Lunik II: fuga para o futuro

De acôrdo com o programa de estudo do espaço cósmico e a preparação aos vôos interplanetários, no dia 12 de setembro de 1959 foi realizado, com sucesso, pela segunda vez, o lançamento de um foguete cósmico no sentido da Lua, a 11,2 quilômetros por segundo, dessa vez para atingi-la – assim dizia, em sua abertura, o comunicado da Agência Tass, distribuído para todo o mundo e que representa, também, um documento da maravilhosa história da conquista do espaço pelo homem.

Desde 1957, quando os soviéticos lançaram sôbre o telhado do mundo o seu primeiro Sputnik, o homem disparou na corrida sideral. Aquêle dia foi, na verdade, o marco inicial de uma maratona científica entre a Rússia e os Estados Unidos, em busca de quem chegaria primeiro à Lua. Mais aperfeiçoados nos seus conhecimentos sôbre foguetes interplanetários, os soviéticos assinalaram um segundo feito, quando conseguiram fazer chegar, ao nosso satélite, um engenho preparado pelos mestres da Academia de Ciências da URSS. Londres, minutos após o grande acontecimento, classificou, pela palavra de seus sábios, como maravilhosa, a façanha dos cientistas russos. Também nos Estados Unidos, o Lunik II foi recebido com entusiasmo. O próprio presidente Eisenhower teve expressões de admiração. Menos o vice-presidente Nixon, que declarou: Nada prova ter o foguete atingido a Lua. Dos grandes nomes de responsabilidade, foi de Nixon a única restrição. Restrição e dúvida. Em contrapartida, alguns cientistas argentinos chegaram a afirmar que assistiram, através das poderosas lentes dos seus telescópios, ao impacto do Lunik II com o solo lunar.

Silêncio eterno reina sôbre a Lua. A atmosfera é de tal forma rarefeita, que não é capaz de transmitir o som. Não se conhece o crepúsculo nem a aurora. O dia e a noite tombam de um só golpe, sem transição. As condições físicas da Lua não se prestam à vida. Entretanto, pode possuir alguma forma de organismos inferiores, resistentes. O viajante lunar deve vestir um costume especial, um escafandro, que o protegerá contra a fraca atmosfera da Lua. Se um de nós entrar na sombra projetada por uma elevação lunar, ficará totalmente invisível para outro companheiro que esteja ao lado, mas fora dessa sombra. Na Lua, o céu parecerá inteiramente negro, sem o romântico fundo azul que vemos da Terra. O Sol brilha sem que uma nuvem obscureça a luz vermelha de sua cromosfera. Êle permanece no horizonte durante quase duas semanas – e desaparece por igual período. Vista da Lua, a Terra é uma esfera azulada e brilhante, ocupando no céu uma superfície 13,7 vêzes maior do que a Lua nos parece. Somos gigantes, para o satélite. Isto só para um lado da Lua, porque a Terra é completamente invisível à sua outra face: a Lua está sempre de um só lado para a Terra. Recentemente, numa das mais estudadas crateras da Lua, a Alphonse, foi observada uma espécie de fumaça, que poderia traduzir a existência de um vulcão. Uma corrente de cientistas acredita que haja água na Lua, mas a grande profundidade. E, como defesa aos possíveis organismo vivos lá existentes, houve o cuidado de esterilizar tôda a última etapa do Lunik II, destinada a alunissar. Não quiseram os homens de Ciência que bactérias e vírus da Terra fôssem contaminar um ambiente livre dêsse tipo terrestre de inimigos. Novas investidas serão realizadas, agora com o homem muito distante da época do sonho, quando ir à Lua era canto de ninar. Razão teve o velho Jean Cocteau quando, ao comentar em Paris a viagem do Lunik II, disse: Não compreendo nada. Mas que é maravilhoso, é.

 

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