Jânio
falou para o continente na tribuna de “O Cruzeiro”
Reportagem
de BADARÓ BRAGA, RUBENS AMÉRICO e WALTER LUIZ
“PARA
saber o que vai no coração e na mente do candidato”
- conforme frisou em sua saudação o jornalista Theophilo
de Andrade -, “O
Cruzeiro”
homenageou com um almôço o Sr. Jânio Quadros,
candidato das fôrças oposicionistas ao Govêrno
da República. Quis a direção da Revista,
que tem influência marcante na orientação
do pensamento político nacional, como “tribuna
que permite falar e ser ouvido em todo o Continente”
(a expressão é do Sr. Jânio Quadros), ouvir
idéias e planos do ex-Governador de São Paulo, que
círculos abalizados da opinião pública consideram
o virtual sucessor do Sr. Juscelino Kubitscheck. E pretendeu mais.
Pretendeu dar cobertura e ressonância nacionais ao debate
dos grandes problemas brasileiros. Com meia hora de atraso e uma
biografia de Bolívar debaixo do braço, o Sr. Jânio
Quadros chegou ao Salão Nobre, onde o receberam, em nome
de “O
Cruzeiro”,
o Sr. e Sra. Leão Gondim de Oliveira. Acompanhado dos Srs.
Magalhães Pinto, Milton Campos, Carlos Lacerda, Paulo Marzagão,
José Aparecido de Oliveira e outras figuras de expressão
da vida política, o Sr. Jânio Quadros distribuiu
autógrafos e falou da personalidade do Embaixador Assis
Chateaubriand, antes de pronunciar seu magistral discurso - unânimemente
considerado o mais belo de tôda a campanha - , que vai publicado
integralmente nas páginas seguintes. É um discurso
que o Brasil deve ler em voz alta, como profisssão de fé
em seu destino glorioso.
“ESTA
é a tribuna, no País, que permite ao candidato das
Oposições à Presidência da República,
falar e ser ouvido em todo o Continente.
Falo no "O
CRUZEIRO INTERNACIONAL". Venho para mais um pronunciamento,
um dos últimos nesta áspera campanha, que se reveste
da solene autoridade dêste plenário.
As graves
responsabilidades da candidatura, acrescidas, hoje, do prenúncio
da vitória, impõem-me afirmações necessárias
ao julgamento da opinião brasileira e do Continente.
Por formação
e por tendência, sou alguém que, ao longo da sua
vida política, jamais escondeu ou disfarçou o pensamento
no que tange às coisas do interêsse público.
Tenho desgostado
a alguns e contrariado a não poucos. Faço-o insatisfeito
por vêzes, das insatisfações que provoco,
mas recolhendo, no extremado culto da verdade, a certeza de não
enganar os que me interpelam, a segurança de não
ludibriar o Povo.
Semelhante
norma de conduta submete-me, amiúde, a querelas doutrinárias,
fàcilmente arredáveis ou postergáveis.
Acho melhor,
porém, aceitar essas frições a ministrar,
do meu espírito, imagem refrangida pelo propósito
de seduzir.
Ao falso,
prefiro o genuíno, ainda que áspero. Ao polido,
o exato. Ao fôsco, a crua luz do sol.
Apesar desta
atitude uniforme, dura regra, todavia sem exceções,
murmura-se à minha volta, graduada pela perfilhação
dos meus opositores, a acusação de que me conservo
sagaz e prudente, indefinido diante dos mais graves problemas
da política interna e externa do Brasil.
Ser-me-ia
lícito, quiçá, passar ao largo da atoarda.
Ignorá-la por pêca. Desdenhá-la, por inconsistente.
Neste derradeiro
ano, fui inquirido por centenas de jornalistas nacionais e estrangeiros,
através do rádio, do cinema, da televisão
e da imprensa. Respondi a resmas de questionários, os quais
se estendiam, de intrincadas questões filosóficas,
econômicas e financeiras, até aos meus hábitos
pessoais.
Proferi centenas
de discursos em universidades, sindicatos, associações
de classe, ruas e praças.
Após
o têrmo da terrível maratona física e intelectual
desta campanha, queixa-se quem de mim nada espera, de que não
andei por todos os caminhos que convinha palmilhar.
Vamos, pois,
a êles.
Os temas
agradam-me.
POLÍTICA
INTERNA
Não
foi inadvertidamente que disputei uma cadeira de deputado federal,
pelo meu Paraná, sob a legenda do Partido Trabalhista Brasileiro.
Fi-lo, ciente
da implicação ideológica, inclusa no gesto.
