A resposta de Tenório

Do candidato Tenório Cavalcanti, recebemos a seguinte carta em resposta ao artigo de David Nasser:

Meu caro David Nasser:

Não sou feliz. Ferem-me acusações de inimigos, atribula-me a incompreensão de amigos. Dói-me menos o agressivo acicate daqueles do que a dúbia e meia solidariedade dêstes.

Seu artigo na Revista O Cruzeiro, meu caro David, constrangeu-me. Confessando-se meu amigo, você fêz sua a acusação de meus inimigos: chamou-me de pistoleiro.

Nenhuma outra acusação me é feita, a não ser essa que visa ridicularizar minha coragem de defender-me.

Você diz que não tem mêdo de mim. Eu, em resposta, asseguro-lhe: tenho mêdo de você, tenho mêdo de qualquer homem, até o dia em que você ou qualquer um outro saca de uma arma para abater-me, aniquilar-me.

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Tenho singular respeito pelo direito alheio, porque estimo os meus direitos. No dia em que eu deixar abater-me sem reação, menosprezarei, nesse momento, a vida do próximo, por isso que desdenharei a minha própria. Quem não defende os próprios direitos não defende os dos outros.

Quisera, meu amigo, viver esquecido. Para mim, seria melhor nunca ser lembrado. Desejaria poder viver de acôrdo com a filosofia do personagem do Beaumarchais: Je me crus trop hereux d' en être oubilé, persuadé qu'n grand nous fait assez de bien quand il ne nous fait pas de mal.

Esquecido no lar, existindo só para mim e para os meus - que dita! - Mas, meu caro David, infelizmente, pensei nos outros. E, pensando nos outros, fui obrigado a pensar demasiadamente em mim.

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Pela sua teoria, só deveria eu haver matado um: Bereco, o assassino de 31 irmãos seus, brasileiros nascidos no Oriente, porque, no Brasil, os sírios nos ajudam, credenciando-se nos nossos corações como nossos irmãos.

Mas, David, e os outros Berecos? Os Homens de Carvalho, os Manuéis Costa e outros professôres do gatilho, que depois de assassinarem tantos brasileiros, irmãos dos sírios, cravejaram meu corpo de balas, derramaram meu sangue?

Deveria morrer? Deveria abrir meus braços a meus agressores, com pena dêles? Deveria eu correr, como o seu candidato, que se salvou, deixando o Major Vaz no campo de luta, para morrer só?

Nossas filosofias de vida são diferentes: bata palmas, meu amigo, aos que sacrificam os amigos para proteger a própria vida, que eu arrisco a minha , para salvar as do que comigo caminham!

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Em uma das peças do dramaturgo da grande revolução, vemos o pobre Fígaro, depois de confessar os fracassos da inteligência, gritar contra os que só padeceram no mundo la peine de naitre.

Nasci em berço pobre e, por isso, o desconfôrto do nascimento semeou-me o caminho de urzes e lágrimas. Luto no meio dos gemidos, pensando as feridas do povo; cuido também de mim, porque os que me agridem são os que odeiam o povo.

Os pobres de nascimento ou se desgastam numa vida de vícios ou servidão, ou têm uma existência torturada. A agonia é a companheira do pobre, meu caro David!

Mudar êsse ritmo, dar ao homem da rua a oportunidade de mostrar o que é, e não o encargo de representar o papel que a sociedade lhe impõe, eis o que desejo, eis a que me proponho.

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Fala você no desprêzo que damos ao árabe, chamando-o de turco.

Perdoe ao brasileiro a desgraça de estimar a raça árabe, meu bom amigo!

Temos, eu e meus patrícios, a desventura de estimarmos os que vivem conosco, e dom êles nos identificarmos. Daí, a intimidade do nosso tratamento, de nossas piadas e anedotas.

Meu bom David,há um povo mais injuriado pela nossa sátira do que o árabe: é o português. Mas, desculpe-me a franqueza, há um povo que estimamos mais que o árabe: é o povo de Portugal.

Satirizamo-lo, maltratamo-lo até, entretanto, meu caro David, Brasil e Portugal são uma só Pátria dividida. Brasileiro e português não precisam de tratados para considerarem-se irmãos: se o Brasil sofre, Portugal tira o lenço e chora. Se Portugal é ameaçado, o Brasil se ergue e protesta.

Não se abespinhe se um brasileiro lhe chama de turco. O tratamento caseiro é uma prova de afeição. O Líbano, David, é uma Rua da Alfândega, tão nossa, incrustada no Oriente. O libanês e o sírio, queira você ou não, são nossos e, assim, serão tratados na intimidade, meu bom turco.

