História de beata

A gente, de noite, com insônia, tem uma idéia. Aliás, não é bem isso, porque a idéia não brota de repente na nossa cabeça, resulta de velhas lembranças, conceitos, problemas, conflitos, imaginações que você ruminava desde anos e que naquela noite se viram numa idéia organizada em figuras e palavras. Nesta noite em que falo, a minha idéia deu corpo a um tema que me interessara sempre, que eu já tentara mais de uma vez em outras experiências e em diferentes situações: – o comportamento da criatura que a si se considera excepcional (que se considera um santo, por exemplo), posta dentro da correnteza de paixões e conflitos em que se debatem os outros mortais – ou não-santos. Tomei como ponto de partida uma velha lenda cristã (Santa Maria Egipcíaca) que sempre me invocara, e que depois de posta em balada por Manuel Bandeira – o Bardo grande entre todos, – tomara formas de fascinante beleza e crescera mais na sua sedução misteriosa.

Amanhecido o dia, passadas outras noites, amanhecidos outros dias, começou o trabalho de levar ao papel o drama da Santa. Fixara-me numa Maria Egipcíaca nordestina, uma daquelas beatas de hábito de freira que outrora pululavam pelo Cariri; dei-lhe o nome de Maria do Egito – única analogia direta que permiti com a santa verdadeira; criada pelos penitentes da Serra de Mombaça, devota do Padre Cícero, a quem pretende socorrer com um grupo de romeiros, quando os soldados rebelistas cercam a cidade santa do Juàzeiro. Prêsa em caminho, ela tal como a santa, vê-se obrigada a lançar mão do corpo, fazer o sacrifício da sua pureza, a fim de obter passagem livre, na sua cega marcha para a terra santa. Mas isso sem participação e sem pecado – a paixão do homem e suas obras passando por ela como o sol pela vidraça. Êsse o tema que me fascinou. Consegui dizer o que êle me fazia sentir? Francamente, não sei. As mais das vêzes receio que não, pois, como exclamava o homem do sonêto, a palavra pesada abafa a idéia leve e o pássaro de asas sôltas com que você sonhava, pôsto no papel, reduzido a tôscas palavras, vira bicho rasteiro incapaz de vôo.

Em todo caso, diferente do que acontece com um simples livro, que passa apenas por duas etapas para se realizar – o ser escrito e o ser publicado – uma peça teatral tem destino muito mais complexo. Escrita, posta em livro, viveu apenas uma metade do seu destino, e não a principal das duas metades; porque a sua vida verdadeira só começa depois da chamada prova de palco, quando o drama escrito sobe à ribalta, e gente de carne e osso encarna as personagens imaginadas, e o mistério cênico transforma em realidade as sombras, os diálogos, os gestos que você apenas indicara no papel, dando-lhes substância, presença viva. A comparação é sediça, mas funciona: enquanto está no papel, a peça é apenas a lagarta, quando muito a crisálida. Só vai criar asas e côres e tomar força de vôo e enfrentar a luz, depois que o palco a transforma em borboleta.

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Tudo isso vem como uma explicação antecipada, talvez um elaborado e prévio pedido de perdão. Porque na primeira quinzena de outubro, aqui no Rio, no Teatro Serrador, Edmundo Moniz, diretor do Serviço Nacional de Teatro, e Agostinho Olavo, diretor do Teatro Nacional de Comédia, iniciam a sua temporada com a minha Beata Maria do Egito. Quatro excelentes intérpretes dividem os papéis da peça: Glauce Rocha na Beata, Sebastião Vasconcelos no Tenente-Delegado, Jayme Costa no Coronel-Chefe-Político, Rodolfo Arena no Cabo-Ordenança. A direção é de José Maria Monteiro, o cenário e trajes de Belá Pais Leme. – Como vêem, o draminha tem, para a sua estréia, o melhor do melhor. Se fracassar, a culpa não será da produção, da direção, da cenarista nem dos intérpretes, – mas das fraquezas do texto e da pequena capacidade da autora. Minha esperança é que, posta a funcionar no palco, a Beata se liberte de mim e das minhas limitações e tire fôrça da participação dos outros, que tanto têm para dar. E assim veremos se voa mesmo, se rompe o seu casulo, a minha obscura lagarta da Serra da Mombaça, filha longínqua do Flos Sanctorum da minha avó, de uma balada de Manuel, lembrança de figuras vistas na infância. Santa frustrada, irmã rejeitada de cangaceiros e fanáticos, – por ela peço passagem e imploro complacência.

 

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