O Rio de Janeiro de 1950
 
Officiellement mon cher Pimenta, tu n’as rien vu, disse-me Agache após ter feito passar ante meus olhos todos os desenhos, projectos, perspectivas e maquettes, de cujo emmaranhado surge, pouco a pouco, a visão maravilhosa do Rio de Janeiro de amanhã.

Agache e o nosso Prefeito temiam que um plano ainda em simples delineamento, exposto a uma opinião pública ainda não bem preparada, fosse mal apreciado.

Contradictei porém ambos com tal ardor ou taes argumentos que, cansados ou convencidos, elle calarams-e sorrindo.

E quem sorri não desapprova.

Cedi pois, sem constrangimento, ao pedido dos diretores da Cruzeiro para transmitir a impressão que trouxe daquella visita ao Rio de Janeiro de 1950, ao Rio de Janeiro de nossos filhos e nossos netos.

Indubitavelmente o plano geral de transformação e desenvolvimento de nossa cidade, projectado para ser concluído dentro de 30 a 50 anos, constituirá um forte e nobre élo entre a geração de hoje e as gerações vindouras, encadeando os sentimentos da nacionalidade, desenvolvendo a consciencia social do povo, fortalecendo enfim a alma brasileira.

Lendo as plantas e contemplando o grande esboço que encerra a concepção geral do novo Rio de Janeiro, senti que Alfred Agache havia compreendido bem as possibilidade formidaveis de progresso de nosso paiz.

Indiscutivel, com effeito, é que o Brasil será dentro de 10 ou 20 annos a mais populosa nação latina do mundo; e como é extenso o seu territorio e enormes as suas riquezas, facil e prever o alento novo que aqui receberá a raça e as fortes e elevadas affirmações de valor que aqui ella dará.

A confiança que o povo brasileiro tem no porvir não nasce portanto da fantasia ou do sentimentalismo senão que se alicerça na razão, nos factos, nos ensinamentos da Historia, na analyse do passado.

É mesmo uma fé do que uma previsão scientifica.

Previsão scientifica, realmente, deve ser o plano de transformação de desenvolvimento de uma cidade.

Eis porque o projecto em elaboração cogita já das ligações que um dia terão de ser feitas entre o Rio e Nictheroy, entre o Rio e a Ilha do Governador, ligações intelligentemente articuladas, que com as avenidas largas, verdadeiras arterias, que se estenderão até aos suburbios extremos da cidade e as grandes ruas que communicarão os arrabaldes e bairros entre si.

Não falta grandiosidade e belleza nessa obra gerada com notavel senso pratico e exacta compreensão das realidades.

Sabe-se aliás que a funcção característica do urbanista é conjugar as necessidades materiaes da cidade com as exigencias superiores da intelligencia.

Alfred Agache conseguiu plenamente tal objectivo no traçado de transformação de nossa Capital.

Não descerei às descripções minuciosas, detalhadas, que pouco interessam.

Deixo de preferencia ao leitor, na nevoa de algumas palavras, um campo aberto á imaginação, ao sonho, ao ideal que é o início de todas as realizações.

O Rio de Janeiro terá majestade e harmonia pela singular expressão artística com que no novo plano são resolvidos todos os seus problemas urbanos.

Em frente á barra da Guanabara, no terreno que se conquistará ao mar pela rectificação do incongruente sacco da Glória, ficará a praça monumental - vestibulo sumptuoso da cidade - reservado ao desembarque das grandes personalidades que aqui aportarem e naturalmente destinado ás manifestações, comicios e demonstrações do povo por se tornar o logradouro de maior area e o principal centro da metropole.

Maravilha de architectura, banhada na luz de projectores occultos, esta praça terá a forma de U retangular com a abertura voltada para o Oceano, descortinando e ao mesmo tempo compondo as mais variadas e encantadoras perspectivas.

Tomando o centro da linha do fundo, a avenida Rio Branco dahi partirá, imponente, com exacto prolongamento do eixo da praça.

Integrar-se-á destarte nossa principal via publica na sua funcção definitiva de entrada nobre da cidade.

Quero que o leitor tenha a visão, embora rapida e fugaz, do futuro Rio de Janeiro, da inegualavel cidade que entrevi nos desenhos e nas palavras de Alfred. Agache, tal como os contemporaneos de Haussmann ante-gozaram nos projectos deste a magnifica realidade que é o Paris de hoje.

Uma nova e larguissima rua, formada pelo prolongamento do actual canal do Mangue, cortará perpendicularmente a Avenida Rio Branco, indo até ao mar, no cáes da antiga Alfandega. E se estenderá no seu sentido opposto, transpondo, sempre com a mesma largura, os bairros e suburbios que ficam além da Praça da Bandeira, para penetrar nas regiões aonde a cidade, livre do contraforte das montanhas e da barreira do mar, rapidamente se despeja e se desenvolve.

