Primeira
Dama vai ganhar novo nome
Reportagem
de EURILO DUARTE
UM
homem se despede do povo. É Juscelino Kubitschek de Oliveira.
A 3
de outubro, quando quase 15 milhões de brasileiros escolhem
o novo Presidente, êle começa a arrumar as malas
para deixar o Govêrno. Ao seu lado está uma mulher.
É Dona Sarah Kubitschek. Sua figura feminina - que se tornou
popular com a instituição das Pioneiras Sociais
- vai ser substituída por outra Primeira Dama. Quem será?
Dona Leonor. Dona Eloá. Dona Antonieta. Três nomes.
Três hipóteses. Cada uma delas representa uma possibilidade.
Mas sòmente uma delas irá ao pôsto até
agora ocupado por Dona Sarah. Seus maridos, candidatos, apresentaram
programas de Govêrno. E elas, como Primeiras Damas em potencial,
também têm suas idéias, seus planos, suas
decisões. “O
Cruzeiro”
conversou com Dona Leonor, Dona Eloá e Dona Antonieta.
Ouviu parentes. Ouviu amigos. Sabe o que cada uma pensa da assistência
social. Como entendem a atuação da mulher na vida
do País. E, sobretudo, como agem elas na vida do lar. O
leitor, que soube escolher seu Presidente, pode saber agora qual
a Primeira Dama que vai ter. Quem é o que faz, dentro e
fora do lar.
Dona Leonor não gosta de gatos
DONA
Leonor é dinâmica. Fundou e preside a Bandeira Paulista
Contra a Tuberculose. Promoveu inúmeras campanhas para
construção de hospitais e maternidades. É
contra o “feminismo
exaltado”,
admitindo que a mulher trabalhe fora do lar sòmente para
manutenção da família. Acha que a burocracia
é o grande inimigo na assistência social. “Às
vêzes uma mãe precisa de leite para matar a fome
de um filho, mas quando o leite chega a fome já matou a
criança.”
Conservadora nas instalações da casa (construção
antiga onde reside há 25 anos), todos os seus móveis
são de linhas clássicas, grande parte em jacarandá
entalhado. As paredes são ornamentadas com pinturas acadêmicas,
contra um fundo em tonalidade pérola. Não pretende
deixar a velha casa, coisa que só fará obrigada
pela “invasão”
dos apartamentos que começam a subir a Rua Albuquerque
Lins, cidade de São Paulo. Gosta de bichos, menos de gatos
- “que
parecem certos políticos: são infiéis, falsos,
aduladores só quando lhes convém”.
Em casa há dois cachorros, Pingo e Roy. Quatro papagaios,
duas araras, nove canários. Dona Leonor tem quatro filhos,
dois homens e duas mulheres, e doze netos que a visitam diàriamente.
Dispõe de um pequeno contingente de empregadas domésticas,
ativas e inativas. A mais velha, chamada Maria, foi cozinheira
durante 25 anos. Agora ganhou "aposentadoria", mas ainda
círcula na casa com os seus 70 anos. É Tuta para
todos da família. A governanta, portuguêsa Patrocínia,
trabalha com os Barros há 23 anos. Dona Leonor gosta de
acompanhar pessoalmente o preparo da comida e suas visitas à
cozinha não são surprêsa. Não suporta
coquetéis e raramente faz refeições na sala
de jantar: prefere uma pequena sala de almôço. Dona
Paulina, sua secretária, recebe muitos convites para Dona
Leonor comparecer a recepções. Quase sempre são
recusados. Tôdas as manhãs ela visita alguns hospitais
e, à tarde, invariàvelmente, vai ver a mãe,
Dona Elisa de Moraes Mendes, que conta 93 anos de idade. O problema
da favela a preocupa e está empolgada com o livro escrito
pela favelada Carolina de Jesus. Às vêzes acompanha
Adhemar em suas excursões políticas, que encara
como missão em prol dos humildes.
