A
resposta de Tenório
Do
candidato Tenório Cavalcanti, recebemos a seguinte carta
em resposta ao artigo de David Nasser:
Meu caro David
Nasser:
Não
sou feliz. Ferem-me acusações de inimigos, atribula-me
a incompreensão de amigos. Dói-me menos o agressivo
acicate daqueles do que a dúbia e meia solidariedade dêstes.
Seu artigo
na Revista “O
Cruzeiro”,
meu caro David, constrangeu-me. Confessando-se meu amigo, você
fêz sua a acusação de meus inimigos: chamou-me
de pistoleiro.
Nenhuma outra
acusação me é feita, a não ser essa
que visa ridicularizar minha coragem de defender-me.
Você diz que não tem mêdo de mim. Eu, em resposta,
asseguro-lhe: tenho mêdo de você, tenho mêdo
de qualquer homem, até o dia em que você ou qualquer
um outro saca de uma arma para abater-me, aniquilar-me.
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* *
Tenho singular respeito pelo direito alheio, porque estimo os
meus direitos. No dia em que eu deixar abater-me sem reação,
menosprezarei, nesse momento, a vida do próximo, por isso
que desdenharei a minha própria. Quem não defende
os próprios direitos não defende os dos outros.
Quisera, meu amigo, viver esquecido. Para mim, seria melhor nunca
ser lembrado. Desejaria poder viver de acôrdo com a filosofia
do personagem do Beaumarchais: “Je
me crus trop hereux d' en être oubilé, persuadé
qu'n grand nous fait assez de bien quand il ne nous fait pas de
mal”.
Esquecido no lar, existindo só para mim e para os meus
- que dita! - Mas, meu caro David, infelizmente, pensei nos outros.
E, pensando nos outros, fui obrigado a pensar demasiadamente em
mim.
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* *
Pela sua
teoria, só deveria eu haver matado um: Bereco, o assassino
de 31 irmãos seus, brasileiros nascidos no Oriente, porque,
no Brasil, os sírios nos ajudam, credenciando-se nos nossos
corações como nossos irmãos.
Mas, David,
e os outros Berecos? Os Homens de Carvalho, os Manuéis
Costa e outros professôres do gatilho, que depois de assassinarem
tantos brasileiros, irmãos dos sírios, cravejaram
meu corpo de balas, derramaram meu sangue?
Deveria morrer?
Deveria abrir meus braços a meus agressores, com pena dêles?
Deveria eu correr, como o seu candidato, que se salvou, deixando
o Major Vaz no campo de luta, para morrer só?
Nossas filosofias
de vida são diferentes: bata palmas, meu amigo, aos que
sacrificam os amigos para proteger a própria vida, que
eu arrisco a minha , para salvar as do que comigo caminham!
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Em
uma das peças do dramaturgo da grande revolução,
vemos o pobre Fígaro, depois de confessar os fracassos
da inteligência, gritar contra os que só padeceram
no mundo “la
peine de naitre”.
Nasci em
berço pobre e, por isso, o desconfôrto do nascimento
semeou-me o caminho de urzes e lágrimas. Luto no meio dos
gemidos, pensando as feridas do povo; cuido também de mim,
porque os que me agridem são os que odeiam o povo.
Os pobres
de nascimento ou se desgastam numa vida de vícios ou servidão,
ou têm uma existência torturada. A agonia é
a companheira do pobre, meu caro David!
Mudar êsse
ritmo, dar ao homem da rua a oportunidade de mostrar o que é,
e não o encargo de representar o papel que a sociedade
lhe impõe, eis o que desejo, eis a que me proponho.
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Fala
você no desprêzo que damos ao árabe, chamando-o
de turco.
Perdoe ao
brasileiro a desgraça de estimar a raça árabe,
meu bom amigo!
Temos, eu
e meus patrícios, a desventura de estimarmos os que vivem
conosco, e dom êles nos identificarmos. Daí, a intimidade
do nosso tratamento, de nossas piadas e anedotas.
Meu bom David,há
um povo mais injuriado pela nossa sátira do que o árabe:
é o português. Mas, desculpe-me a franqueza, há
um povo que estimamos mais que o árabe: é o povo
de Portugal.
Satirizamo-lo,
maltratamo-lo até, entretanto, meu caro David, Brasil e
Portugal são uma só Pátria dividida. Brasileiro
e português não precisam de tratados para considerarem-se
irmãos: se o Brasil sofre, Portugal tira o lenço
e chora. Se Portugal é ameaçado, o Brasil se ergue
e protesta.
Não
se abespinhe se um brasileiro lhe chama de turco. O tratamento
caseiro é uma prova de afeição. O Líbano,
David, é uma Rua da Alfândega, tão nossa,
incrustada no Oriente. O libanês e o sírio, queira
você ou não, são nossos e, assim, serão
tratados na intimidade, meu bom turco.