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Mais isenção de ânimo lhe desejo no julgar. Nunca quis matá-lo, a não ser em pilhéria. Os árabes são meus amigos, vejo em cada árabe um Farah, êsse meu companheiro, amigo, muito mais que amigo: um irmão, pelo qual sou capaz de morrer e matar. Estimo todos, inclusive você, porque meu coração anda onde minha consciência está.

José Amádio focalizou-me bem, porque não viu através de monóculo. Viu-me os grandes defeitos, imensos e muitos, subsistentes em minha natureza como agregados morais persistentes. Mas não viu em mim um diabo, às vêzes parceiro de Deus, e, sim, um parceiro de Deus, um cristão, que, pelo seu temperamento, é às vêzes metido no papel de diabo.

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Não tenho ódio de você por isso. Não me impressiona o juízo que alguém faz de mim. O que me interessa é o juízo que faço dos outros. Conta-nos Tasso que Clorinda se apaixonou por Tancredo, valente cruzado. Mas, agarrada à crença pagã, a êle não se pôde unir. Resisitiu aos apelos de Arsete, negando-se ao batismo. Adorava ao guerreiro, mas não se deixava batizar. Ferida, mortalmente ferida, em vendo Tancredo a seu lado, sentiu a união íntima da consciência e do coração, e pediu que Tancredo a batizasse. Virtù chor Dio de infonde; e se rubella in vita fu, la vuole in morte ancella...

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David, se você um dia estiver à morte, em vendo Tenório a seu lado, para ampará-lo com a sua solidariedade de amigo, ou se eu morrer primeiro, há de compreender quem é Tenório, êsse que você chama de pistoleiro.

Não irei ao seu entêrro, porque só compareço a entêrro de amigos, quando, falhando a Justiça humana, Tenório tem de jurar fidelidade ao amigo. Mas estarei, em espírito, acompanhando o seu féretro, e você então me verá, dobrado à Justiça Divina, que o chamou para prestar contas a Deus da injustiça que fêz com Tenório, escutando o respeitoso pronunciamento da Justiça humana, se alguém o prostou, revelando-se, se as leis dos homens não puniu o que a Justiça Divina condena.

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Meu David, diz você que eu estaria pobre se fôsse pagar gotas de sangue que de outros derramei.

Engana-se: mais rico me encontraria, porque o sangue que borbulhou de 47 ferimentos em meu corpo, se medido, ultrapassaria, em quantidade, o que fiz derramar do corpo dos meus agressores.

Arma armis vim vis repellere - é um princípio antigo.

Não invoco o direito de faida dos bárbaros. Perdôo a agressão, mesmo quando essa não tem possibilidade de repetir-se. Travada a luta, esqueço-a, passada a parada. Mas, se me encontro sob ameaça iminente, ou agredido, reajo. Não me entrego à sanha dos meus agressores, nem deixo Major Vaz nos dentes de um cardume de piranhas, fugindo para safar-me.

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David, eis aí o seu amigo Tenório, que, ás vêzes é mau, porque deseja ser bom, amigo dos amigos, corajoso no repelir e covarde diante da fraqueza e da lágrima.

Um menino que injuria, você David, fustiga-me e me provoca, como se eu gostasse de rinha. Diz que não tem mêdo de mim, e eu me rio e passo, gozando a injúria da criança e gostando da sua coragem, porque o corajoso não me atemoriza e, sim, o que tem mêdo. O homem que mais me apavorou não foi o que me descarregou o revólver Colt de frente, e a quem abati em luta limpa. Mas um covarde que fêz, da tocaia, a cama. O corajoso disputou a vida como homem. O covarde armou-me 14 emboscadas. O primeiro foi esquecido. Teve enterro, mas não teve um pedestal na opinião dos que me acusam; o segundo, foi imortalizado como vitima.

Eu, porém, David, penso de modo diferente: matei o corajoso para não morrer, mas o covarde precisou ir para honrar a dignidade das calças que o homem veste.

Sei que você é corajoso, e, comigo, o homem corajoso vive em paz, até o dia em que me respeite a família e não tente contra a minha vida, contra a vida dos meus amigos e do meu povo. Você não me apavora. Estimo-o, mesmo quando você me acusa. Você é um membro dessa família árabe, que nós, brasileiros, temos no coração.

TENÓRIO CAVALCANTI

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