Material humano

Rachel de Queiroz

Quando os governos escolhem ministérios, embaixadas, comandos lideranças parlamentares e demais instrumentos de poder que trabalham à voz do Executivo, quase sempre é geral a decepção que se segue às indicações. Não falo nas ambições insatisfeitas nem nos rancores não saciados, mas na opinião do cidadão comum que esperava talvez uma impossibilidade: nomes novos mas já ilustres; ou as famosas reservas morais, nas quais tanto se fala, mas que nunca aparecem. Quase invàriavelmente é medíocre a lista dos escolhidos, com uma ou duas exceções de alto gabarito, – o resto é o surrado elenco dos políticos de tôda vida, que o mais que fazem é botar fantasia nova ou cabeleira postiça; o picadinho do trivial, com môlho de tomate ou de pimenta, para fazer a diferença. E quando se interpelam os novos chefes de govêrno pela pouca imaginação de suas escolhas, êles respondem com outra pergunta:

- E quem se poderia nomear, senão êsses? Onde estão os novos, os brilhantes, os ótimos? Só dispomos dêstes, temos que usá-los.

Sim, a pobreza é grande. De material humano, quero dizer. Cada partido, cada grupo, tem o seu número muito reduzido de líderes, de expoentes de papáveis. Valores novos não brotam do nada, por geração espontânea. Infinito é o cordão dos picaretas, mas muito exíguo é o número de homens públicos à altura das esperanças do povo e do seu desejo de renovação. Na verdade, não passará de uma centena o número de políticos escolhíveis, – que na maioria não representam o ideal de ninguém, mas são sem dúvida o melhor que podem oferecer os partidos. Acontece que a política é um aprendizado longo e difícil, que exige além de vocação para a vida pública, dotes especiais como complemento dessa vocação.

E se poucos são os perfeitos homens públicos que se dedicam à política, nota-se a par disso, uma deserção singular de valôres verdadeiros – que apesar de grandemente dotados para o govêrno, recusam sistemàticamente, obstinadamente, exercer qualquer pôsto de responsabilidade nos quadros de direção do País.

Por que, por exemplo, um Prudente de Moraes, neto, não faz vida ativa na política nacional, e se encerra no jornalismo, onde é luminar, por certo, mas onde não dá senão uma parcela do que poderia dar politicamente? Tem tudo para homem de govêrno: a tradição de um grande nome, a familiaridade com os problemas nacionais, o trato do fenômeno político; trânsito livre em todos os grupos de elite intelectual e política, o saber, a honradez, e uma rara inteligência social, a par do seu imenso talento literário. E, entretanto, a não ser transitória experiência em cargo de responsabilidade durante o govêrno Café Filho (experiência aliás muito bem sucedida), êsse homem excepcionalmente dotado se mantém à margem das posições de comando, – por tédio, talvez por desengano, por fadiga, ou por falta de afinidades com os eventuais detentores do poder.

Cito Prudente de Moraes, neto, porque o conheço de perto e o admiro infinitamente. Mas como o seu caso, há diversos. Êsses são os esquivos, os fugidios, os raros. Podiam ser tudo, mas inexplicàvelmente, ou explicàvelmente por um feitio especial da alma que os inglêses chamam fastidious e de que não conheço tradução fiel, se omitem, se recusam.

Outros há que aceitam a vida política, as suas contingências penosas e as suas lutas, mas dentro de um ideal rígido de austeridade que – afirmam os entendidos – o jôgo político não comporta, feito que é êle tôdo de compromissos e concessões. Por isso vemos uma grande mulher como Dulce Magalhães arquivada prudentemente num nicho honroso do Tribunal de Contas da Guanabara, onde as suas virtudes são reverenciadas, mas onde não pode atrapalhar demais.

Nunca houve, em tôda a história brasileira, homem político mais puro, democrata mais heróico, cidadão e soldado mais honesto, promessa de governante mais auspiciosa do que o Brigadeiro Eduardo Gomes. Entretanto, por duas vêzes, o Brigadeiro perdeu a eleição presidencial, porque – alegavam os que o traíam à boca da urna – o Brigadeiro é idealista demais. Diziam então que nós precisávamos era de realismo e dinamismo para promover o nosso enriquecimento. E por isso caímos na era jusceliniana, durante a qual, é bom lembrar sempre, firmou-se o poderio janguista, quando Juscelino, cumprindo sua parte na barganha eleitoral, rachou com o vice, meio a meio, os seus podêres presidenciais. E promoveu-se o enriquecimento bem sabemos de quem... Tentamos nos recuperar naquela grande esperança perdida que foi a eleição de Jânio, para afinal virmos jangar nesta degradação de que ainda não nos lavamos direito.

Mas voltando à pouca escolha de que dispõem os chefes de govêrno para formar seus grupos auxiliares. Meu Deus, tôda a vida as mesmas caras. Quem de outra vez foi da Fazenda vai para as Obras Públicas, quem estava na Justiça pode ir para o Itamaraty. Ou vive-versa e troca as damas. Será possível que não haja mais brasileiros senão êsses? Sim, é triste dizer, não há. O médico mais ilustre não serve para general nem se faz um legista de um engenheiro. Político há que ter a sua tarimba, há que ser formado na vida pública, precisa de vocação e traquejo, não se improvisa. E tôda vêz que se bota um inocente político numa posição de responsabilidade, fatalmente, a menos que se trate de um gênio, o noviço é devorado pela rapôsas velhas que o rondam e lhe preparam a queda. Lembro um caso recente e cruel: o Sr. Brochado da Rocha, inexperiência provinciana improvisado em Premier, que os velhos profissionais literalmente massacraram, trituraram. Enquanto um praça velho como o Sr. San Thiago Dantas saiu lépido e sorridente de passagem muito mais difícil (que, a êle, San Thiago, nem deixaram assumir o cargo), o pobre Sr. Brochado da Rocha sofreu choque tão grande que morreu de enfarte.

Parece que a única maneira de produzir estadistas novos é criá-los de mocinhos, como está fazendo o Sr. Carlos Lacerda, com o seu excelente viveiro de onde saem estreantes de alto gabarito, como Rafael de Almeida Magalhães, Sandra Cavalcante, Hélio Beltrão. E pode ser que o govêrno Castello Branco, no qual pomos as nossas esperanças, também invente os seus nomes novos, a fim de renovar os fatigados, os surrados quadros políticos nacionais. Para a gente não ver, na posição de líderes do govêrno revolucionário democrático, homens marcados indelèvelmente pela ditadura, como o Sr. Felinto Müller, – que pode ser muito boa pessoa, que pode estar completamente convertido aos bons costumes liberais, mas cuja história passada é demasiado sombria para o colocarmos em tal eminência e sob tal claridade.

 

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