Engatilhando capa preta e “lourdinha” verbal – 2 mil ditongos pipocantes por minuto – o Deputado Tenório Cavalcanti, legítima reencarnação tupiniquim de um Zola incendiário, acampa na praça pública destas páginas. É desta tribuna livre que êle deita seu verbo áspero à Nação. É dêste púlpito que joga as suas provas, apresenta as suas testemunhas, fazendo ferver a cólera dos que advogam cadeia para Bandeira, liberdade para os verdadeiros criminosos do bancário. Os que ficam do lado de lá, temendo a espada vocal ou escrita de Tenório, teimam em ignorar os elementos de grande poder incendiário que êle estrutura, a cada novo capítulo de sua denúncia. Os que negam Tenório pedem provas e esquecem, no mesmo instante, o jôrro de testemunhas que encurralam Joventino, situando-o como um dos gatilhos principais do crime. Nesta mesma edição, Tenório comparece com 3 depoimentos fortes, ausentes dos autos do processo. Sustenta o Deputado que os seus elementos – só os que até agora apareceram – têm mais força indiciária do que os 3 quilos de mentiras do processo de Bandeira. Maior impacto terão, quando Romeiro Neto, em aceitando o convite que lhe fêz Tenório, mas que partiu da própria voz cansada de Bandeira, concordar com a sua volta ao processo. O velho leão de tantas pugnas memoráveis, armado com as provas de Tenório, voltará à carga. E, desta vez, para provar o que sempre afirma? “O Sacopã é uma vergonha para a Justiça brasileira”.
 
Texto de Ubiratan de Lemos   -   Fotos de Indalécio Wanderley

O mistério, que esta ladeira guardou sete anos,
está sendo desvendado por Tenório Cavalcanti

O DOCEIRO Otacílio Martins é uma testemunha velha do processo. É o único fato que não é novo, aqui, e que o Deputado Tenório Cavalcanti só aborda porque Otacílio não foi bem aproveitado nos autos do processo. O que êle viu é de grande interêsse para o esclarecimento do crime. Otacílio prestou depoimento na Polícia Técnica, e o que êle conta a Tenório é a repetição do que afirmou, na Polícia. Como os leitores devem estar lembrados, o doceiro Otacílio Martins foi o homem que viu o Citroen negro estacionado na ladeira do Sacopã. Em conversa com o Deputado Tenório Cavalcanti, êle repassa os acontecimentos inesquecíveis de que foi testemunha, naquele dia sangrento de abril de 1952. Mal sabia que o seu depoimento seria de boa valia para esclarecer a mecânica do crime. Homem simples, fala com desembaraço e nada esconde. Está disposto a contribuir, na medida do possível, para a total restauração da verdade. Aguarda mesmo, que a Justiça reabra o processo, pois irá depor e repetir as informações que transmitiu ao Deputado Tenório Cavalcanti.

Vamos ao diálogo:

Tenório: - Fale, Otacílio, fale sôbre tudo o que você sabe.

Otacílio: - Deputado, minha casa, no morro, fica a 200 metros do local onde o Citroen foi por mim encontrado, na manhã do dia 7 de abril. Mais ou menos por volta das 11.30 horas da noite, do dia do crime, eu e o meu garôto subíamos, a pé, a ladeira do Sacopã. Chegávamos tarde, assim, porque havíamos visitado uma irmã minha, que mora no subúrbio. Pois ao subir a ladeira, vi uma camioneta Dodge, que estava estacionada a uns 50 ou 60 metros do local onde, depois, apareceu o Citroen com o cadáver de Afrânio no seu interior. O fato chamou a minha atenção, porque não havia casal dentro do carro, o que seria normalíssimo naquele local. Havia, apenas, um homem. Êste, quando me viu, passou para o outro lado do assento, de modo a ocultar-se de mim. Como o terreno é ladeira, do ponto em que estava pude observar que só havia aquêle homem dentro da Dodge, e se êle se escondia dos meus olhos, era por algum motivo qualquer. Pensei que se tratasse de roubo de automóvel. Assim foi que, discretamente, tomei nota da chapa da Dodge, como apurei a vista para decorar a fisionomia do único passageiro do carro. Êsses fatos, Sr. Deputado, eu os contei aos policiais da Polícia Técnica. Inclusive que, cinco minutos após eu ter visto a Dodge, já quando mal chegava em casa, ouvi o ruído de um carro. Ouvi a porta bater. Estava então longe de supor que era o Citroen. Só no dia seguinte, pela manhã, dei com o carro de Afrânio. Quando fui telefonar para a Polícia, observei a chegada de um guarda, que tomou providências.

Tenório: - A Polícia descobriu quem era o homem da Dodge?

Otacílio: - Descobriu, Deputado. Era um certo Nilton Pedro Gomes.

Tenório: - Como êle explicou a sua presença naquele local, sòzinho?

Otacílio: - Êle me desmentiu, Deputado. Disse que estava namorando. Ora, eu olhei bem para o interior do carro, olhei num ângulo de cima para baixo, e não havia nenhuma mulher lá dentro. Posso garantir que êle estava mesmo sòzinho.

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Ubiratan (para Tenório): - Qual a importância capital desta testemunha, Deputado? Por que ela não foi bem aproveitada nos autos?

Tenório: - Eis como penso, na base do que sei: o plano dos criminosos era o de arrastar Afrânio para o local onde o carro foi encontrado. Mas arrastá-lo vivo, palpitante. Então, naquele local êrmo, à noite, Afrânio seria assassinado, por gente que se ocultava no mato. O crime passaria como assalto; uma versão persuasiva. Era muito razoável que Afrânio, profissional do romance, estivesse com alguém nos braços, quando seria atacado por gatunos. Lembro, a propósito, a presença de uma corda e de lenços no Citroen. E até de um saco. Veja, Ubiratan, se isto não faz sentido. Mas acontece que Afrânio chegou cadáver, ou quase morto. Havia reagido e a sua reação precipitou os fatos. Tudo isto deixou de ser apurado, apenas porque o testemunho de Otacílio Martins não foi considerado com seriedade pela Polícia. Otacílio levaria as autoridades para o verdadeiro norte da verdade.

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