Estou convencido de que a era do liberalismo econômico jaz
sepulta nas cinzas da Primeira Guerra Mundial dêste século.
O aprimoramento técnico da indústria, a mecanização
da agricultura, o processo de acúmulo e de concentração
de capitais criaram, para as nações, a necessidade
de interferir, no setor econômico, orientando, ordenando,
contendo e harmonizando interêsses que se fizeram conflitantes.
A extensão
do extermínio de 1914, mobilizando imensas massas humanas,
nos vários continentes, para um sacrifício simultâneamente
estúpido e heróico, deu-lhes, com a consciência
da precaridade da vida, a noção, sempre mais arraigada,
de que todos têm direito aos benefícios da civilização
e do progresso.
Às
reivindicações individuais e de classe correspondeu,
para o Estado, a contingência de eliminar ou de arbitrar
os atritos. A revolução industrial de nossa época,
gerando riquezas em ritmo alucinante, completou os têrmos
da equação sócio-econômica que demanda
desdobramento e solução.
Capital é
trabalho acumulado. Quem o acumula, entretanto, não é
o trabalhador. Não o desfruta, pois, quem precìpuamente
o cria.
Tenho, de
igual passo, afirmado, reiteradamente, que sou favorável
à livre iniciativa, com as restrições impostas
pela segurança da Nação e pelo interêsse
social.
Reitero e
ratifico a minha fidelidade a êsses princípios.
Não
sou liberal, nem sou marxista.
A terminologia
política a que muitos continuam apegados, na velha Europa,
não tem mais o sentido lógico que assumiu em certa
fase da história das idéias. Os conceitos que alicerçaram
esquerda e direita, na fase que culminou com o embate entre fascismo
e bolchevismo, mudaram de natureza, em conseqüência
da Segunda Guerra Mundial e da explosiva evolução
que se opera em nossos dias, e que também a nós
nos abarca.
De um lado,
vemos tradicionais partidos socialistas da Inglaterra e da Alemanha,
revendo postulados fundamentais de seus programas, mas de outro
lado, assistimos - sem que os preceda um ideário nítido
- a saltos sociais da envergadura dos operados no Egito, na Índia,
em Cuba, na África.
A mentalidade
política se refaz ao empurrão dos acontecimentos,
e dêstes deverá resultar uma nova definição
para velhos problemas.
Nem mesmo
as supostas “cortinas”
separam homens e não-homens, e a impossibilidade de uma
direção monolítica para os povos se evidencia
na rebelião iugoslava, na insurreição húngara,
na afirmação de independência da Polônia,
no atrito entre a China e a União Soviética, com
o corolário das crises que proliferam nas organizações
partidárias internacionais que se inspiram no exemplo dêsses
países.
Sou democrata,
adepto do sistema representativo, da interdependência do
podêres, de eleições secretas e livres, dos
mandatos a prazo determinado, dos intangíveis direitos
individuais, da liberdade de pensamento. E me confesso cristão,
católico apostólico romano.
Para mim,
a ordem social sobrepõe-se à ordem econômica;
para mim, o homem é a primeira e principal afirmação
da sociedade.
Não
acredito em ditaduras.
As exercidas
em nome de uma classe, traem-lhe as prerrogativas mais elementares.
Negam-lhe a liberdade de trabalho. Destroem-lhe os sindicatos.
Proíbem-lhe a luta pelo acesso legítimo. Convertem
em crime o que é de direito. Cerceiam a livre expressão
do pensamento. Suprimem as assembléias. Desmancham a família.
Subtraem, ao convívio humano, o calor da amizade e a ternura
da confiança.
As ditaduras
exercitadas a pretexto de interêsse nacional cometem as
mesmas ferocidades, incidem em violências idênticas.
Abomino o
terror em que ambas se esteiam, o dogmatismo que as informa, a
cruel inumanidade em que se comprazem.
Atenho-me,
como candidato à Presidência da República,
nesta época de transição de que participamos,
a normas gerais enquadradas nas experiências que outros
povos realizam, e que se situam sob o signo do humanismo.
Povo jovem
e dinâmico, com direito a aspirar a uma posição
de relevo no mundo moderno, não podemos deixar de simpatizar
com os outros povos que se encontram em posição
próxima da nossa, e que lutam pela própria independência
e pelo progresso social.
Não
sou o único a não ter, hoje, um rótulo estritamente
ortodoxo para a posição em que me situo.
