O
que diz Lígia Diniz
Reportagem
de JORGE SEGUNDO e HÉLIO PASSOS
-
Sem essa de influência, bicho. Eu sou eu mesma. Tenho personalidade,
nada de estribação nas idéias dos outros. Corta
essa, que é furada.
A forma descontraída de Lígia Diniz falar de sua “personalidade
marcante”,
para dizer que não absorveu nada da irmã, Leila, revela
para os meios artísticos mais uma adolescente descompromissada.
Seu lançamento na revista Tem Banana na Banda,
em cartaz no Teatro Poeira, Ipanema, aconteceu por acaso, na ausência
de Tânia Scher. Até então, Lígia era
apenas diretora de cena do espetáculo e não imaginava
que, naquela noite, fazendo dupla com Leila, estaria iniciando sua
vida artística.
EMPURRÃO
PARA A GLÓRIA
- A surprêsa foi sensacional, emocionante. Entrei no palco
empurrada, sentindo-me um pouco deslocada, mas não marquei
bobeira. Comecei a dançar, cantar, integrei-me
ao elenco e fui, aos poucos, me encontrando. O resto foi lindo,
sem problemas.
Da oportunidade inesperada, Lígia Diniz passou a ser requisitada,
insistentemente, para outros papéis. Lá mesmo no Poeira,
está estrelando a peça infantil Pop, a Garôta
Legal, história de uma menina levada que foge à
noite para se divertir numa loja de brinquedos. Do sonho à
realidade, “Pop”
termina comprando tudo e levando para casa.
- Pop é a glória, minha glória. Sinto-me realizada,
especialmente porque tenho paixão por crianças. Elas
sobem no palco, brincam comigo, participam do espetáculo.
O empurrão inicial está começando a render
muito para a jovem atriz: além do filme que realiza com Wagner
Roucourt, um nôvo diretor do cinema nacional, Lígia
já foi contratada para a próxima revista do Poeira,
quando aparecerá ao lado de Aizita Nascimento, Hércio
Machado, Sandra Bréa e Norma Sueli, com texto extraído
de Stanislaw Ponte Preta e músicas de Sérgio Bittencourt
e Eduardo Souto Neto. Aqui, Oh! estréia
em setembro e, até lá, vai faturando o sucesso da
Banana.
DUREZA
DA VIDA
Com
a saída de Leila, muita gente que já tinha assistido
à revista retornou ao Poeira, só para sentir a nova
Diniz, que diziam ser mais pra frente do que a outra.
- Não, o negócio não é bem êsse.
A turma vai lá pra ver mulher pelada, mas
quebra a cara. A nudez como arte é válida, mas a seminudez
da Banana é apenas engraçada, não
é muito artística, não.
Trabalhando, atualmente, uma média de 15 horas por dia (compromissos
com teatro e cinema), Lígia Diniz vai se habituando ao rush
da vida artística, um vaivém da pesada, mas pra ela
bacana, porque cheio de emoções novas.
- Estou me levantando às 7 horas da manhã, tenho filmagem
até 6 da tarde. Volto exausta e, às 9 da noite, apareço
na Banana. A roda-vida abrange as sessões
vesperais da Pop, nos fins-de-semana.
A garôta que pensou estudar Direito ou Jornalismo e fazer
um outro trabalho qualquer não estaria faturando nem um têrço
do que ganha, como atriz, aos 18 anos de idade. Embora não
revele o mapa da mina (uma lição
que aprendeu logo), confessa que já está dando para
manter um padrão de vida muito bom, que não esperava
alcançar tão cedo.
AMOR
COM LIBERDADE
O sentimento de liberdade das irmãs Diniz é igual
sob todos os aspectos. Liberdade total, sem intromissão de
pais ou da sociedade.
- Tudo na vida é feito com amor. Qualquer coisa que se faça
sentindo é muito bacana. Nada é imoral, pois a imoralidade
quem faz é a sociedade, quase sempre quadrada. A família,
às vêzes, também é chata, funciona como
uma espécie de regime militar, através de uma hierarquia,
em que o pai e a mãe estão lá em cima, dando
ordens, e os filhos, passivamente, obedecendo.
Na casa das Diniz, a conversa entre pais e filhas tem um sabor de
igualdade, à vontade, onde o palavrão entra na medida
exata em que é necessário, sem nenhum constrangimento,
com o maior dos respeitos.
- Os moralistas que se danem, êles estão desacostumados.
Palavrão depende de costume, de bom costume. Respeitar pai
e mãe é bom, mas como gente que êles são,
sem grilo de tradição de família.
CURTIÇÃO
ESPONTÂNEA
Lígia
considera que a juventude atual está muito desorientada e,
por falta de experiência, faz coisas erradas, comete muita
bobeira, sem avaliar as oportunidades e circunstâncias.
Quando apelam, a contestação vira anarquia.
- O ideal seria a composição: vontade e fôrça
do jovem na cuca do velho. Aí a coisa funcionava, com experiência,
espírito realizador, conhecimento e tato.
A liberdade é mais acentuada em Lígia, quando ela
revela não depender das coisas. A espontaneidade é
o segrêdo da curtição. O vício esclerosa,
adoece e limita as pessoas.
- Até com cigarro comum já parei, me fazia mal, larguei
enquanto era tempo. O viciado em qualquer droga é condenável,
mas uma coisa para se curtir o dia, uma vez ou outra, é muito
bom.
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