Discurso
a um ausente
O Embaixador
Assis Chateaubriand, amante dos contrastes, designou o jornalista
David Nasser, da direção de “O
Cruzeiro”,
para saudar o Marechal Lott, no almôço que esta Revista
oferecia ao candidato pessedista, e que, por motivo de saúde
do homenageado, não se realizou. O discurso, porém,
estava pronto. Ei-lo, na íntegra, como seria lido.
SENHOR
Henrique Baptista Duffles Teixeira Lott, candidato à Presidência
da República, hóspede desta casa que se abriu, não
para receber os homens em luta, mas aquêles que, na luta
eleitoral, buscam, principalmente, o fortalecimento da democracia.
Candidato
Lott, pediu-me o Dr. Assis Chateaubriand, que é homem de
partido, que o saudasse como a um hóspede de “O
Cruzeiro”.
Chateaubriand queria, assim, demonstrar sua fidelidade partidária
e, ao mesmo tempo, pôr à prova a minha disciplina
associada e a minha imparcialidade de jornalista. Êle sempre
adorou essas terríveis experiências humanas.
- Mas, meu
Capitão - disse-lhe eu, ontem, à noite - , não
sou homem para discursos.
Êle me respondeu:
-Nem o Lott também.
E ACRESCENTOU,
depois:
- Vocês terão um duelo equilibrado. Enquanto Lott
faz a história com a sua espada de gendarme da ordem, você
a escreve com a indisciplina que é filha natural da liberdade.
Sei que nenhum dos dois é Cícero. Mas ambos podem
fazer discursos apenas para serem publicados.
ACONTECE,
Senhor Teixeira Lott, que, se é verdade que o não
desejo julgar como candidato, em respeito à neutralidade
que aquêle que faz a notícia deve guardar, principalmente
quando está oferecendo um banquete a essa notícia,
eu o posso julgar como homem, como cidadão e como seu contemporâneo.
CANDIDATO
Lott, o seu antigo camarada Canrobert, quando cogitaram também
do seu nome para um pleito presidencial, dizia que um civil pode
ser, muitas vêzes, legítimo candidato militar e um
militar, outras vêzes, é apenas um candidato civil.
Desejo deixar, aqui, o meu testamento da linha imparcial que o
senhor conservou no seu tempo de chefe do Exército, linha
essa que o seu sucessor, Marechal Denys, manteve inalterável.
O EXÉRCITO
não apenas se afastou das lutas políticas, mas possibilitou
o livre exercício da democracia, através do debate.
Isto fêz com que o Brasil se tornasse mais adulto, mais
nação e nós, mais brasileiros.
O EXÉRCITO
permitiu que o diálogo de hoje sucedesse ao monólogo
de ontem. Hão de dizer que, se o General Lott tivesse cedido
à ambição usurpadora, chocar-se-ia contra
o obstáculo intransponível dos seus comandados.
OS céticos
hão de dizer que o General Lott recusou um cetro que não
estava a seu alcance, porque o amor da liberdade e da pátria
empolgava o Exército Brasileiro, que se transformou completamente,
que já não era daqueles Exércitos Políticos
de baionetas voltadas para dentro das próprias fronteiras.
HÃO
de dizer que o mérito do General Lott foi o de recusar
o impossível, numa hora grave da nacionalidade. Mas - aqui
fala o repórter de fatos - o impossível não
era tão impossível assim. Havia uma dualidade de
interpretações, tôdas elas rotuladas de democráticas.
Maioria absoluta, eleição indireta etc. Bastaria
a omissão do Exército para que da dúvida
se passasse à ação. O Exército do
General Lott, entretanto, considerou aquela luta civil como essencial
à legalidade e não se ausentou. Manteve o texto
da Lei. Garantiu a posse do eleito.
HÃO
de dizer que, afastando a coroa da sua cabeça, num instante
em que tinha ao alcance das suas mãos as liberdades do
País e poderia, talvez, improvisar-se em ditador do mais
legítimo sombrero latino-americano, o então General
Lott fazia conjeturas, alimentava esperanças, acariciava
sonhos e, neste sentido, preservava as liberdades democráticas
de que iria utilizar-se depois para eleger-se como governante
autêntico. Pensar nisso seria atribuir dons proféticos
a alguém que, na infantaria política, sempre caminhou
sôbre realidades às vêzes duras demais até
para um infante de profissão.
O HOMEM que
garantiu a aplicação da Lei, hoje se beneficia do
direito de ser candidato. O Marechal do Exército é
apenas o soldado raso do voto.
SABE que não
corre sòzinho no pleito democrático, êle que
o poderia ter feito isolado, na solução ditatorial.
SABE que as
chances de vitória são iguais, na insondabilidade
das urnas, no mistério do pleito, iguais às possibilidades
dos outros.
A HOMENAGEM
que presto ao cidadão Teixeira Lott é a de ter aceito
a loteria do voto, a contingência eleitoral, talvez por
estar certo, como todos nós, liberais democratas, que um
govêrno sem contrários, um candidato sem concorrentes,
seria o mesmo que um atleta disputando uma prova sem adversários,
correndo sòzinho na arena, sem que a sua vitória
pudesse ser valorizada pela emulação, engrandecida
pelo maior esfôrço, estimulada pela competição.
