Três mortos no avião

A GENTE vai perdendo os amigos de um em um, e já é duro. Mas três ao mesmo tempo, é demais. E tão de repente, assim de um jeito brutal e contrário à nossa natureza, naquela armadilha aérea, sem possibilidade de fuga ou defesa. E não me venham dizer que naquele desastre, um dos mortos, um dêles, pelo menos, - Luciano Carneiro - quereria morrer assim - não é verdade. Êle não queria morrer, jamais pensara em morrer, só se comportava em têrmos de vida. Viver perigosamente sim, isso êle entendia e amava. Mas a morte não entrava nos seus cálculos; pois o que gente como êle tem de maravilhoso é exatamente essa insolência de vida, essa ignorância deliberada da morte, como que uma segurança de imortalidade. E um acidente fatal vem como uma traição. Os melancólicos, os pessimistas como nós, êsses estão sempre mais ou menos preparados para a morte, nem são muito merecedores de vida. Mas criaturas como Luciano Carneiro - não lhes parece a vocês que todos êsses ritos fúnebres que lhe dedicamos são inadequados para êle, que aquêle não era um homem para se enterrar, encomendar em latim, necrologizar, rezar missa fúnebre por sua alma?

Certa vez, há muitos anos, um bando de gente de letras atravessava a Avenida Rio Branco, e um ônibus doido quase atropelou uma môça do grupo. Augusto Frederico Schmidt, um dos presentes, brincou com ela: Que pena você não ter morrido. Já tinha pensado num discurso fúnebre: Amigos, acabamos de enterrar um raio de sol! - Foi essa frase de poeta que lembrei, naquela triste manhã, no cemitério: enterrando Luciano, não estávamos entregando à terra apenas um fiel defunto, um morto como os demais. Era qualquer coisa de vital, de luminoso, de intrépido, que aquela gente aprisionara no feio caixão, e agora, sob discursos e flashes ia depondo entre as camadas do chão escuro: era um raio de sol.

- Poderia contar que o conheci menino, colegial; é verdade. Que o acompanhei de então, desde os primeiros passos de foca, no Unitário, até a atual projeção de grande repórter internacional, vida realizada, homem feliz, marido, pai orgulhoso da pequena Tatiana. Como através dêle conheci e adotei Glorinha, a môça agora viúva que ontem, na missa, chorava tanto, tão frágil e tão humilde diante de dor assim grande, resguardando no corpo derradeira lembrança de Luciano, o filho que ainda vai nascer. Ah, as recordações dos amigos que morrem, como ficam vivas e adquirem fôrças. Íamos fazem um álbum - isto é, o álbum era dêle, minhas só as legendas. E as séries de reportagens que planejávamos, - quase tudo ficou em plano, minha indolência, resistindo sempre ao dinamismo e a sua paixão pelo trabalho.

A gente brincava com êle - você parece um saci! Irrompia nos lugares mais inesperados, montado num burro, a três léguas do campo de pouso onde deixara o teco-teco, máquina pendurada ao pescoço, atrás de uma reportagem. Aparecia numa esquina em Paris, num cinema em São Paulo; dentro de um jipe, em plena catinga, onde nos fôra caçar para dar uma notícia sensacional. Telefonava para dizer que chegara de viagem, para contar graças de menina, ou surgia na porta com um presente na mão, - objetos da mais heterogênea procedência, mas sempre de fonte autêntica - um barro de Vitalino, um boneco de cristal da Tcheco-Eslováquia, uma gravura do Japão. O último telefonema foi para mais uma vez reclamar contra êste retrato que sai na última: Vou aí bater uma chapa sua, bato dez, bato cem, mas há de prestar! Não deu tempo para mais um retrato, Luciano. Aliás você também estrilava quando eu chamava suas fotos de retrato. Dizia naquele entusiasmo: Não é retrato, é foto, é flagrante, é coisa viva! Sim - vivo, vida - creio que eram as palavras de que você mais gostava, as que melhor entendia.

Acima falei em Schmidt. Novamente o lembro para contar que foi êle, então Schmidt-Editor, estabelecido na Rua Sachet que me apresentou a Lúcia Miguel Pereira, como me apresentou a Octavio Tarquínio de Souza. Isso foi lá pelo ano de 1931. E Lúcia, então como sempre, me apareceu como a realização do que eu mais valorizava, porque mais inacessível para mim a segurança intelectual, o discernimento literário, o acúmulo de leituras excelentes, a capacidade de juízo crítico. Junto ao amontoado de intuições e aquisições malfeitas que é o nosso acervo de autodidatas, aquela extrema civilização intelectual dela fazia com que me sentisse ainda mais rústica, como uma índia diante de uma doutôra. Apesar disso, ou por causa disso, ficamos amigas. Boa amizade segura de duas mulheres, que não são rivais em nada e em que pelo menos uma das duas - era eu - admira profundamente a outra. Amizade que durou quase trinta anos, e que se acresceu quando Octavio Tarquínio entrou na vida de Lúcia, companheiro amado e inseparável; êle que, vindo de outra geração e de outro plano de cultura, a gente antes olhava de longe, - como soube criar intimidade fraternal - como era bom ouvi-los, como era bom conviver com êles, com êles falar da vida e do mundo! Nossas últimas conversas giravam em tôrno de um assunto que o apaixonava: o pai de José de Alencar teria chegado a se ordenar padre, ou ficara no diaconato? Octavio exigia que eu, como pessoa da família, resolvesse a dúvida. Consegui desencavar uma velha reportagem onde se falava na certidão de casamento dos meus tataravós, - celebrado pelo Padre Alencar. Êle agora exigia a própria certidão - eu protestava rindo contra êsse desenterrar de velhos esqueletos de família, êle, porém, cortava a questão: historiador não tem entranhas!

Como protestou Manuel Bandeira - morrerem tão ao contrário da discreção, da quase tôrre de marfim em que viviam - morrerem em manchete. Mas morreram juntos, e morreram no apogeu. Octavio triunfante com o extraordinário êxito dos seus Fundadores do Império, Lúcia na tranqüila trajetória ascendente da sua obra. Morreram unidos, talvez assustados, mas felizes. Tomara eu, quando chegar a hora de alguém se acabar, acabar também assim, sem dilaceramento nem separação. Falei no princípio contra morte tão brusca? Foi a propósito de Luciano, que era jovem. Mas às portas da velhice, sem um desgôsto novo no coração, numa clara tarde de sol, num avião em vôo, abraçados e companheiros - ora, há piores maneira de morrer. Sim, tomara eu uma igual.

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