Os
arquivos implacáveis apresentam:
Filho de peixe, peixinho é...
Texto
de JOÃO CONDÉ Fotos
de WALTER LUIZ
Paloma,
a menor romancista do Brasil
Identidade
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nome é Paloma. Se não me conhece, devo dizer que
nasci em 19 de agôsto de 1951. Curso, como tôda menina
de minha idade, o segundo ano da Escola Marechal Trompowski. Mas
se quiserem saber mesmo a respeito de dança, devo dizer
que aprendo “ballet”
na Academia de Ballet Leda Yuqui. Mas não tenho muito jeito...
Gosto muito de dançar.
E, mais ainda do que a dança, adoro ouvir histórias.
Minhas
preferências
Fico doida quando ouço
histórias. Meu pai inventa uma porção delas
e nunca são parecidas. No fim de cada uma, pergunto sempre:
- É verdade?
Não me responde. Admirar
mesmo, eu só admiro o meu irmão João. Ele
é o tal. Mas também já é muito velho.
Imagine que já tem 11 anos de idade. Para mim, João
é o maior poeta do mundo. Os versos que êle faz são
infernais. Quando me fazem uma pergunta muito difícil vou
logo dizendo:
- Eu não sei não, mas João sabe.
Quem
sou eu?
Tentei imitar o meu irmão
durante muito tempo, mas não consegui nada: essa história
de rima é difícil pra chuchu, andei espiando os
livros de meu pai e acho que êsse negócio de prosa
é muito mais fácil. Se meu pai tem tantos livros
escritos, eu vou escrever muito mais. Não custa nada, e
escrever é muito bom.
A
obra
Hoje mesmo acabei de escrever
um livro. É muito bonito. João também gostou
muito. Seu nome é: O SOLDADO QUE AMOU A PESSOA QUE NÃO
O QUIS. É muito triste. Querem ver um trecho? Aqui está:
“Era
uma vez um pobre soldado que gostava de uma moça loura
chamada Bruna.
Ela era boa, bonita e era artista. Pois já tinha sido namorada
do soldado. Brigaram.
O soldado se chamava Henrique. Êle implorava para que se
casasse com ela.
............................................................................
-
Mas como vou fazer para que goste de mim só porque sou
soldado e ela é artista de cinema? Vou falar com ela.
- Não adianta pedir, Henrique, eu estou de mal com você,
porque você perdeu a guerra contra o Japão.
- É. Mas vai ter outra guerra e nós vamos ganhar,
Bruna.
- Está bem, vamos esperar até esta guerra e se você
não ganhar eu vou ficar zangada com você.
Mas Bruna não gostava de Henrique. Gostava um pouco. Henrique
a adorava. Mas que fazer se não tinha paciência de
esperar até a guerra. Não podia; estava impaciente.
Que posso fazer se Bruna não gosta de mim”.
Notas
de um diário
- Só mostrei em casa o
meu romance depois que ficou pronto. Acho que ninguém gostou,
mas eu e João gostamos. Puxa, êle disse que é
melhor do que o de papai.
Minha
professôra, Dona Léa, também gostou muito.
E me disse: “Menina,
você vai longe”.
Ela começou a passar o meu romance a limpo. Amanhã
já vou escrever um novo romance. Estou com êle todo
na minha cabeça. Vai-se chamar MARIA SEREIA DO MAR. Tem
uma história bem bonita. Veja só um pouquinho do
enrêdo:
“-
Era uma sereaizinha que tinha vontade de conhecer a terra e para
isso procurou uma feiticeira. A feiticeira então disse
que só atendia o seu pedido com a condição
de ela cumprir três tarefas:
1ª) conseguir a escama do
peixe dourado;
2ª) conseguir a ponta da
espada do peixe-espada;
3ª)
tapar o buraco do esguicho da baleia-monstro”.
E tenho ainda outro livro que
se vai chamar A POMBINHA BRANCA QUE FUGIU DE PARIS.
Nota
do redator
Agora fala o redator desta seção:
Paloma,
filha do romancista Jorge Amado, é uma bela criança
de cabelos castanhos e olhar brejeiro. É muito viva e alegre.
Gosta de brincar com suas bonecas, dançar, ir ao banho
de mar e acha o Arquiteto Oscar Niemeyer um sujeito bacana que
sabe fazer umas casas de brinquedo (maquetas) infernais. Nasceu
em Praga, mas foi registrada como brasileira. É, de coração,
pernambucana. Até hoje, com seus oito anos de idade, escreveu
duas obras – e diz que vai escrever muito mais. Nós
acreditamos. E em testemunho de nossa crença, devemos afirmar
que a filha do grande romancista, sem ser aluna muito aplicada,
acompanha o curso com facilidade, se bem que seus cadernos deixem
muito a desejar quanto à limpeza... Sua matéria
predileta é a Matemática. Neste terreno ela não
faz por menos: tira sempre 100. O redator espera, Paloma, que
você cumpra sua promessa: tire sempre 100, escrevendo romances
e imaginando figuras tão imortais quanto a “Gabriela”,
inventada por seu pai, mais velho de idade e mais pobre de imaginação
do que você, pequena, graciosa e grande Paloma.