Pedro Januário
no ocaso do cangaço
“Só falta matar um”
Reportagem
de WANDERLEY LOPES e WALTER LUIZ
Escondido
no sertão do Ceará, Pedro Januário de Lima
conta a sua história de cangaço nas caatingas do Rio
Grande do Norte.
- Muito cabra da peste já ficou estirado pelas moitas, mas
eu continuo vivo.
Pedro tem vários buracos de bala pelo corpo e um lado da
bochecha atrofiado pelos tiroteios que já enfrentou. Atira
com as duas mãos, tem boa vista e não conversa muito
com ninguém.
- Só termino minha história quando buscar o camarada
que matou meu irmão, no Rio Grande do Norte. Os dias dêle
’tão
contados, graças ao meu São Benedito.
Pedro
Januário soletrava os dez mandamentos para matar. Misturava
o rosário com o gatilho, mas não era um assassino
profissional. Vamos vê-lo aqui, ao longo de sua história
de pólvora e peixeira, na base da fala mansa e fria.
Suas costas parecem até uma cartucheira, de tantas marcas
de bala. No canto direito da bôca uma 38 lhe rasgou parte
da bochecha, até quase a ponta da orelha. Vai mostrando as
cicatrizes e, para cada uma, tem a narrativa matuta de cabra macho.
Era festa no Riacho Fundo, pedaço de sertão conflitado.
Pedro Januário, nos confins de 1940, montado num cavalo fogoso
chegava e apeava de peito pra frente. As cabrochas gostavam do seu
tipo de rei, cabra da peste respeitado.
JAGUNÇO
BOA PINTA
Espichado
numa rêde armada na sala da sua casa, na praça principal
de Limoeiro do Norte, sertão sêco do Ceará,
reafirma:
- Eu nunca dei um passo atrás pra homem nenhum. Se a conversa
fôr de calma, será de calma. Se fôr de bala,
será de bala. De peixeira, tanto faz.
Balançou um pouco até atingir a porta de entrada e
deu uma cusparada para o meio da rua. Coçou o queixo, já
meio ralo, chamou Maria do Socorro, uma das suas cinco filhas, para
esfregar-lhe as costas.
O sol estava de rachar. Eram 2 horas da tarde e êle não
largava o copo. “Acho
bom matar o bicho (beber cachaça), quando me lembro
dos meus tempos de cangaço.”
Pedro Januário de Lima, hoje com 47 anos no costado, nasceu
em São Miguel, Rio Grande do Norte. As andanças pelas
caatingas quase não lhe afetaram a aparência, e sua
estatura, um pouco baixa, de nada implica. É forte, tem boa
vista e atira com as duas mãos.
- Eu já fui buscar cabeça de calango verde a quase
dez metros de distância.
- No tempo da minha mocidade, entre 25 e 28 anos, quando não
pensava em família, em nada, montava meu cavalo, Gato
Prêto, completamente arriado, com um 38 na cintura, cartucheira
de 36 balas, 44 escondido debaixo da sela, e me largava atrás
de um forrobodó, a parada era dura.
Pedro, ao contar, bate as pestanas e torce os dedos num sintoma
de satisfação, relembrando os tempos em que deixou
alguns cabras crivados pelas estradas estorricadas do sertão
do Rio Grande do Norte.
- Em tôda parte que eu ia, a cabrocha mais bonita tinha que
ficar comigo, pois do contrário até ela entrava na
peia. Pelo lado dos homens, duvido que algum inchasse pra mim; só
ficavam espiando. Depois, com pena da rapaziada, comprava uma garrafa
de cachaça e deixava com êles. Agora aqui no Limoeiro,
vivo da minha tranqüilidade, com minha mulher e meus filhos.
DIA
DE VIDA OU MORTE
Para
os lados de Areia Branca, interior do Rio Grande do Norte, quando
Pedro tinha 27 anos, Rosa da Joana, môça bonita das
pernas grossas e cabelos longos, andava meio apaixonada pelo “Rei
da Capoeiras”,
como era conhecido. Com aquela arrogância de cabra macho,
cismou um dia e anunciou que ia carregar Rosa, de qualquer jeito.
Gato Prêto estava amarrado debaixo de um pé
de oiticica, onde Pedro costumava deixar os bilhetes para a Rosinha.