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Mais
isenção de ânimo lhe desejo no julgar. Nunca
quis matá-lo, a não ser em pilhéria. Os árabes
são meus amigos, vejo em cada árabe um Farah, êsse
meu companheiro, amigo, muito mais que amigo: um irmão,
pelo qual sou capaz de morrer e matar. Estimo todos, inclusive
você, porque meu coração anda onde minha consciência
está.
José
Amádio focalizou-me bem, porque não viu através
de monóculo. Viu-me os grandes defeitos, imensos e muitos,
subsistentes em minha natureza como agregados morais persistentes.
Mas não viu em mim um diabo, às vêzes parceiro
de Deus, e, sim, um parceiro de Deus, um cristão, que,
pelo seu temperamento, é às vêzes metido no
papel de diabo.
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Não
tenho ódio de você por isso. Não me impressiona
o juízo que alguém faz de mim. O que me interessa
é o juízo que faço dos outros. Conta-nos
Tasso que Clorinda se apaixonou por Tancredo, valente cruzado.
Mas, agarrada à crença pagã, a êle
não se pôde unir. Resisitiu aos apelos de Arsete,
negando-se ao batismo. Adorava ao guerreiro, mas não se
deixava batizar. Ferida, mortalmente ferida, em vendo Tancredo
a seu lado, sentiu a união íntima da consciência
e do coração, e pediu que Tancredo a batizasse.
Virtù ch’or
Dio de infonde; e se rubella in vita fu, la vuole in morte ancella...”
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David,
se você um dia estiver à morte, em vendo Tenório
a seu lado, para ampará-lo com a sua solidariedade de amigo,
ou se eu morrer primeiro, há de compreender quem é
Tenório, êsse que você chama de pistoleiro.
Não
irei ao seu entêrro, porque só compareço a
entêrro de amigos, quando, falhando a Justiça humana,
Tenório tem de jurar fidelidade ao amigo. Mas estarei,
em espírito, acompanhando o seu féretro, e você
então me verá, dobrado à Justiça Divina,
que o chamou para prestar contas a Deus da injustiça que
fêz com Tenório, escutando o respeitoso pronunciamento
da Justiça humana, se alguém o prostou, revelando-se,
se as leis dos homens não puniu o que a Justiça
Divina condena.
* * *
Meu
David, diz você que eu estaria pobre se fôsse pagar
gotas de sangue que de outros derramei.
Engana-se: mais rico me encontraria, porque o sangue que borbulhou
de 47 ferimentos em meu corpo, se medido, ultrapassaria, em quantidade,
o que fiz derramar do corpo dos meus agressores.
“Arma
armis vim vis repellere”
- é um princípio antigo.
Não
invoco o direito de faida dos bárbaros.
Perdôo a agressão, mesmo quando essa não tem
possibilidade de repetir-se. Travada a luta, esqueço-a,
passada a parada. Mas, se me encontro sob ameaça iminente,
ou agredido, reajo. Não me entrego à sanha dos meus
agressores, nem deixo Major Vaz nos dentes de um cardume de piranhas,
fugindo para safar-me.
* * *
David,
eis aí o seu amigo Tenório, que, ás vêzes
é mau, porque deseja ser bom, amigo dos amigos, corajoso
no repelir e covarde diante da fraqueza e da lágrima.
Um menino que injuria, você David, fustiga-me e me provoca,
como se eu gostasse de rinha. Diz que não tem mêdo
de mim, e eu me rio e passo, gozando a injúria da criança
e gostando da sua coragem, porque o corajoso não me atemoriza
e, sim, o que tem mêdo. O homem que mais me apavorou não
foi o que me descarregou o revólver “Colt”
de frente, e a quem abati em luta limpa. Mas um covarde que fêz,
da tocaia, a cama. O corajoso disputou a vida como homem. O covarde
armou-me 14 emboscadas. O primeiro foi esquecido. Teve enterro,
mas não teve um pedestal na opinião dos que me acusam;
o segundo, foi imortalizado como vitima.
Eu, porém,
David, penso de modo diferente: matei o corajoso para não
morrer, mas o covarde precisou ir para honrar a dignidade das
calças que o homem veste.
Sei que você
é corajoso, e, comigo, o homem corajoso vive em paz, até
o dia em que me respeite a família e não tente contra
a minha vida, contra a vida dos meus amigos e do meu povo. Você
não me apavora. Estimo-o, mesmo quando você me acusa.
Você é um membro dessa família árabe,
que nós, brasileiros, temos no coração.
TENÓRIO CAVALCANTI