 Poetas
estrábicos - um olho em Londres, outro em São
Paulo - têm cantado esta cidade em toda a gamma do cinzento.
Vêem cinza neste céo de redoma que guarda a fuligem
dos bairros trabalhadores, cinza nesta garôa bohemia,
cinza nestes asphaltos e nestas pedras, cinza nestes telhados
de ardosia, cinza nestes cerebros tristes. Cinza: côr
do tédio, côr do spleen. E concluem:
São Paulo é melancólico. É Bugres,
em cujos canaes de nenuphares doentes Rodembach cantou e morreu
como um cysne...
Mas
- ah! - o ponto de vista desses Jeremias daltonicos do Parnaso
é baixo demais para estas colinas historicas espetadas
de fura-céos. Pégaso, que elles cavalgam quando
querem descortinar, julgar e lamentar, está velho e
pesado: o seu vôo parnasiano não passa da primeira
cornija de granito da cathedral gothica... Se, em vez do cansado
Bucephalo alado, tivessem a coragem e o espirito de domar
um avião, e, principalmente, se não fossem assim
tão vesgos, ao olharem, lá de cima, de uma altura
sufficientemente moderna, a sua cidade cá embaixo,
de certo mudariam de opinião. E se possível
a um sêr timido e rachitico ficar alegre a 800 metros
de altura, teriam os bons hypocondriacos um sorriso claro
de satisfação. Curados do seu daltonismo e da
sua neurasthenia, ficariam sabendo que São Paulo não
é cinzento: São Paulo é vermelho. De
um vermelho fôsco de tijôlo.
A
cidade que constróe uma casa de duas em duas horas,
a cidade que se estende e se avoluma e sóbe, num record
assombros, a capital da terra rôxa, veste, para os olhos
limpos e entendidos que sabem vêr, uma “toilette”
que Lanvin ou Vionnet descreveriam assim: “Vestido
de esporte em Jersey ‘brique
dégradé’,
cinco tons...”
“Brique”
- côr de construcção. Côr dos cubos
de terra cosida que se apinham, das telhas acolhedoras que
se imbricam, dos vergões que o progresso abre nas glébas
uteis, da poeira que erguem na estrada as modernas bandeiras
de tractores e caminhões... Côr activa do trabalho,
côr alegre de construcção. Côr com
que o sol edifica o dia e fabrica a noite. Tijôlo -
côr de São Paulo... |