O Século
XX tem sido um crematório implacável de filosofias
políticas, e é preciso, para que encontremos o justo
caminho, que, servidos por mente arejada, animados de ideais amplos
e generosos, guiados por espírito de luta e afirmação,
dispostos a encarnar a soberania da Nação, ávidos
de liberdade e só entendendo a política em função
do amor ao povo - não nos metamos, por vontade própria,
em prisões que por tôda a parte estão sendo
arrebentadas.
Presidente
da República, não saberia, em nenhuma hipótese,
envidar os destinos da Pátria, em fórmulas obsoletas
ou em experiências perigosas.
A prudente
atitude de Alberto Pasqualini, diante dos interêsses contraditórios
que o Estado precisa compor, se me afigura do melhor alvitre,
nesta vertente da história.
O aparente
ecletismo desta posição não resulta de vontade
minha, mas de conjuntura internacional. Ela tem como objetivo
primeiro o resguardo dos mais legítimos interêsses
de nossa comunidade, que deve participar e beneficiar-se da mutação
que se opera na face do mundo, sem desnecessàriamente isolar-se
ou perder-se por descaminhos que a nada conduzem.
Neste particular,
louvo a sabedoria do legislador constituinte.
Aliás,
outras tarefas, mais imperativamente imediatas, reclamam a atenção
do homem público brasileiro.
Precisamos
arrancar esta Nação, sem perda de tempo, do atoleiro
do subdesenvolvimento que lhe entrava o progresso.
DESENVOLVIMENTO
A
geração contemporânea coube a indeclinável
incumbência de remover barreiras.
Êste
é o instante em que o Brasil precisa firmar-se definitivamente,
como nação e como cultura, no mundo ocidental.
O papel que
nos está reservado na América cresce de importância
cada dia, diante da paisagem política que se conturba nas
lindes continentais.
O Brasil
não deve mentir à esperança de outros povos.
Mas, via de conseqüência, não pode mentir à
esperança de seus próprios filhos. Não recuaremos,
porque chegamos até aqui. Não recuaremos, porque
estamos dispostos a todos os sacrifícios para atingir o
completo desdobramento da potencialidade do nosso solo e subsolo
e da capacidade da nossa gente.
As dificuldades
naturais de desbravamento de um país de porte gigantesco
como o nosso, só podem ser superadas mediante a aplicação
sistemática dos seus recursos, em obediência a uma
hierarquia de prioridades. A ausência da Administração
nos problemas da educação e da saúde, agravando,
criminosamente, a grande chaga da nossa atualidade, realizou,
também, um dos maiores escândalos dos nossos dias.
Ao Govêrno
não lhe será lícito, a qualquer título,
ainda que sonoro ou pomposo, procrastinar o atendimento das necessidades
basilares de saúde, educação e cultura.
A Federação
deverá constituir uma expressão vigorosa e harmônica
no seu conjunto, elidindo-se as fundas arritmias de seu crescimento.
É
imperioso renivelar vastas áreas demográficas do
País em que o poder aquisitivo é semi-asiático
e o padrão de vida, por conseqüência, jaz em
escalões que não se ajustam à dignidade humana.
A fome, o analfabetismo e as endemias estão ainda presentes,
em várias regiões, corroendo a fibra da raça.
A tomada
de consciência dêstes problemas, pela opinião
pública, representa um passo que se dá na solução
dêles. Sabemos o que somos e sabemos o que queremos ser.
Com êste
propósito a incandescer o nosso entusiasmo e a redobrar
as nossas fôrças. Implantaremos a moralidade administrativa.
Sanearemos a moeda. Equilibraremos o orçamento público,
proscrevendo os gastos supérfluos ou adiáveis. Conteremos
a inflação que corrompe os costumes e flagela os
humildes em benefício de poderosos.
Daremos à
agricultura e à pecuária, que tudo nos têm
dado para ser o que somos, tratamento generoso de assistência
técnica e financeira, a fim de que prossigam com vigor
renovado na marcha do nosso enriquecimento.
Para a indústria
em geral e, sobretudo, a indústria de base para o comércio
interno e o de exportação, alinharemos todos os
estímulos de que carecem, na sua missão fecunda
de produzir e distribuir riquezas.
Aos trabalhadores,
além da aposentadoria e assistência médico-hospitalar
dos Institutos, tornadas efetivas, além das vantagens de
uma previdência social escoimada de compadrio, de filhotismo,
de corrução, tranqüilidade mediante a garantia
de salários hábeis a mantê-los, e a suas famílias,
em padrões crescentes de bem-estar, participando da evolução
do País.
