A voz do dono

Os únicos povos do globo que ainda hoje aceitam, não diremos com os regozijos de um triunfo, mas simplesmente sem discussão, sem protestou ou sem revolta, o princípio de autoridade representada pelo arbítrio de um indivíduo, são os selvagens; são os ascantis, cujo rei, herdeiro único e forçado de todos os seus súditos, tem 3.333 mulheres e um número proporcionado de filhos, com o dinheiro de saque sôbre tôda a comunidade; são os Katungas do Vale do Niger, onde ninguém se aproxima do soberano senão com as mãos no chão e a cabeça arrastada na lama; são os abissínios, que nascem todos escravos do rei seu dono; são os malanésios, cujo chefe tem o tratamento de deus; são finalmente os cafres, os botocudos, os tupinambás, os patagônios e os esquimaus.

Se a Ramalhal Figura que está semrpe à cabeceira de Assis Chateaubriand lhe pudesse falar ao ouvido, com a mesma ternura de outrora, dir-lhe-ia que também são os pessedistas.

O nosso chefe tem a disciplina de um autocrata, porém êsses que dêle se aproximam para intrigar-nos, desconhece que não somos katungas de sua grei. Êle, o tetrarca, sabe distinguir entre áulicos e homens livres – e é na divergência que mais se acentuou a nossa amizade e o nosso respeito, na reciprocidade de um senhor que sabe não ser o dono de um teatro de marionetes intelectuais – e de um jornalista da sua escola de liberdade profissional.

Os colibris gigantes que levam ao grão-senhor de Araxá, o veneno em vez de açúcar – não o conhecem nem a mim. Não sabem que êle detesta tanto quanto a incompetência, a subserviência. Não sabem – êles não sabem nada! – que, nesse general civil da revolução, encarnam-se a mármore obstinação de um Costa e Silva e a teimosa flexibilidade de um Castello Branco. E que neste seu soldado rebelde não vive, não viveu nem viverá nunca uma figura de rastro, um katunga de bumbum de fora, aguardando as palavras únicas do rei, com as mãos no chão e a cabeça arrastada na lama.

Mais uma vez discordo do Senhor Assis Chateaubriand – e, mais uma vez, clamo pela verdadeira interpretação de uma tese que não é minha, porém de todos os homens de senso comum. Não é compreensão que exijo, mas exatidão. Não é o cafre que vem à presença de uma divindade fria e má para lhe pedir que a ouça – mas um miliciano da mesma democracia que não se conforma com o sentido adulterado de seu pensamento.

Não sou contra as medidas saneadoras da economia brasileira postas em prática pelo atual Govêrno. Não sou mesmo contra a supressão dos subsídios. O que eu quero saber, apenas, é a destinação que se vai dar aos produtos do confisco cambial. Se o mesmo vai alimentar a caixa do Brasil, se vai revigorar o seu orçamento tísico, se vai fomentar a exortação de produtos gravosos, se vai subsidiar outros ramos menos felizes da nossa agricultura – ou se vai simplesmente aumentar a caixa dos felizes exportadores de café. Esta pergunta não foi respondida. Deixo-a no ar – e o tempo se encarregará de decifrar o mistério dos Champollions da economia brasileira.

Os Governos fazem a História, os jornalistas a escrevem. Nem sempre a mesma pode ser contada a quatro mãos. Muitas vêzes, ela é interpretada numa espécie de contraponto, como acontece agora, quando dois amigos, igualmente órfãos de interêsses materiais, defendem teses opostas. Na mesma comunidade associada – João Calmon, Theophilo de Andrade, Austregésilo de Athayde, Moacyr Padilha, Geraldo Banas, cada qual pensa de maneira diversa – e coincidentemente de maneira diversa da minha. O complexo associado é um forum de debates, não uma incubadeira de idéias.

Isto significa que jornais para homens livres só podem ser feitos por homens livres.