O MARECHAL
Lott despiu o seu velho dólmã, tirou as suas platinas,
pôs um boné na cabeça, enrolou um xale no
pescoço e veio molhar-se na chuva brasileira, veio disputar
a vitória legítima, veio cair do palanque, veio
fortalecer a democracia.
SE perder,
saberá, como bom desportista, que o que mais valoriza o
homem não é a vitória, mas a luta. Em nome
do Senhor Assis Chateaubriand, desejo render a minha homenagem
ao Marechal que compreendeu, num momento feliz desta Nação,
que a energia é coisa completamente diversa da violência.
Preferiu não ser um militar violento e ser um candidato
enérgico. Êste é o juízo que faço
de Teixeira Lott como homem. O juízo que vocês fazem
dêle como candidato é assunto que só poderá
ser decidido fora daqui, num momento em que o homem se torna mais
sòzinho do que nunca ante uma decisão. Em frente
à urna.
SEJA como
fôr, seja quem fôr o eleito, nunca o Brasil presenciou
uma festa democrática tão fascinante, um tal espetáculo
de maturidade política. A presença do cidadão
Teixeira Lott no proscênio, como vencedor ou vencido, é
uma garantia de um fim feliz para a democracia.
VITORIOSO,
êle saberá, todos nós estamos certos, conservar
intacta a pureza dessa hóstia política, que é
o voto, da qual emana o culto democrático.
VENCIDO, a
sua atitude, como civil, será a daquele mesmo militar que
se curvou noutros tempos à decisão soberana da Lei.
O EMBAIXADOR
Assis Chateaubriand me pediu que, ao saudá-lo como hóspede
desta casa, como a um dos cidadãos cuja presença
engrandece qualquer pleito, fizesse, aqui, algo que fôsse
assim como a profissão de fé dos Diários
Associados. Algo que pudesse falar de nossas lutas pelo direito
de cada um e pela dignidade de todos os sêres humanos, ameaçados
pelas doutrinas de opressão e de aniquilamento dos valores
morais políticos e econômicos.
ÊLE
me pediu que lhe dissesse, francamente, que acredita que o eleito
não o será com promessas atribuídas ao candidato,
se essas promessas afetam as nossas tradições e
põem em perigo os nossos destinos.
ÊLE
sabe que a mesma espada, cuja lâmina afiada ajudou a manter
a legalidade, garantirá o regime contra as interferências
que procurem afastar-nos do destino americano. Sabe que estamos
voando em uma avião continental e que voamos juntos ou
caímos juntos.
ÊLE
sabe que o Senhor Teixeira Lott é, acima de tudo, um cristão,
um católico, e que, de acôrdo com as Escrituras,
a Igreja tem ensinado a doutrina do direito natural, na idéia
básica de que a lei justa deve corresponder ao justo direito
de todos, uma vez que os indivíduos são titulares
de direitos morais. Abdicar dêsses direitos não seria
apenas pôr em risco a segurança nacional, mas a própria
unidade da espécie humana. A palavra de ordem é
manter a unidade continental a todo custo. As veteranas legiões
romanas só eram invencíveis diante do valor indisciplinado
das outras nações. Em nossos meridianos políticos,
as fraturas partidárias, as dissensões internas,
os desentendimentos continentais abrirão caminho fácil
aos romanos de hoje, que, em vez de civilização,
trazem a destruição de tôdas as liberdades
essenciais.
“A
ONDE vais tu, esbelto infante?”
Cidadão Lott, há uma constante tão singular
na sua vida que vale mais do que a aparência dêsses
estranhos frutos híbridos das maquinações
políticas. Não importa saber com quem o Senhor esteja
hoje nem quem estará ao seu lado amanhã, se eleito.
Estamos certos de que não poderá estar contra o
Brasil, êste País que a sua espada não permitiu,
um dia, que fôsse transformado numa hospedaria de políticos
fracassados, dêsses que só encontram na tirania militar
a derradeira possibilidade de, por tabela, se conservarem no poder.
SEJA bem-vindo
a esta casa, que é uma estalagem nacional, onde o arroz
e o feijão diários são substituídos,
esporàdicamente, nestes banquetes políticos, pelo
caviar e pela vodka, apenas para lembrar aos candidatos que estas
são as comidas e as bebidas que os oprimidos exportam,
mas não comem nem bebem, porque é com os produtos
destas divisas que êles nos pretendem comer e nos beber,
suculentamente.
TEMOS a certeza,
Senhor Teixeira Lott, que o Brasil jamais poderá resgatar
a dívida de gratidão que contraiu com o Senhor,
no dia em que, castigando a natureza, se tornou candidato. A sua
mesma natureza, que não é autoflagelante, assegura
o princípio, o meio e o fim da eleição de
3 de outubro. Mas, acima de tudo, assegura que haverá um
vencedor. Para que não saia vencida esta Pátria
que o Senhor como soldado, como marechal e como candidato está
ajudando a se transformar em uma nação.