Adhemar prefere eleições em 66

Entrevista a José Carlos Marão e José Pinto

Em entrevista exclusiva a O Cruzeiro, o Governador Adhemar de Barros declarou-se favorável ao adiamento das eleições, por um ano, já que, segundo suas palavras, o Presidente Castello Branco precisa de tempo suficiente para consolidar os objetivos revolucionários e pôr a casa em ordem.

Sustenta o Governador paulista a tese da realização das eleições presidenciais sòmente em 66 dizendo que, se feitas no próximo ano, viriam dificultar a obra redentora em que tôda a nacionalidade, liderada pelo Presidente da República, está empenhada.

- Um pleito presidencial – ajuntou o Sr. Adhemar de Barros – aprofunda paixões e gera tumultos político-partidários, por mais altos em que sejam colocados os debates. Vamos reeditar primeiro. E, quanto à forma das eleições, sou pelo voto universal, direto e secreto.

- Vossa Excelência é candidato a essas eleições? – perguntamos.

- Minha candidatura é decidida e definitiva – garantiu o Governador de São Paulo. – Entretanto, não darei início, neste momento, à campanha eleitoral, porque, reitero, a hora é da Pátria. Ademais, considero seis meses tempo suficiente, mais do que suficiente para uma campanha presidencial.

O Sr. Adhemar de Barros abordou também o problema econômico e financeiro da Nação, falando sôbre a política financeira adotada pelo govêrno revolucionário de maneira segura e compreensiva.

- O Govêrno da República – disse – recebeu um legado verdadeiramente trágico: a inflação. Êsse flagelo não galopava, apenas. Voava, e a jato. Por isso mesmo, voltaram-se, para o campo econômico-financeiro, as atenções do Presidente Castello Branco. Êste país foi transformado em terra arrazada. O caos imperava. O Brasil foi sepultado num oceano de dinheiro-papel. Jamais se destruiu tanto em tão curto lapso de tempo. Agora é a luta árdua, sem tréguas, para a tarefa ingente da reconstrução. A revolução restabeleceu o clima de confiança, assegurou o trabalho construtivo. Eliminou a luta de classes acirrada e artificial, criada pelos agitadores moscovitas. Em conseqüência, criou condições para harmonizar as relações entre empregados e empregadores. Moralizou a administração.

- Alentada pelo mais puro idealismo – continuou – a revolução tornou-se eco da própria vontade popular, transformou-se no anseio insopitável de 80 milhões de brasileiros. Em 45 dias, vêem-se nítidos e auspiciosos resultados benéficos de 31 de março na economia nacional. Os surtos de emissões foram estancados e o saneamento do meio circulante processa-se intensivamente. Observa-se rígida compressão das despesas e a produtividade está sendo incentivada ao máximo. O povo, espontânea e patriòticamente, colabora para o êxito das medidas de redenção nacional.

- Aqui em São Paulo – frisou – os efeitos são realmente promissores. Há 45 dias não se verifica uma única greve, eu que enfrentei, em 14 meses de mandato, 392 paredes, das quais 93 violentas. O Pôrto de Santos, que tantas divisas dá, está trabalhando no regime integral de três turnos de oito horas, ou seja, dia e noite. Cessou o congestionamento dos navios, e o pôrto produz 1 milhão e meio de dólares diários para o Tesouro Nacional e 500 milhões de cruzeiros para o erário de São Paulo. Elevou-se a arrecadação e o Brasil retomou sua marcha de progresso.

- Através da Instrução 270 – continuou – suspendeu-se a subvenção à importação do trigo e do petróleo. A medida é acertada. Julgo, todavia, que deveria ter sido efetuada por meio de ujm escalonamento, por etapas para ser evitado aumento sensível no custo de vida. Mais daninha, ainda, do que a própria inflação é a deflação brusca. A desinflação, se assim se pode dizer, deve ter sempre em conta os efeitos na vida social. A Instrução 270 era necessária. Indispensável. Faço reparos apenas quanto ao modus faciendi, e não à justeza da medida em si. Concordo, de modo geral, com a orientação econômico-financeira do do Govêrno da República.

- Afirma-se que o País está em recesso econômico – perguntamos. – V. Excia. considera a política federal em condições de fazer com que as atividades financeiras se normalizem?

- Recesso houve, é claro – respondeu o Sr. Adhemar de Barros. E acrescentou: - E mais: o Brasil estêve até em retrocesso. Foi até o caos. Mas agora, depois da revolução, está em franco progresso. Tôdas as fôrças vivas da nacionalidade estão empenhadas na batalha da redenção. O êxito, por exemplo, da campanha Ouro Para o Brasil, que os Diários Associados tão patriòticamente estão promovendo, retrata a mobilização popular maciça em prol da salvação nacional. Um povo assim determinado é capaz de realizar verdadeiros milagres. A vida econômica retoma o ritmo da normalidade, o mesmo sucedendo com a financeira.

- Os mandatos dos governadores Aloísio Alves, Mauro Borges, Ildo Meneghetti, Nei Braga e Magalhães Pinto estariam sendo, conforme seu ponto de vista, ameaçados? – perguntou a reportagem.

- O órgão competente, conforme preceitua o Ato Institucional, é o Presidente da República, através do Conselho de Segurança Nacional. O assunto escapa à esfera de minha competência, sequer opinativa, pois não disponho de quaisquer elementos informativos a êsse respeito. Há, na sua pergunta, citação de nomes que me causa estranheza estejam aí arrolados.

- Sabe V. Excia. da união dêsses governadores – bastante comentada nos meios políticos – para defender em conjunto os seus mandatos?

- Só creio numa forma de união: a de 80 milhões de brasileiros em tôrno do Brasil, dos ideais revolucionários e dos podêres constituídos.

As últimas visitas de alguns dêsses governadores a V. Excia. significam uma possível participação do Governador de São Paulo nesse esquema?

A pergunta está prejudicada pelas respostas anteriores – respondeu o Governador paulista. – Reitero ser a posição do Govêrno de São Paulo nitidamente definida, cristalinamente clara. Durante meses a fio, por mais de um ano, tôda a minha luta foi pela sustentação do regime democrático. Transformei São Paulo na Verdun da democracia, pelo qual as hordas bolchevistas jamais passariam. Só tenho um esquema: o Brasil. Minha bandeira é verde-amarela. Fui um dos líderes civis da revolução. Participei da instituição da ordem vigente. Dou e darei o melhor dos meus esforços em prol da concretização dos ideais revolucionários. Tudo farei pela construção de um Brasil maior, mais justo e mais humano.

- Há pronunciamentos em todo o País em favor da cassação dos direitos políticos do Sr. Juscelino Kubitschek. V. Excia. julga justa esta cassação?

- Como candidato que sou às eleições presidenciais, não me afeta. Ainda mais se se trata de um leal opositor à minha candidatura. Como homem integrado na revolução, lembro o que já disse: Julgar cassações não está na minha cota de responsabilidades.

 

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