15 de julho – Fim dos expurgos
Volta à tranqüilidade política

O próximo dia 15 de junho, quando se vence o prazo estabelecido pelo Ato Institucional para cassações de mandatos e suspensões de direitos políticos, deverá marcar, na área política, a delimitação do processo revolucionário na parte que se efetiva através dos expurgos. As últimas semanas dêsse prazo acentuam, todavia, a inquietação dos governadores, deputados, senadores, prefeitos, vereadores, aos quais faltam indicações precisas sôbre a profundidade e a orientação das investigações que o Conselho de Segurança Nacional realiza sigilosamente por todos os pontos do País.

Acredita-se que uma longa lista encerrará a operação de limpeza, mas, antes da sua divulgação, as pressões que se vão fixando aqui e ali dão indicações dos objetivos que a Revolução deseja ainda alcançar.

Alguns governadores de Estado, inseguros da sua posição no processo, por terem, ainda que remotamente, colaborado com o Govêrno do Sr. João Goulart, acompanhavam com ansiedade a vagarosa marcha da investida contra o Sr. Mauro Borges, que foi o primeiro a adotar atitude de resistência cívica à pressão das fôrças revolucionárias. Sentiam êles que o Governador de Goiás, na medida em que criava problemas, retardava a marcha da operação e conquistava alguns dias para os intranqüilos.

O próprio Sr. Mauro Borges chegou a acreditar que a atitude que assumiu era a única que lhe abria alguma perspectiva de permanecer no govêrno do Estado, pois a Revolução, embora atingindo alguns de seus secretários, o preservaria na medida em que lhe dava tempo de afirmar sua não vinculação com o movimento subversivo atribuído ao Govêrno deposto.

Ao fim do processo contra o Sr. Mauro Borges, cresciam as indicações de que os principais governadores participantes da Revolução seriam finalmente poupados, em que pesem vinculações ultrapassadas ou suspeitas alimentadas por interêsse das oposições locais.

O grande problema do expurgo continua a ser a pessoa do Sr. Juscelino Kubitschek, que os chefes revolucionários, de uma maneira geral, desejariam ver pôsto à margem do futuro processo sucessório presidencial, por acreditarem que sua presença no pleito significará uma ameaça definida de frustração dos objetivos revolucionários.

O problema evolui de maneira pouco clara nas esferas oficiais e militares, havendo indícios de indecisões com relação ao método a adotar para atingir ao fim colimado. Pensou-se, por exemplo, na fixação de impedimentos legais à candidatura do ex-Presidente da República, seja pela proibição de reeleição com menos de dois períodos de intervalo, seja por uma eliminação sumária de todos os ex-Presidentes. Os métodos de impedimento através da legislação nova foram finalmente afastados, de vez que tal coisa não poderia ser obtida sem a colaboração do PSD. O partido majoritário, embora com uma importante ala desejosa de lançar ao mar o Sr. Juscelino Kubitschek, parecia movido pelo instinto de sobrevivência, na medida em que os seus diversos dirigentes entendiam que o sacrifício do seu candidato poderia importar, mais cedo ou mais tarde, no sacrifício de cada um dêles, quando não na eliminação de qualquer possibilidade de participação dos pessedistas na futura sucessão presidencial.

Essas especulações visavam a atender objeções que desaconselhavam a adoção pura e simples da suspensão de direitos políticos, sob pretexto de que se iria atingir uma larga faixa do eleitorado seduzida pela liderança do Sr. Juscelino Kubitschek. No entanto, os grupos radicais da Revolução, que atuavam, sobretudo, no setor do expurgo, prosseguiram na coleta de dados e na apuração de fatos capazes de convencer o Govêrno a decretar a suspensão dos direitos do ex-Presidente da República.

Há indícios de que o Sr. Juscelino Kubitschek acompanhou, através de informações, as tendências a seu respeito dentro da área militar, examinando cuidadosamente a sua própria atitude. Preocupava-o ser surpreendido, sem que pudesse ter, antes, uma comunicação direta com os seus correligionários, mas desejou evitar, de qualquer forma, um pronunciamento que, tomado como um desafio ao poder vitorioso, quebrasse em seu desfavor o estado de dúvida identificado por tantos de seus assessôres.

Nos meios políticos persiste a impressão de que o Sr. Juscelino Kubitschek não sobreviverá ao processo revolucionário como candidato à Presidência em 1965, pois, ainda que não tenha seus direitos cassados, será alvejado finalmente por uma legislação que, na melhor das hipóteses, evite a eleição de 1965, transferindo-a, conforme sugeriu o General Justino Alves Bastos, em entrevista a O Cruzeiro, para data mais longínqua.

Nos círculos udenistas, o receio que havia a respeito era o de que pudesse o Sr. Juscelino, a exemplo do que aconteceu em 1955, resistir à pressão militar, atravessando o 15 de junho com a bandeira civilista e legalista na mão. Teme-se, sobretudo, que, se tal ocorrer, estará reaberto, em têrmos agudos, o problema militar, senão para um desfecho imediato, pelo menos com vistas ao desfecho da campanha eleitoral de outubro de 1965.

O Sr. Juscelino Kubitschek está solidário com a Revolução apenas no aspecto de combate ao comunismo, mas prepara-se, evidentemente, para contestá-la nos demais aspectos, se lhe fôr dada a oportunidade. Como instrumento de resistência, sua última esperança parecia ser a de que poderosos governadores, que se pretendeu envolver no processo de expurgo, tivessem condições de oferecer resistência, de maneira a abrir campo a uma grande frente única de oposição, que terminasse por impressionar o próprio poder federal. Essa perspectiva poderá, no entanto, ser frustrada com uma autolimitação do sistema punitivo, para escolha cuidadosa dos alvos e dos objetivos a atingir.

 

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