O
feitiço contra o feiticeiro
Zé Arigó
na prisão
Texto
de JOSÉ FRANCO - Fotos de LUIZ ALFREDO
“O
curandeirismo é punido para se resguardar a incolumidade
pública. O indivíduo que, sem ser médico, faz
a determinação de uma doença ou enfermidade
pelos sintomas; que, sem ser médico, faz operações;
que, dizendo-se um “aparelho”
de um espírito, em transe, receita ou opera, ou fornece “garrafadas”,
“raízes
de mato”;
que usa “passes”,
atitudes, posturas, palavras, rezas, encomendações,
benzeções, esconjuros, ou qualquer outro meio para
facilitar partos, curar a tosse rebelde, mordeduras de cobra, câncer,
debelar a febre, tuberculose, hemorragia, espinhela caída,
catarata, surdez etc. - êsse cidadão representa um
tremendo perigo para a saúde de um indeterminado número
de pessoas, cuja tutela incumbe, inquestionàvelmente, ao
Estado.”
Dito isto, o escrivão Osório, da Comarca de Congonhas
do Campo, prosseguiu a leitura da sentença do Juiz Márcio
Aristeu Monteiro de Barros, informando ao réu, “Ze
Arigó”,
a pena de dezesseis meses de prisão que lhe foi imposta pelo
crime de curandeirismo, figura delituosa que é prevista no
art. 284 do Código Penal Brasileiro.
SEXTA-FEIRA,
20, a notícia curta mas incisiva, transmitida pelas estações
de rádio e televisão, deve ter traumatizado milhares
de pessoas em todo o País: José Pedro de Freitas,
“Zé
Arigó”,
conhecido até no exterior por suas aparentes curas mediúnicas,
fôra condenado a cumprir pena no xadrez de Conselheiro Lafaiete,
Minas Gerais. Essa era a segunda vez que o conhecido "medium"
enfrentava a Justiça. Pelo mesmo delito já havia sido
condenado (e indultado pelo Presidente Kubitschek) em 1956. A sentença,
proferida naquela tarde de sexta-feira, colheu de surprêsa
os habitantes de Congonhas, onde Arigó, modesto funcionário
público, é estimado e admirado por muitos. Êle,
porém, recebeu resignado a notícia desfavorável.
Afirma-se convencido de que cumpre na Terra uma missão sobrenatural:
“Agora
vou ter muito tempo para ler o Evangelho”
- disse, a caminho da prisão.
Desde a audiência de instrução e julgamento,
em vinte e dois de outubro, estava sendo aguardada a sessão
pública durante a qual o magistrado de Congonhas, presentes
as partes, daria publicidade à sentença, condenando
ou absolvendo José Pedro de Freitas, denunciado pelo Conselho
Regional de Medicina da Associação Médica de
Minas Gerais. Esperava-se a fixação do dia da audiência,
quando o advogado de Arigó, Professor Jair Leonardo Lopes,
foi surpreendido pela informação, extra-oficial, de
que seu cliente havia sido condenado. Contra o “mago”
de Congonhas - cidade que se transformou, nestes últimos
dez anos, na meca de doentes das mais distantes origens - já
havia sido encaminhado à Delegacia de Vigilância mandado
de prisão. O patrono de José Pedro de Freitas dirigiu-se,
imediatamente, àquela cidade, onde nem mesmo o acusado e
seus familiares sabiam da decisão. Arigó voltava do
seu sítio vestindo, como de seu hábito, calça
e camisa-esporte, quando foi informado da sentença. Dispôs-se
a se apresentar ao Juiz, o que fêz em seguida. A poucos passos
de sua residência, dez minutos mais tarde, Arigó subia
as escadas do Fôro, em companhia do pai, Sr. Antônio
de Freitas, e de seu filho Tarcísio. Populares aproximaram-se,
perguntando: “Que
aconteceu?”
À
chegada do Juiz, instantes depois, disse-lhe o defensor do “medium”:
“Meritíssimo,
tomando conhecimento de que meu cliente foi condenado, e sendo certo
que não quer êle fugir à ação
da Justiça, aqui está para apresentar-se a Vossa Excelência!”
Após
a prolongada leitura da sentença, que ocupava várias
páginas datilografadas em espaço dois, o réu
levantou-se e agradeceu ao Juiz e ao Promotor Marcelo José
de Paula. Nessa altura, já havia gente chorando no recinto
do tribunal. Parentes e amigos do réu. A emoção
redobrou, quando uma tia de Arigó, entrando na sala de audiências,
bradou em pranto convulsivo: “Conforme-se,
meu filho, porque até Jesus foi condenado!”
Como a delegacia de Congonhas não dispõe de veículo
para conduzir presos, Arigó foi para o xadrez dirigindo seu
jipe, acompanhado por dois soldados da Fôrça Pública
e pelos filhos e irmãos (êle tem seis filhos). O jipe
era seguido por numerosos automóveis, cujas buzinas soavam
lùgubremente, expressando a fé de alguns adeptos nos
misteriosos podêres do “medium”,
os quais, para seu infortúnio, não bastaram para comover
a Justiça.
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