Ninguém
conhece ninguém
JOSÉ
AMÁDIO apresenta JÂNIO QUADROS
Cristo & Chaplin
Dizem que
suas fontes de sabedoria jorram em Cristo, Chaplin, Shakespeare
e Lincoln. Quarteto heterogêneo mas com predominante denominador
incomum - conteúdo humano. Não se pode negar que
soube escolher seus exemplos. Falam também que pediu emprestado
a Lenine algumas de suas táticas políticas (não
ideológicas), mas não sei até onde vão
suas intimidades com o líder russo. Seu bigode, meio sôbre
a escôva desanimada, seria um empréstimo solicitado
a Nietzsche. Estranha salada da qual resultou uma das mais estranhas
personalidades desta república.
Um líder.
Refrêsco & Carreira
Vocês
sabem quase todo o quase tudo que sei sôbre Jânio
Quadros. As perguntas que tinha engatilhadas ficam para a próxima
caçada. De automática em punho, bala na agulha,
resta-me o consôlo de alvejar o documento livro de Viriato
de Castro (O Fenômeno Jânio Quadros).
Que me desculpe o colega. Foi uma espécie de refrêsco
furtado a canudinho de coca-cola. Êle poderá fazer
o mesmo com os meus rascunhos, quando tiver sêde. Refrêsco
com refrêsco se paga. Assim, vejamos como Jânio conseguiu
subir nas árvores quase sempre flexíveis do poder.
Árvores esguias às vêzes, às vêzes
amplas de tronco, quebradiças, espinhosas de raízes
ávidas ou de fartas raízes: vereador em novembro
de 1947 com 1.707 votos. Deputado estadual em outubro de 1950
com 17.840 votos. Governador do Estado de São Paulo em
outubro de 1954 com 660.264 votos. Deputado Federal pelo Paraná
em outubro de 1958 com 78.810 votos.
Como será sua conta de chegada em 3 de outubro?
Latim & Poesia
Nasceu em
janeiro, 25. Ano: 1917. Observem a coincidência: a 25 de
janeiro comemora-se a fundação de São Paulo.
Ouviu o galo cantar pela primeira vez em Campo Grande, Mato Grosso.
Engatinhou em Curitiba. Em 1930 a família mudou-se para
São Paulo. Depois: Lorena, Bauru, Garça, Cândido
Mota. Novamente cidade de São Paulo. Jânio foi guri
levado, cabeçudo, finca-pé. Não sei se os
padres do Colégio Arquidiocesano chegaram a puxar-lhe as
orelhas, mas os castigos se sucediam: decorar latim. Quousque
tendem abutere. Virgílio. Horácio. Sabia
poemas inteiros de cor. Talvez salteados. Daí as sementes
de seus próprios versos. Fêz e faz poemas até
hoje. Não sei se os recita.
Mas fala como quem.
Xadrez & Carnaval
Em 1935,
estava na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.
Fêz política acadêmica. Foi primeiro-secretário
do “Alvarez
de Azevedo”
e do “XI
de Agôsto”.
Há três mulheres em sua vida: mãe, espôsa
e filha. Conheceu dona Eloá aos 21 anos. Ela, então
brotinho de 15 anos, achou-o feio, mas alegaria mais tarde: quem
vê cara não vê coração. Casaram-se
em 1942. São felizes, ao que sei, e se entendem bem. O
Jânio de então decifrava palavras cruzadas, jogava
xadrez, lia histórias policiais e freqüentava (sem
dançar) bailes de carnaval. Num dêsses bailes, um
frasco de lança-perfume explodiu perto dêle. Vem
daí o pequeno defeito que tem numa das vistas.
Mas que não o impede de enxergar longe.
Navalha & Pente
Por motivos
que ainda não descobri, era inimigo da navalha e do pente.
Parece que a barba o protegia do frio, da garoa paulista, dos
inimigos, de si mesmo. Dizem que barba é amiga de meditações
profundas. Acariciá-la equivale a aprimorar idéias.
Cofiar um bom cavanhaque, confessou-me certa vez um amigo do sul,
o deixava afiado nos positivistas de sua cabeceira. O Jânio
de hoje, mudou ou foi mudado. Era barbudo, está escanhoado.
Era pálido, está rosado. Era triste, está
quase alegre. Era encurvado, está ereto. Era desconfiado,
está mais ainda. Apresenta-se sempre bem barbeado, bem
penteado, bem escovado, bem passado. Único senão
à sua linha: ainda usa suspensórios. Está
quase elegante. Quase, eu disse. E as mulheres, principalmente
suas eleitoras, já o consideram quase bonito.
Quase, eu disse.
Honestidade & Trabalho
Observe-se
que estou analisando seu lado humano, e não seu lado político.
Brinca-se com um homem, mas não se brinca com suas idéias.
O cidadão Jânio Quadros, por ser incomum, admite
considerações incomuns. Com o político Jânio
Quadros não me meto. Ou não me meto nesta seção.
Êle afirma que vai salvar o Brasil, que vai definir nossas
estações, porquanto agora vivemos em permanente
inverno que considera longo e tenebroso. Diz que quando ingressou
na política foi com a intenção de demonstrar
que o regime democrático exige apenas honestidade e trabalho.
