Votar
HÁ
treze anos atrás preparava-se o Brasil para uma eleição
importante. E em “O
Cruzeiro”
de 11 de janeiro de 1947, esta nossa Última Página
assim falava aos amigos leitores:
“Não
sei se vocês têm meditado como devem no funcionamento
do complexo maquinismo político que se chama govêrno
democrático, ou govêrno do povo. Em política
a gente se desabitua de tomar as palavras no seu sentido imediato.
No entanto, talvez não exista, mais do que esta, expressão
nenhuma nas línguas vivas que deva ser tomada no seu sentido
mais literal: govêrno do povo. Porque,
numa democracia, o ato de votar representa o ato de FAZER O GOVÊRNO.
Pelo voto não se serve a um amigo, não
se combate um inimigo, não se presta ato de obediência
a um chefe, não se satisfaz uma simpatia. Pelo voto a gente
escolhe, de maneira definitiva e irrecorrível, o indivíduo
ou grupo de indivíduos que nos vão governar pro
determinado prazo de tempo.
Escolhem-se pelo voto aquêles que vão
modificar as leis velhas e fazer leis novas - e quão profundamente
nos interessa essa manufatura de leis! A lei nos pode dar e nos
pode tirar tudo, até o ar que se respira e a luz que nos
alumia, até os sete palmos de terra da derradeira moradia.
Escolhemos
igualmente pelo voto aquêles que nos vão cobrar impostos
e, pior ainda, aquêles que irão estipular a quantidade
dêsses impostos. Vejam como é grave a escolha dêsses
“cobradores”.
Uma vez lá em cima podem nos arrastar à penúria,
nos chupar a última gôta de sangue do corpo, nos
arrancar o último vintém do bôlso.
E, por falar
em dinheiro, pelo voto escolhem-se não só aquêles
que vão receber, guardar e gerir a fazenda pública,
mas também se escolhem aquêles que vão “fabricar”
o dinheiro. Esta é uma das missões mais delicadas
que os votantes confiam aos seus escolhidos. Pois se a função
emissora cai em mãos desonestas, é o mesmo que ficar
o país entregue a uma quadrilha de falsários. Êles
desandam a emitir sem conta nem limite, o dinheiro se multiplica
tanto que vira papel sujo, e o que ontem valia mil, hoje não
vale mais zero.
Não
preciso explicar muito êste capítulo, já que
nós ainda nadamos em plena inflação e sabemos
à custa da nossa fome o que é ter moedeiros falsos
no poder. (E pensar que isto foi escrito ainda em 1947!)
Escolhem-se nas eleições aquêles
que têm direito de demitir e nomear funcionários,
e presidir a existência de todo o organismo burocrático.
E, circunstância mais grave e digna de
todo o interêsse: dá-se aos representantes do povo
que exercem o poder executivo o comando de tôdas as fôrças
armadas: o exército, a marinha, a aviação,
as polícias.
E assim, amigos, quando vocês forem levianamente
levar um voto para o Sr. Fulaninho que lhes fêz um favor,
ou para o Sr. Sicrano que tem tanta vontade de ser governador,
coitadinho, ou para Beltrano que é tão amável,
parou o automóvel, lhes deu uma carona e depois solicitou
o seu sufrágio - lembrem-se de que não vão
proporcionar a êsses sujeitos um simples emprêgo bem
remunerado. Vâo lhes entregar um poder enorme e temeroso,
vão fazê-los reis; vão lhes dar soldados para
êles comandarem - e soldados são homens cuja principal
virtude é a cega obediência às ordens dos
chefes que lhe dá o povo. Votando, fazemos dos votados
nossos representantes legítimos, passando-lhes procuração
para agirem em nosso lugar, como se nós próprios
fôssem. Entregamos a êsses homens tanques, metralhadoras,
canhões, granadas, aviões, submarinos, navios de
guerra - e a flor da nossa mocidade, a êles prêsa
por um juramento de fidelidade. E tudo isso pode se virar contra
nós e nos destruir, como o mostro Frankenstein se virou
contra o seu amo e criador.
Votem, irmãos, votem. Mas pensem bem antes.
Votar não é assunto indiferente, é questão
pessoal, e quanto! Escolham com calma, pesem e meçam os
candidatos, com muito mais paciência e desconfiança
do que se estivessem escolhendo uma noiva. Porque, afinal, a mulher
quando é ruim, dá-se uma surra, devolve-se ao pai,
pede-se desquite. E o govêrno, quando é ruim, êle
é que nos dá a surra, êle é que nos
põe na rua, tira o último pedaço de pão
da bôca dos nossos filhos e nos faz aprodecer na cadeia.
E quando a gente não se conforma, nos intitula de revoltoso
e dá cabo de nós a ferro e fogo.
E agora um
conselho final, que pode parecer um mau conselho, mas no fundo
é muito honesto. Meu amigo e leitor, se você estiver
comprometido a votar com alguém, se sofrer pressão
de algum poderoso para sufragar êste ou aquêle candidato,
não se preocupe. Não se prenda infantilmente a uma
promessa arrancada à sua pobreza, à sua dependência
ou à sua timidez. Lembre-se de que o voto é
secreto.
Se o obrigam
a prometer, prometa. Se tem mêdo de dizer não, diga
sim. O crime não é seu, mas de quem tenta violar
a sua livre escolha. Se, do lado de fora da seção
eleitoral, você depende e tem mêdo, não se
esqueça de que DENTRO DA CABINE INDEVASSÁVEL VOCÊ
É UM HOMEM LIVRE. Falte com a palavra dada à fôrça,
e escute apenas a sua consciência. Palavras o vento leva,
mas a consciência não muda nunca, acompanha a gente
até o inferno”.
* * *
De 1947 para cá o Brasil não mudou,
nós não mudamos. Apenas nossos problemas ficaram
mais graves, nossas responsabilidades mais sérias.
E então, como agora, só uma coisa
quero acentuar:
Sim, dentro da cabine indevassável, não
se esqueça de que você é um homem livre!