A tendência permanentemente revolucionária do chefe não permitiria que editássemos uma gazeta de katungas, quanto mais uns Diários Associados para cafres, onde todos lessem pela cartilha do seu senhor ou falassem por sua voz. Vou à presença de um homem porque tenho a maior veneração – porém com as minhas próprias convicções. Não sou receptor, mas um transmissor. Falo ao condutor de idéias como um discípulo que nem sempre concorda com as idéias que êle conduz – sem querer conduzir homens. Não haveria sentido numa organização de jornais formadores de mentalidade à base do idealismo, da liberdade e do civismo – onde os jornalistas fôssem apenas carneiros mentais do rebanho de um só pastor. Qual a confiança que se poderia ter nessa massa conduzida de opiniões, nesse rebanho teleguiado, mesmo que estivesse a serviço de um gênio?

O Senhor Júlio Mesquita Filho tem um grande jornal que é um microfone de ouro instalado no seu quarto de dormir – de onde êle fala para o Brasil, através de São Paulo. Se as idéias são justas ou não, se o seu jornal defende – como defende – boas e más causas – não é o jornal que defende, mas o seu diretor – uma cabeça que pensa por tôdas, como o regente de uma orquestra de pingüins.

A máquina funciona bem, o jornal fatura bem, seus redatores são bem pagos, a impressão é ótima, o conteúdo é elegante, os editoriais parecem retalhos antológicos – mas – e se o Senhor Júlio Mesquita amanhece como uma hepatite (Deus me livre! Não estou lhe desejando isto) – mas, se o Carlão rompesse o dia com uma dor de dente – tanto a hepatite do nobre jornalista como a dor de dente do simpático boêmio influiriam decisivamente sôbre a opinião pública brasileira. Sôbre o mundo seria exagêro.

Bastou, por outro lado, que no Rio de Janeiro, a Dona Niomar Muniz Sodré se descuidasse – para que se descesse o pau sôbre uma das mais honestas, mais devassáveis e mais puras campanhas pelo bem do Brasil, aquela que, no seu simbolismo ou na ajuda simples que possa representar o ouro moral, o Senhor Edmundo Monteiro está fazendo em S. Paulo. O ouro é depositado dentro de um salão de cristal, à vista de todo mundo, sob o contrôle público e oficial, guardado por fôrça armada, sem que mãos estranhas dêle se aproximem. A suspeita foi verdadeira sabotagem. Isto seria possível se Paulo Bittecourt estivesse vivo? Isto seria possível se Dona Niomar não tivesse isso ao cabeleireiro? Êsse é o mal de uma imprensa que obedece à vontade monárquica de um homem, de um grupo ou de uma viúva.

Aristocràticamente falando, o Estado de São Paulo é um Estado dentro de S. Paulo – onde uma família governa, nomeia presidentes de bancos oficiais, demite ministros, fala de igual para igual com o Alto Comando da Revolução. Lembro-me de uma vez, na Suíça, em que uma jovem da bem-aventurada família revelava ao gerente do hotel: - Meu pai é o dono do Estado de São Paulo.

Êle foi ver no mapa. Eu fiquei calado, porque no fundo, era aquilo mesmo.

Um jornal governa um Estado, um Estado governa o Brasil – e uma família governa um jornal.

Nestes buracos de rapôsa, patrulheiros dos Diários Associados, defendemos quase sempre as mesmas teses impessoais, mas nem sempre as mesmas teses, nem obrigatòriamente as teses do patrão – temos em comum apenas a causa democrática, a defesa da livre iniciativa e o resguardo das liberdades públicas. Não poderíamos exercer essa vigilância da Revolução, sem a autonomia que se dá aos pilotos brevetados da opinião pública. Nem eu saberia trabalhar doutra forma. Não sou conta a Revolução – porque ninguém pode ser contra si mesmo, sou uma parcela revolucionária, porém de vírus vivos, sempre dispostos a uma resistência contra a putrefação do ideal. Contra a inevitável gangrena que acaba por destruir os movimentos nascidos do interêsse comum e transformados em movimentos de defesa de interêsses pessoais, de grupos ou de escolas.

Porque sou um homem livre, tornei-me jornalista. Porque sou um jornalista livre, trabalho nesta casa – e é nessa dupla condição e não na de um katunga adotivo – mas de um filho rebelde – que compareço à presença do meu chefe para lhe dizer que, desta vez, não estamos de acôrdo.


 

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