Sempre se preocupou com os problemas brasileiros, sempre amou
a pátria embora não seja personagem de hino. Em
1939, seu colega Nelson Coutinho escreveu artigo que dizia assim:
“Nêle
tudo é patriotismo, é nacionalismo exaltado, é
vibração cívica...”
Nunca dormiu em berço esplêndido.
Carisma & Destino
Ficou em
moda ligar o substantivo carisma à personalidade do senhor
Jânio Quadros. Quem não entende, e o teme por não
entendê-lo, vai logo dizendo de bôca meio adernada:
“Sei lá,
êle é meio carismático”.
Nesse carismático vai um pouco de desconfiança,
um pouco de intranqüilidade, um pouco de velada admiração.
Jânio é um político que usa armas inusitadas.
Tem procurado fugir ao lugar-comum administrativos. Seus bilhetinhos
ficaram famosos em São Paulo. Sua administração
sacudiu o funcionalismo público. Muita gente tem mêdo
dêle e muita gente o admira fundo. Também o chamam
de “messiânico”.
Já foi imaginado de túnica branca e ampla, cabelos
derramados pelos ombros, pregando às margens do rio Ipiranga.
Daria um bom apóstolo.
Nervos & Autoridade
Come mal,
bebe muito bem, dorme tarde. Acorda cedo, é extremamente
nervoso, mas não se considera explosivo. Ou melhor: controla
as explosões, porque as teme. Vi-o dando algumas broncas
no avião. A explosão, diz êle, exclui melhor
decisão, melhor certeza, melhor juízo. Se é
pai autoritário? Não se julga. Se é marido
exigente? Pensa que não. Diz que dá à filha
e à espôsa liberdade de gôsto e preferência.
É condescendente com os namorados de Tutu. Não a
tranca em círculos de ferro. Procura compreendê-la
e ser compreendido. Gosta muito de viajar. Teve a preocupação
de correr mundo para aprender. Esperança de importar alguma
coisa para nossa terra e nossa gente. Bisbilhotou o Japão,
a Índia, a Rússia.
Sua avó ensinou-o a andar de bicicleta.
Guri & Totó
Considera-se
homem de formação clássica. Foi professor
de português, geografia e história. Tem uma gramática
expositiva quase concluída. Em economia diz-se acadêmico.
Gosta de ler biografias de homens fortes: Bolivar, Lincoln, Bismarck.
Detesta fazer compras ou ver vitrinas. Gosta de cães. Tem
alguns em casa: Guri e Totó, por exemplo. Nomes bem brasileiros.
Ainda bem. Sempre desconfiei de cachorro com nome sofisticado.
Cachorro nacional tem que se chamar mesmo Joli, Sultão,
Jagunço, Tôco. Minha vizinha tem uma cadela chamada
Blue Gardenia. Não confio nesse bicho. Conheço uma
cadela chamada Sonata. Confio menos ainda. Os Quadros souberam
batizar seus mastins. Bom sinal. Note-se: mesmo com bichos Jânio
é intransigente - quis despedir os cães da Polícia
Militar, quando governador de São Paulo, porque fracassaram
na busca de criança perdida.
Lê histórias em quadrinhos.
Índios & Vargas
Sente-se
atraído pelo oeste, pelos ocasos, pelas auroras, pelo céu,
pelas nuvens livres do oeste. Entende-se com índios. É
amigo de Cláudio e Orlando Villas Boas. Gosta de caçar
em Mato Grosso. Atira bem. A noite de 3 de abril de 1955 foi a
mais dramática de sua vida. Seria ou não candidato
à presidência da república? No último
instante renunciou em favor de Juarez Távora. Licenciou-se
do govêrno para fazer a campanha com o general. Perderam.
Serviu o treino. Era amigo de Getúlio Vargas e isso lhe
valeu expulsão do PDC (que depois reconsiderou a medida).
Diz o Padre Arruda Câmara que êle não foi expulso,
mas convidado a sair do partido.
Confiança & Mêdo
Tem a mais
absoluta confiança no julgamento popular. Não acredita
que desta vez o povo se equivoque. Seja qual fôr o resultado
das urnas, porém, sente-se inteiramente realizado como
político. Aos 43 anos, fêz o que muito político
profissional não faria aos 80. Lutou, foi atacado, atacou,
voou (tem mêdo de avião), usou caminhão, jipe,
trem, vapor, talvez até bicicleta. Usaria patins se preciso
fôsse. Ou patinete, porque gosta muito de crianças.
No fundo deve ser um lírico. Na forma, um prático.
Por quê? Porque tem sabido bitolar seus prováveis
sonhos de grandeza numa realidade palpável. Quer dizer:
quis ser vereador foi; quis ser deputado, foi; quis ser governador,
foi. Quer agora varrer a nação.
Varrerá?
Personagem & Candidato
Assim é
(mais ou menos), ou assim me parece ser (levando em conta a carência
de dados), o cidadão Jânio da Silva Quadros. O personagem
é meu. O candidato, como todos os outros, é do Brasil.
A decisão é vossa.