Dona Eloá quer o fim das favelas
DONA
Eloá acompanha Jânio Quadros em quase tôdas
as viagens. Mas só faz vida social quando imposta pelos
compromissos do marido. Orienta em pessoa os estudos da filha,
Dirce Maria, no quarto ano ginasial do Colégio Sion paulista,
onde também estudou. Foi Jânio quem pôs na
filha o apelido de Tutu, prato preferido por êle. Dona Eloá
se declara interessada pela assistência social e pelas entidades
públicas ou particulares que a promovem. Acredita que a
Legião Brasileira de Assistência, depois de moralizada,
pode prestar grandes serviços à mãe e à
criança desamparadas. O SAM, do Ministério da Justiça,
é outra instituição que, no seu entender,
deve ser recuperada. Vê com bons olhos a ação
das Pioneiras Sociais, de Dona Sarah Kubitschek, pretendendo manter
e ampliar seu raio de ação, se chegar a Primeira
Dama. As favelas e os mocambos, pragas semelhantes, devem ser
exterminadas. Construção de vilas para o operariado
é providência que tem prioridade, em seus planos,
bem como no programa do marido, com o aproveitamento dos recursos
da Previdência Social e da Fundação da Casa
Popular. É contra arranha-céus e edifícios
de apartamentos. Em Brasília, Fortaleza, Belém,
João Pessoa, Recife, Rio, São Paulo, Pôrto
Alegre e Belo Horizonte, planeja intensificar o combate à
mortalidade infantil, atualmente com índices desanimadores.
Está apavorada com o abandono da criança no Norte
e Nordeste, quadro não muito diferente do que viu em Minas,
Goiás e Mato Grosso. É apontada como possuidora
de hábitos simples e modestos. Não gosta de luxar.
Muitos dos seus vestidos e da filha são feitos em casa,
por suas mãos. Faz tricô muito bem. Vai a teatro
e cinema, tendo predileção pelo teatro nacional.
Fala com todos, indistintamente. É considerada uma das
audiências mais fáceis de São Paulo. E reconhecem-na
como uma das maiores fôrças políticas da Capital
paulista, notadamente nos bairros operários, embora não
se interesse por qualquer partido nem por qualquer cargo eletivo.
E nos comícios de Jânio, ela se tornou figura freqüente.
Dona
Antonieta perde a matinê
Sítio
é uma tranqüila localidade mineira. Lá nasceu
o Marechal Lott. Lá nasceu também Dona Antonieta,
a espôsa. São primos, ela sobrinha e afilhada da
mãe dele, Dona Batistina. Brincaram juntos, cresceram juntos,
mas Dona Antonieta, muito jovem, casou com Antônio José
Zeferino do Amarante Neto, outro primo. E ainda jovem também
ficou viúva, com um filho. Veio para o Rio e começou
a ensinar crianças, como professôra da Prefeitura
do antigo Distrito Federal. Com êsse dinheiro, parco, educou
o filho e sustentou o pai doente, Senhor Eudoro Lasthenes de Andrade.
Deu aulas na Escola Equador, Vila Isabel, até 1946, quando
se aposentou. Lott casara e também ficara viúvo.
No dia 31 de julho de 1952, as portas da matriz de Teresópolis
abriam-se para receber um casal maduro, mas sorridente: o então
General Lott e sua prima, que, em solteira, tinha pràticamente
o mesmo nome de hoje - Antonieta Duffles Teixeira de Andrade.
Ela e êle gostava muito de dinema. Tôdas as quintas
e sábados, de 2 às 4, estavam na matinê do
“miramar”,
no Leblon. Metòdicamente. Essa alegria acabou quando Lott
asumiu o Ministério da Guerra, em 1954. Nunca mais houve
matinê no “Miramar”.
Agora, o ponto de contato eraa música clássica.
Em seu gabinete, o Marechal mantinha o rádio ligado para
a “Roquete
Pinto”.
À noite, em casa, a família se reunia (êle
tem 6 filhos do primeiro casamento) para ouvir uma dupla ao piano:
Lott e Dona Antonieta. Até hoje tocam a quatro mãos,
tendo sido aumentada a assistência com três netos.
E rezam juntos depois de cada jantar. Em alguns serões,
Lott lê e Dona Antonieta costuraa o seu lado. É ela
quem conserta as meias dos netos. Quem fêz a renda de Irlanda
para o casamento do filho, Major Duffles. A nora, Dona Nally,
é sobrinha dela. Os Duffles casam na família. E
muitas blusas distribuídas pelas Pioneiras Sociais saíram
das mãos habilidosas de Dona Antonieta, que também
é admirável cozinheira, mestre em quibebe de abóbora,
couve à mineira e quitutes tradicionais. Prefere as cores
sóbrias e não transige em questões de moral.
Odeia a política. Não compareceu a um só
comício do marido. “Se
tiver de exercer atividades de Primeira Dama, será à
minha revelia, porque prefiro a vida de casa”,
confessa com sinceridade.