As tarefas
de soerguimento econômico, de saneamento financeiro, de
recuperação do homem, de expansão industrial,
de amparo à agricultura, de revisão dos transportes,
de desenvolvimento das fontes de energia, o cumprimento, em suma,
das diretrizes de govêrno, anunciadas em Recife, nos mobilizarão,
de imediato.
POLÍTICA
EXTERNA
Emprestaremos
desusado relêvo ao comércio internacional, abrindo
as portas do Brasil para o mundo, numa afirmação
categórica de que somos um povo livre.
Povo livre,
que, livre de mêdo, conduz o seu destino.
Cumpriremos,
agora, a decisão do Príncipe Regente, baixada desde
28 de janeiro de 1808.
A Nação,
entretanto, tem deveres para com a América.
O momento
é oportuno para que se fique sabendo o que proponho e o
que pretendo para as nossas relações com os demais
povos americanos. Já o afirmei, solenemente. Repito-o,
agora, mais uma vez.
Julgo não
haver outro instrumento de ação política,
no âmbito continental, senão a Organização
dos Estados Americanos. Aí, e só aí, devem
ser solucionadas as eventuais controvérsias entre nações
irmãs.
O Tratado
Interamericano de Assistência Recíproca, a Carta
da Organização dos Estados Americanos e o Pacto
das Soluções Pacíficas de Bogotá conformam
o nosso sistema de segurança coletiva, consagrado pela
Carta das Nações Unidas. Se avançamos na
estruturação político-jurídica do
Continente, resta ainda um campo enorme a conquistar: o da nossa
expansão econômica. Só ela libertará
os povos latino-americanos da miséria, conseqüência
do dramático problema do subdesenvolvimento. A êste
respeito não pode haver contemporizações.
A América Latina tem pressa, e tem consciência de
sua fôrça.
Pretendo,
pois, apoiar a Operação Pan-Americana, que visa
a integração econômica, cultural e política
de nossas Pátrias em um quadro de planejamento harmonioso
de execução possível em breve prazo.
É
evidente que nossos esforços resultarão improfícuos,
se não contarmos com a cooperação e compreensão
dos nossos irmãos do Norte, por vêzes imperfeitamente
esclarecidos sôbre a necessidade imperiosa, incontornável
de eliminação de tantas áreas de pobreza.
Concorre,
para isso, talvez, a concepção unilateral de que
só ao capital privado compete papel básico na luta
em prol do futuro latino-americano.
Tal não
se dá.
O desenvolvimento
destas questões demanda a cooperação de Estado
a Estado. Exige-a. Não é outra a causa de a Operação
Pan-Americana alicerçar-se numa política global
do hemisfério. Os esquemas de ajuda dos Estados Unidos
remanescerão ineficazes, se não forem substituídos
os princípios que os norteiam.
Daí
as crises periódicas que afetam o Continente.
A reunião
de Bogotá, neste particular, teve os contornos e as meias
tintas promissoras de uma aurora inesperada. Nela, falamos a linguagem
franca e cordial dos que, efetivamente, se querem entender. Aguardemos,
contudo, antes de mais largos entusiasmos, os seus resultados
práticos.
Nação
independente, soberana, o Brasil prescinde da liderança
internacional de qualquer potência. Sabe onde estão
os seus direitos e os seus interêsses. Não os aliena.
Não os sub-roga.
Mas, e por
igual, fiel às suas tradições, aos seus compromissos,
é avalista determinado e espontâneo da intangibilidade
do Continente. Aqui, ninguém interferirá.
Não
há lugar, na América, para o exercício de
curatelas européias ou asiáticas, a nenhum título.
Sempre soubemos,
nesta comunidade de Nações livres, solucionar as
pendências emergentes, diria inevitáveis, sem que
tais desacordos justificassem malignas intervenções
extracontinentais.
Não
as concebo, nem as tolero. Insisto, entretanto, em que a melhor,
quiçá a única maneira de exorcizarmos os
fantasmas que rondam o Continente, está na imediata efetivação
da OPA.
Povos econômicamente
desenvolvidos, libertos da miséria e do mêdo, aptos
a se realizarem, não temem, e por isto mesmo, não
agridem.
Tarda, por
outro lado, que fortaleçamos as nossas relações
comerciais, para não falarmos nas culturais, com os países
da Europa e da Ásia.
Temos caminhado
para trás, nos nossos processos de intercâmbio e
de trocas, suplantados até pelo atilamento e pela tenacidade
de diplomacias mais bisonhas, embora mais resolutas do que a nossa.
