Lima, da Base Aérea de Santa Cruz; do Tenente Paulo Rocha, da FAB, e do Dr. Roberto Iemini Filho, do Conselho Penitenciáio e de jornalistas associados.

UBIRATAN: - A viúva Tornaghi chegou a pronunciar-se a respeito? Existe algum documento nesse sentido?

TENÓRIO: - Perfeitamente. Depôs na presença daquele grupo já citado por mim. Transcreverei um dos itens de suas revelações: Que, auxiliado por alguns policiais da Divisão de Polícia Técnica, seu marido, Doutor Alberto Tornaghi, conseguiu apurar os fatos, sem que qualquer indício ou prova pudesse levar as investigações ATÉ AO TENENTE ALBERTO JORGE FRANCO BANDEIRA, senão em outro sentido, para o que OUVIU TESTEMUNHAS, FÊZ RECONSTITUIÇÕES, JUNTANDO AOS AUTOS DO INQUÉRITO CROQUIS, FOTOGRAFIAS E IMPRESSÕES DIGITAIS E PALMARES DE NUMEROSOS SUSPEITOS, COM EXCEÇÃO DAS IMPRESSÕES DO TENENTE BANDEIRA, POIS ÊSTE, COMO AFIRMOU ACIMA, NÃO APARECIA NO INQUÉRITO, DADA A AUSÊNCIA SEQUER DE INDÍCIOS QUE LEVASSEM SEU MARIDO A SUSPEITÁ-LO.

UBIRATAN: - Desejaria acrescentar algo mais, neste capítulo do Sacopã?

TENÓRIO: - Há muita coisa que dizer sôbre a participação da Polícia Técnica, nas investigações. A Técnica, seu Ubiratan, foi o lado sadio da Polícia. O lado mau, não me canso de repetir, foi o do Segundo Distrito Policial, o que construiu a condenação de um inocente. Penso que, através de palavras autorizadas, respondi às acusações do General Ciro Rezende. O povo que faça o confronto entre o que transcrevi, nestas páginas, e o que afirma o General. O povo é o grande juiz desta batalha.

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