Essa rua passará deante da Estação Monumental a se construir nas proximidades da Praça da Bandeira, e que colherá, em um só feixe, todas as estradas de ferro que servem ao Rio: Auxiliar, Rio dOuro, Leopoldina e Central do Brasil.

Será a mais larga, a mais longa e mais movimentada avenida de nossa Capital, rasgada do mar até á zona dos suburbios, pondo assim estes em communicação directa com o centro da cidade.

Correndo quasi parallelamente é actual Avenida Mem de Sá, e prolongando-se além desta uma outra ampla e bella avenida virá entroncar-se com a precedente, no ponto fronteiro á referida Estação Monumental.

Receberá deste modo o centro ferroviario uma via publica de grande proporção, ligando-o aos bairros de Botafogo, Leme, Copacabana, Ipanema, Gavea e Laranjeiras.

Encurtando as distancias entre os bairros, varias outras ruas serão abertas, algumas transpondo pequenos tunneis ou cortando fraldas de montanhas, inteiramente desimpedidas para o trafego rapido e frequentemente offerecendo seductores aspectos da privilegiada natureza que é o orgulho e a alegria de nossa gente.

Vencendo a rotina, sujeitando a architectura ás imposições e caprichos da moderna sciencia de construir, expandindo emfim livremente um anhelo de progresso e de perfeição, de conforto e de arte, Agache valeu-se da area devoluta resultante do desmonte do Castello para ensaiar um systema de urbanização original que consubstancia as idéias mais adeantadas e mais logicas das tendencias actuaes.

O arrojo da composição ha de ferir certamente a sensibilidade dos que não foram ainda tocados pelo espirito novo da arte.

Estou certo porém de que, realizado o projecto, felizmente já officialmente approvado, aquella zona da cidade dará aos seus visitantes a verificação material de que a cidade que ali se creou não foi obra do acaso, producto do empirismo, mas sim que obedeceu aos desejos da intelligencia, ás aspirações do sentimento e, principalmente, ás razões da utilidade.

Não cuidarei de esmiuçar o traçado, já conhecido do público, e que pertence ao typo monumental do haussmannismo.

Interesse maior tem porém o systema adoptado para as edificações, onde o problema dos arranha-céos encontrou solução interessante e justa.

Cada bloco de construcção receberá na peripheria, isto é, nas faces voltadas para as ruas que o limitam, edifícios de altura uniforme de 22 metros. Mas no interior do bloco, na area vasia fechada pela orla desses edificios, serão admittidos arranha-céos, com altura de 80 metros, dispostos de modo a formarem espaços livres - verdadeiras praças internas - destinada ao estacionamento de automoveis.

As vias publicas terão pois o trafego inteiramente desimpedido, sem o as pecto de garage que offerecem as actuaes ruas centraes, atravancadas de vehículos parados, em abandono.

Considerando o sol causticante e as intemperies que castigam as cidades tropicaes como a nossa, os passeios além de espaçosos, com 7 metros de largura, serão cobertos em forma de galeria como os passeios da cidade de Turim e da rua Rivoli, de Paris.

De quando em quando, atravessará essas galerias uma passagem para acesso ás praças centraes onde se erguem os edifícios gigantes.

Apreciando essa concepção de Agache, através da maquette em gesso metalizado que a materializa, senti nalma um anseio de viver, que não era senão o desejo de gozar a majestade sem igual, a belleza sem par, o conforto sem falhas que offerecerá aquelle recanto da cidade, aquella area conquistada com o sacrificio do historico morro do Castello, mas dignificada pelo genio da raça latina em uma obra realizada pela vontade do povo brasileiro.

Sob a scentelha desse enthusiasmo, passei o olhar pelo esboço geral do plano de remodelação do Rio, esboço que ocupa a mais larga parede da sala de trabalhos do urbanista Agache.

Pude então fitar a imagem, indecisa e fugitiva, mas insuperavel e magnifica, do futuro Rio de Janeiro.

Desembaraçada do morro de Santo Antonio, polypo que lhe difficulta a respiração, kysto que lhe enfeia a physionomia, reconheci as mesmas ruas, os mesmos bairros, as mesmas tradições da cidade; mas sobre o intrincado destas obras, sem desrespeito ao passado, sem desdem pelo sentimento brasileiro, havia o traço do progresso, a confiança em um grande destino, traduzida pela trama das novas avenidas, ruas e boulevards, cuja connexão inteligente estimulava a vida e a expansão de nossa capital e cuja expressão de beleza honrava a moldura inconfundivel e esplendida com que Deus presenteou a terra carioca para a alegria e felicidade de seus habitantes.

Mas o Rio de Janeiro de amanhã será tambem o recreio e a ventura dos forasteiros que desejem nutrir o espírito e encher o coração.

Será o grande orgulho do Brasil e a mais linda metropole do mundo.

O Cruzeiro on line é um trabalho de preservação histórica do site Memória Viva