O mundo africano,
hoje desperto, ao qual venho aludindo insistentemente, desde os
pródromos desta campanha, reclama, por sua vez, a nossa
atenção devotada.
Não
me alongarei sôbre tema, tão amiúde por mim
ventilado. Deploro que os fatos estejam confirmando os meus vaticínios.
Continuo, de resto, a acreditar que o Brasil é o mediador
melhor qualificado para as jovens democracias africanas.
Meus Senhores.
Dez dias
nos separam da eleição do futuro Presidente da República.
Tenho consciência
de que conduzi a campanha, como me propusera, num plano de rigorosa
elevação.
Assim procedendo,
não fiz favor. Cumpri, apenas, a minha obrigação
tal como a entendo.
Seria insincero,
se não lhes confessasse o quanto me custou, por vêzes,
impor silêncio ao ímpeto de revide, de repulsa à
ofensa não provocada.
Logrei fazê-lo.
Os pleitos
devem aprimorar a prática do regime. E um povo não
se educa com espetáculo deprimente e desprimoroso da permuta
de injúrias entre os postulantes à primeira magistratura
da Nação.
Não
quero vencer nas urnas porque os meus competidores sejam ineptos
ou indignos. Quero vencer, sim, mas se o povo julgar que o meu
passado de administrador me habilita ao exercício do mandato
maior. Quero vencer, sim, mas se o povo achar que as soluções
por mim preconizadas, para os problemas nacionais, sobrelevam
as dos outros candidatos. Quero vencer, sim, mas por fôrça
dos valores positivos. Nunca, pela dos negativos.
Esta Nação
não precisa propor-se moratória moral, concordata
política, falência de qualquer ordem ou natureza.
É uma grande Nação, tão afortunada
nas suas riquezas morais, quanto no inesgotável patrimônio
ético-espiritual da sua gente.
Fui injuriado,
difamado e caluniado, nestes últimos meses. Sei que isto
é da mecânica das democracias.
Deploro que
não tenham sabido respeitar a honra do cidadão,
as fronteiras sagradas do meu lar. É contingência
a que se sujeitam todos os candidatos, na medida da educação
política dos adversários.
Não
a maldigo. Mal próprio do regime democrático, só
é possível no amplo quadro das liberdades democráticas.
Por mais amargos que sejam os percalços dêste regime,
eu o prefiro, tão entranhadamente quanto possível
ao cérebro e ao coração do homem, a qualquer
outro já experimentado.
As amarguras
pessoais, entretanto, estou certo de que não se depositarão,
como ressaibos perenes, ao têrmo da porfia eleitoral. A
alma sempre se refaz dos agravos que não merece.
Às
vésperas do pleito, resta-me uma última energia
para estas palavras a todo o País.
Confio em
que o clima de garantias e respeito às liberdades não
sofra atentados. A opinião pública já não
os toleraria. Pelos seus órgãos de expressão,
ela está vigilante.
Não
tenho razões para descrer do papel que toca os responsáveis
pela ordem pública. Exprimo, ao mesmo tempo, a minha confiança
nas Fôrças Armadas, conscientes do papel que lhes
compete.
Quero crer
que o povo compareça às urnas sem sombra de ameaça
ao sagrado dever cívico que lhe toca neste momento.
Pela pureza
do rito institucional responderá a Justiça Eleitoral,
que honra os nossos foros de país civilizado.
Sei que,
mais uma vez, a soberania popular, livremente expressa, me convocará,
dentro em pouco, para o exercício de árdua missão.
Estou consciente da responsabilidade do alto mandato que a vontade
da Nação me entregará. Mais uma vez, espero
em Deus que não a decepcionarei.
O que me
preocupa e inquieta, nesta hora undécima dos nossos comícios,
é a audácia, que alguns ousaram, de atirar estados
federados uns contra outros, na caça de sufrágios
fugidios.
Por que fazê-lo?
Por que intrigar
províncias irmãs?
Acaso o milagre
da unidade nacional não é mais importante do que
as nossas modestas personalidades?
Não
quero, porém, converter esta festa que confraterniza a
crítica e a ação numa crítica à
ação dos meus adversários.
As urnas
e o futuro nos julgarão, a êles e a mim.
O que quero,
ao cabo destas singelas confidências, é exortá-los
a acreditar no Brasil e nos brasileiros, recordados de que a Pátria
é eterna e nós, os indivíduos, somos transitórios.
Agradeço
ao “O
CRUZEIRO INTERNCIONAL”
e aos que aqui se encontram a atenção que me dispensaram.
A todos,
o meu muito obrigado.”