Não pensou duas vêzes. Vestiu a calça de linho
branco e uma camisa azul clara de chitão. O chapéu
de abas largas não podia faltar. O cigarro BB estava
no bôlso, do lado esquerdo.
A tarde morria lá para as quebradas do Dendé. Rodava
o tambor do seu 38. Roubar Rosa da Joana seria a missão.
Ela tinha um cabra doidinho por seu coração. Pedro
Januário não gostava nem de ouvir falar nisso. Era
um dia de vida ou morte. Às quatro da tarde, partiu, com
revólver, peixeira e fuzil.
Duas léguas e meia até a porteira da fazenda Girassol,
onde morava o seu amor. O boato já estava espalhado. Com
a matutada na espreita, Pedro, cheio de coragem, encostou Gato
Prêto na porteira, agachou-se com cuidado, para não
sujar o linho branco e brilhoso da sua calça, e foi em direção
à casa de Rosinha.
Antes, teria que enfrentar mata de cajueiros, um riachinho fino
e pequena camada de mata-pasto. Mas nada disso importava. Ela tinha
as pernas grossas e sabia ninar gente grande. Era tudo para o “Rei
das Capoeiras”.
A primeira recepção foi um tiro, que pegou na barriga
e foi sair lá atrás, pelas costelas. Na hora, Pedro
praguejou:
- Ah desgraçada. Tô baleado, mas vou aí nem
que seja engatinhando.
E foi mesmo. Fulminou uns pestes que estavam de tocaia na Girassol,
levou Rosinha e com ela viveu pequena temporada. E esclarece por
que a deixou.
- A muié tava ficando muito sapeca. Tive que lhe dar uma
surra e nunca mais a gente se encontrou.
O
JUMENTO COICEIRO
No
Limoeiro do Norte, Pedro é um homem de paz. Sua espôsa,
Francisca Alves de Lima, é seu braço-direito no bar
e restaurante de sua propriedade. Êle adora as filhas Maria
das Graças, Regina de Lima, Francisca Edson, Maria de Fátima
e Maria do Socorro.
Quando a situação está boa, o jagunço
arma as suas arapucas sob as carnaubeiras ou perto dos cardeiros
para pegar canários. Êsse tipo de pássaro significa
tudo na sua vida. Brigas às tardes de sábado ou pelas
manhãs de domingo. Tudo seu é bem limpo. Em 10 minutos,
sem camisa e com os pêlos do tórax embranquecidos,
desmonta seus revólveres e faz uma limpeza geral em tudo.
Conversa pouco e grosso.
Há 25 anos, Pedro Januário era dono de um bar, em
São Miguel, Rio Grande do Norte. Dali, seguiu para a Bahia.
Andou comerciando por Juàzeiro e Feira de Santana. Voltou
ao Rio Grande do Norte, já casado. Mesmo assim, ainda era
valente e disposto. Montava burro brabo, selava carneiros e derrubava
bezerro a pulso. Pelo pescoço ou pelo rabo. Tinha um jumento
braiador, que deu um coice num velho, seu amigo, quebrando-lhe a
perna. Não conversou, pegou o fuzil, encostou na cabeça
do animal e, só com um tiro, liquidou-o.
- Hoje, só quero graça com meus canários. Êles,
minha mulher e minhas filhas. Sentando no seu restaurante, bebia
uma cachaça amarelinha, de fabricação caseira.
ÚLTIMA VINGANÇA
- Essa história de turma para matar não adianta. Lampião
tinha a dêle. Sempre andei só, com Deus. Enquanto tivesse
bala na minha cartucheira não queria graça com ninguém.
Na sua vida pacata, o velho Pedro está lá palitando
os dentes numa sombra de oiticica. Sempre ao lado de velhas figuras
dos sertões sofridos. Homens que trazem na face o ódio
e a paixão, o sofrimento e a bondade. Cada um com uma história
diferente para contar. Quem sabe, outros Pedros que preferem deixar
o tempo matar as suas aventuras.
O ex-“Rei
das Capoeiras”
também prefere esquecer os episódios vividos em meio
ao caatingal. Só não apaga da lembrança que
o seu irmão foi morto e o criminoso está sôlto.
Ainda não se conformou:
- Vou ver se faço minhas filhas estudar mais para depois
dar uma voltinha lá pelo Rio Grande do Norte. Estou disposto
a vingar meu irmão e depois disso, me aposentar de tudo.
Fêz um riso sério virou as costas e foi-se embora.
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