O
mistério, que esta ladeira guardou sete anos,
está sendo desvendado por Tenório Cavalcanti
O
DOCEIRO Otacílio Martins é uma testemunha velha do
processo. É o único fato que não é novo,
aqui, e que o Deputado Tenório Cavalcanti só aborda
porque Otacílio não foi bem aproveitado nos autos
do processo. O que êle viu é de grande interêsse
para o esclarecimento do crime. Otacílio prestou depoimento
na Polícia Técnica, e o que êle conta a Tenório
é a repetição do que afirmou, na Polícia.
Como os leitores devem estar lembrados, o doceiro Otacílio
Martins foi o homem que viu o Citroen negro estacionado na ladeira
do Sacopã. Em conversa com o Deputado Tenório Cavalcanti,
êle repassa os acontecimentos inesquecíveis de que
foi testemunha, naquele dia sangrento de abril de 1952. Mal sabia
que o seu depoimento seria de boa valia para esclarecer a mecânica
do crime. Homem simples, fala com desembaraço e nada esconde.
Está disposto a contribuir, na medida do possível,
para a total restauração da verdade. Aguarda mesmo,
que a Justiça reabra o processo, pois irá depor e
repetir as informações que transmitiu ao Deputado
Tenório Cavalcanti.
Vamos ao diálogo:
Tenório:
- Fale, Otacílio, fale sôbre tudo o que você
sabe.
Otacílio:
- Deputado, minha casa, no morro, fica a 200 metros do local onde
o Citroen foi por mim encontrado, na manhã do dia 7 de abril.
Mais ou menos por volta das 11.30 horas da noite, do dia do crime,
eu e o meu garôto subíamos, a pé, a ladeira
do Sacopã. Chegávamos tarde, assim, porque havíamos
visitado uma irmã minha, que mora no subúrbio. Pois
ao subir a ladeira, vi uma camioneta “Dodge”,
que estava estacionada a uns 50 ou 60 metros do local onde, depois,
apareceu o Citroen com o cadáver de Afrânio no seu
interior. O fato chamou a minha atenção, porque não
havia casal dentro do carro, o que seria normalíssimo naquele
local. Havia, apenas, um homem. Êste, quando me viu, passou
para o outro lado do assento, de modo a ocultar-se de mim. Como
o terreno é ladeira, do ponto em que estava pude observar
que só havia aquêle homem dentro da “Dodge”,
e se êle se escondia dos meus olhos, era por algum motivo
qualquer. Pensei que se tratasse de roubo de automóvel. Assim
foi que, discretamente, tomei nota da chapa da “Dodge”,
como apurei a vista para decorar a fisionomia do único passageiro
do carro. Êsses fatos, Sr. Deputado, eu os contei aos policiais
da Polícia Técnica. Inclusive que, cinco minutos após
eu ter visto a “Dodge”,
já quando mal chegava em casa, ouvi o ruído de um
carro. Ouvi a porta bater. Estava então longe de supor que
era o Citroen. Só no dia seguinte, pela manhã, dei
com o carro de Afrânio. Quando fui telefonar para a Polícia,
observei a chegada de um guarda, que tomou providências.
Tenório:
- A Polícia descobriu quem era o homem da “Dodge”?
Otacílio:
- Descobriu, Deputado. Era um certo Nilton Pedro Gomes.
Tenório:
- Como êle explicou a sua presença naquele local, sòzinho?
Otacílio:
- Êle me desmentiu, Deputado. Disse que estava namorando.
Ora, eu olhei bem para o interior do carro, olhei num ângulo
de cima para baixo, e não havia nenhuma mulher lá
dentro. Posso garantir que êle estava mesmo sòzinho.
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Ubiratan
(para Tenório): - Qual a importância capital desta
testemunha, Deputado? Por que ela não foi bem aproveitada
nos autos?
Tenório:
- Eis como penso, na base do que sei: o plano dos criminosos era
o de arrastar Afrânio para o local onde o carro foi encontrado.
Mas arrastá-lo vivo, palpitante. Então, naquele local
êrmo, à noite, Afrânio seria assassinado, por
gente que se ocultava no mato. O crime passaria como assalto; uma
versão persuasiva. Era muito razoável que Afrânio,
profissional do romance, estivesse com alguém nos braços,
quando seria atacado por gatunos. Lembro, a propósito, a
presença de uma corda e de lenços no Citroen. E até
de um saco. Veja, Ubiratan, se isto não faz sentido. Mas
acontece que Afrânio chegou cadáver, ou quase morto.
Havia reagido e a sua reação precipitou os fatos.
Tudo isto deixou de ser apurado, apenas porque o testemunho de Otacílio
Martins não foi considerado com seriedade pela Polícia.
Otacílio levaria as autoridades para o verdadeiro norte da
verdade.
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