O Cruzeiro - 19 de dezembro de 1964.

As eleições americanas (III)

Rachel de Queiroz

TAL como entre nós, durante e depois das eleições nos Estados Unidos, há muita reclamação contra fraudes, não sei se verdadeiras ou imaginárias.

Queixas contra discriminação e abuso no período das inscrições pré-eleitorais, mormente da parte dos negros. Parece que são êles as maiores vítimas, e o golpe mais usado é lhes negar título eleitoral sob a alegação de que não sabem ler. Há uns testes de literacy ou de alfabetização que, dizem, são feitos à falsa fé. Num jornal da Lousiana leio que, no Mississippi, um advogado negro, formado em Direito e atuante no fôro, fôra barrado nos testes para eleitor como illiterate, ou seja, analfabeto... E isso, dizia o jornalista, mesmo para o Mississippi é forte!

Reclamações são feitas igualmente contra os que votam duas e três vêzes, em seções diferentes, e os que votam com nomes de defuntos. Queixas contra os potentados políticos que intimidam o eleitor contrário com ameaças de represálias, especialmente as pessoas de côr, mais crédulas ou mais ignorantes.

Gente interessada em impedir a inscrição do eleitorado negro manda cartas circulares aos bairros residenciais de negros, dizendo que os testes são dificílimos e o semi-analfabeto que tentar se inscrever se arrisca a ser prêso por fraude - o que é ofensa federal... Outras explicam que todo aquêle que tem passado policial ou ficha policial, nem que seja uma simples multa por excesso de velocidade, é indivíduo suspeito e pode ser prêso ao se apresentar para eleitor... Afirmam alguns jornais e comentaristas de TV que foi graças a êsses métodos de intimidação indireta, ou mesmo pela brutal negação do direito de votar às minorias de côr, que se conseguiu em alguns Estados do Sul a maciça votação obtida nêles por Goldwater.

E DIZ também muita gente que esta votação impressionante dada a Lyndon Johnson não vale como um tributo pessoal aos mérito do Presidente - vale sim como um não violento dito a Goldwater e tudo que êle representa. Não foi uma eleição a favor, foi uma eleição contra; votou-se em Johnson como um mal menor, porque não havia escolha. Ou êle - ou Goldwater.

E com tôda a sua formidável consagração nas urnas, Johnson não é tido pròpriamente como um herói nacional, nem sequer, parece, pelos seus partidários.

Êle é tido, principalmente, como um político habilíssimo, semelhante às nossas famosas rapôsas em que é tão rico o PSD. Passa também por ser um homem de muita sorte, um homem de boa estrêla. Não é nenhum letrado, não tem grande apêgo a ideologias, é homem prático e astuto, grande ganhador de eleições, sabendo sempre dizer o que o eleitorado deseja ouvir. Não tem na sua figura nada que o aproxime do intelectual e do idealista, nada da aura romântica de um John F. Kennedy.

Contra Johnson houve, alguns dias antes das eleições, a irrupção de um escândalo tremendo: seu principal, seu mais fiel e mais antigo colaborador, Walter Jenkins, foi prêso em flagrante, no toalete do ginásio da YMCA, em Washington, como pervertido sexual. E logo a Polícia verificou que o mesmo Jenkins, em 1959, sofrera prisão por motivo idêntico e o caso fôra abafado. Foi um barulho imenso. O homem tinha acesso ao material mais secreto da Presidência - um tal degenerado, prêsa fácil de chantagistas, que risco para a segurança nacional!, chamavam os republicanos. O golpe parecia terrível para a candidatura presidencial - mas aí funcionou a famosa sorte e Lyndon B. Johnson: no dia seguinte ao em que rebentou o escândalo Jenkins, explode bomba muito mais poderosa - a bomba atômica chinesa. E logo mais à tarde Nikita Krutchev é deposto... O caso Jenkins, esquecido, saíu das primeiras páginas e não deu mais rendimento nenhum aos inimigos do govêrno.

Mas creio que o fator principal na vitória de Johnson foi o fantasma da guerra. Naturamente aqui, como em tôda parte, o povo tem mêdo da guerra, mormente as mulheres, e as mulheres são a parcela mais importante em matéria de influência, neste país. Goldwater era apresentado pelos oradores democráticos como trigger happy, expressão meio intraduzível que indica um sujeito capaz de atirar à menor provocação ou sem provocação nenhuma, só para mostrar que é danado. E êles perguntavam patèticamente ao eleitorado: Vocês têm coragem de pôr junto à mão de Barry o botão vermelho que desencadeará a guerra atômica?. E as mães, as espôsas, tôdas as mulheres naturalmente se assustavam, diante dessa imagem tenebrosa. Muitos homens também.

Junta-se a êsses a votação maciça dos negros que viam em Goldwater o protetor da discriminação e o inimigo número um dos direitos civis - e se entenderá por que não sendo Johnson nenhuma figura carismática que empolgasse a nação, teve entretanto uma vitória nunca vista.

Mas muita gente que votou contra Barry Goldwater com mêdo da guerra, apesar de não lhe dar o voto, gosta dêle, e acha que êle diz muita coisa sensata. Culpam-no principalmente de inabilidade, de falta de tato político, de estragar os melhores temas com má oratória. Mas procurando bem, no meio das suas boutades, há quem descubra alegações justas e advertências importantes. Especialmente no que diz respeito aos gastos com a política externa, à guerra no Vietnan, à tendência do poder federal de interferir cada vez mais na autonomia dos Estados, à invasão burocrática oficial no setor da iniciativa privada. E à manutenção do statu quo radical também - embora ninguém confesse isso abertamente.

Tanto que Goldwater obteve 27 milhões de votos, o que afinal de contas não é nenhuma bolacha quebrada, como êle próprio diz.

O slogan de Goldwater: Não sou contra a integração - sou contra era ser imposta á fôrça. É dêsses sofismas especiosos que conquistam os enfurecidos contra a rebeldia negra: e foi êsse slongan que lhe valeu a reviravolta dos velhos democratas do Deep South (o Sul Profundo) os quais, pela primeira vez, em mais de cem anos, votaram com os republicanos. E também pela primeira vez na história americana se viu um candidato republicano ter vitória maciça no Deep South.

Mas de qualquer forma essa etapa eleitoral, que parecia perigosa, foi vencida com margem imensa; vamos agora rezar, para que o Presidente Johnson possa fazer o que promete, para tranqüilidade de todo o Mundo. E quando eu digo todo o mundo, não é modo de falar, me refiro ao Mundo todo, mesmo.

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