As eleições americanas (II)

Rachel de Queiroz

CHEGA o dia da eleição e então é muito parecido com o nosso. Curiosamente, contudo, aqui não é feriado para o comércio. As lojas abertas, tudo funcionando normalmente. Grande calma nas ruas; mais movimento nos bairros pobres. Por quê? porque nêles anda mais gente a pé, e se deixa ver, enquanto nos bairros abastados só há o rolar silencioso dos carros.

Assisto à eleição em St. Louis, Missouri, grande cidade às margens do Mississipi. Primeiro nos levam a uma repartição que equivale mais ou menos à nossa sede de zona eleitoral. Mas não tem juiz, tem um cidadão que se diz chairman, chefe não sei bem de que. Para ali vão as pessoas que, por qualquer motivo, não receberam o seu título de eleitor, ou tiveram o seu nome exluído das listas eleitorais, ou sofreram qualquer outro êrro ou omissão no seu direito de votar. Esperam nos guichês em fila, pacientemente. Na maioria gente modesta, mal vestida. Pessoas de côr. Se reclamam, o fazem em voz baixa, que nem parece reclamação. Lá dentro uma espécie de barafunda calma, se posso dizer. Funcionários andando depressa, abrindo fichários e gavetas, rabiscando listas, colidindo, pedindo desculpa, mas sempre em voz sumida, sem barulho.

O chairman nos mostra a máquina de votar e todo o seu mecanismo. E aquela máquina tão falada, que parecia a solução para todos os problemas eleitorais, decepciona a gente. É imensa, da altura de um homem, um grande painel prêto com talvez umas cem manivelas, - e cada manivela corresponde a um candidato. Nesta eleição de 1964 escolhia-se Presidente da República, governador (em alguns Estados) senador, deputados federais, deputados e às vêzes senadores estaduais, prefeitos, vereadores, e mais todos os funcionários estaduais e municipais cuja escolha aqui se faz por eleição, - juízes, promoteres, chefes de polícia, xerifes etc. Cada partido apresenta lista completa e, a cada um dos nomes, corresponde uma manivela própria. Como não há nomes na máquina, só números, o eleitor leva consigo uma lista impressa e vai votando. É verdade que há uma manivela geral para cada partido; se o eleitor quer votar partidàriamente, é só puxar a manivela democrática, ou republicana ou independente, e está pronto. Mas quem quer dividir o voto - e nesta eleição a maioria o fêz em tôdas as combinações possíveis, tem que escolher de um em um os números dos seus candidatos na lista, depois os localizar na máquina, para então acionar a manivela correspondente. É muito complicado e exaustivo, mormente para pessoas de poucas letras, desabituadas a puxar tanto pela cabeça.

Aliás, as máquinas só funcionam nas cidades grandes. Nas cidades menores e nas regiões rurais, o voto é de urna mesmo, como o nosso. É pelo menos o que afirma o obsequioso chairman.

Levados pelas amáveis senhoras da Liga Eleitoral Feminina, vamos ver como funcionam as seções eleitorais. Trata-se de instalação provisória numa escola, numa igreja e até mesmo em prédio. A cabina de lona, lá dentro a máquina. Na mesa eleitoral os mesmos presidente, mesários, fiscais. Mas ao contrário do que se faz entre nós, não são voluntários escolhidos pelo juiz eleitoral, porém funcionários, pagos para isso. E ainda há, fora os que trabalham na mesa, um camarada que toma conta - fica à porta, de chapéu e charuto, não sei bem sua função. Dentro do recinto um ou dois policiais, para manter a ordem. O trabalho de procura de nome na lista e verificação de assinatura é lento, sem muita eficiência. Entra uma mãe de família com dois meninos que andam e um terceiro no carrinho, mete-se tudo dentro da cabina, e Deus que me perdoe se um dos garotos não puxou a manivela errada. Vem uma cega e um dos mesários se levanta para a ajudar a votar: evidente que não pode ser voto secreto; a cortina da cabina mantém-se erguida, a cega sussura ao ouvido do funcionário e todo o mundo o vê segurar-lhe a mão e baixar a manivela republicana. Votou no Goldwater, a tonta. Votou no sujeito que pretende proibir o govêrno de dar ajuda a velhos e incapacitados, diz alguém enquanto ela passa, com um arzinho de desafio, nariz para o ar.

Variando de local e de bairro - zona de income (ou rendimento) baixo, de rendimento médio, de rendimento alto, - lá dentro faz pouca diferença: tôdas as seções se parecem. Do lado de fora, a uns cinqüenta metros da porta, a velha propaganda, sempre presente, procurando arrastar os indecisos de última hora. Trabalham lado a lado, democratas e republicanos, aparentemente sem atritos. Os de Johnson se distinguem pelo chapéu texano claro, de abas largas. Mas o material que distribuem, junto com as listas eleitorais, é dos mais explosivos. Um de chapelão oferece caricaturas de Goldwater surrando negros e chutando velhos, ou com o capuz da Ku-Klux-Klan (alusão à lei dos direitos civis e à lei de aposentadoria que Barry combate). E os rivais nos entregam papeluchos idênticos, mas onde se vê o Presidente a abraçar o urso soviético, ou a atirar pela janela os dólares do contribuinte. Um observador iugoslavo que está no nosso grupo olha os boletins com cara admirada, mas não acha graça.

Mas se a máquina de votar decepciona, se a rotina eleitoral é semelhante à nossa, o sistema de apuração é realmente maravilhoso. Dizem que a apuração é tôda feita por cérebros eletrônicos e tem que ser assim mesmo, para garantir tal rapidez com tão imensa quantidade de votos e computar. (Votaram êste ano nos Estados Unidos mais ou menos 70 milhões de leitores - o equivalente ou pouco menos da população total do Brasil). Antes da meia-noite já se sabe quem é o vencedor, no dia seguinte já está tudo liquidado.

Novamente se concentra todo o mundo diante da TV para acompanhar os resultados. Êste ano as estações de televisão americanas se reuniram e, em vez de haver concorrência e disputa, trabalharam em equipe, cada grupo encarregado de um determinado setor do território. Foi uma cobertura perfeita, impressionante. Logo nas primeiras contagens publicadas via-se que o Presidente ganhava, disparado. E às dez horas da noite já era certo que Lyndon B. Johnson continuava na Casa Branca, não mais cumprindo o resto de mandato do môço assassinado em Dallas, mas com mandato seu, próprio, novinho em fôlha.

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