Depoimentos
de Magalhães, Adhemar, Lacerda e Juscelino
sôbre a vitória da Revolução
MAGALHÃES
O
Governador Magalhães Pinto, de Minas Gerais, liderou o grande
movimento político-militar em defesa do regime democrático.
Sem perder a serenidade um só momento, o dirigente udenista
manteve o clima emocional, a união de Minas e a decisão
de conquistar a vitória. Quando ela foi conquistada, declarou
com exclusividade para “O Cruzeiro”:
O
movimento restaurador da legalidade, que Minas tomou a iniciativa
e a responsabilidade de desencadear, com o apoio de todos os brasileiros,
em breve estará concluído com a formação
de um Govêrno em condições de promover a paz,
o desenvolvimento nacional e a justiça social. Belo Horizonte,
2 de abril de 1964.
ADHEMAR
O
Governador Adhemar de Barros em entrevista exclusiva cedida a “O
Cruzeiro”
– a primeira desde a eclosão do movimento armado contra
o govêrno do Sr. João Goulart –, disse que dará
combate sem trégua aos comunistas, caçando-os onde
estiverem, em qualquer ponto do território nacional. Visìvelmente
eufórico, apesar do cansaço de muitas horas sem dormir,
o Sr. Adhemar de Barros começou dizendo que o movimento revolucionário
por êle comandado em São Paulo começou na noite
de 31 de março de março, “para
valer”.
–
Quando vocês todos estavam dormindo, sonhando com a liberdade,
nós já mandávamos os primeiros comunistas para
a Casa de Detenção.
E
frisou:
–
Mas à velha Casa de Detenção, pois não
têm mais direito nem à cadeia nova.
“A
Polícia de São Paulo”
– continuou – “agiu
com absoluta segurança, colaborando com o General Amaury
Kruel, que desde o início estava integrado no nosso esquema
de libertação nacional. Naquela altura, eu e mais
seis governadores de Estado (Minas, Rio Grande do Sul, Santa Catarina,
Guanabara, Mato Grosso e Paraná) já tínhamos
pronto o decreto de beligerância que iria instaurar o primeiro
govêrno brasileiro. Eu próprio redigi o manifesto que
ainda se encontra em meu poder. Queria com isso comunicar ao Mundo
que no Brasil ainda havia líderes realmente democratas que
não toleram o jôgo vermelho.
“O
Brasil retornará agora à sua política internacional
de apoio incondicional ao Ocidente. À sua política
de livre iniciativa. Abandonamos o tripé instalado pelo Goulart.
Tripé apoiado em órgãos espúrios como
CGT, UNE, PAC, PUA e outros. No govêrno dele mandavam os pelegos,
os estudantes vermelhos, os camponeses doutrinados e os escravos
de Moscou.
“Agora,
caçaremos os comunistas por todos os lados do País.
Mandaremos mais de 2 000 agentes comunistas – numa verdadeira
Arca de Noé – para uma viagem de turismo à Rússia.
Mas uma viagem que não terá volta. Que falem em democracia,
agora, na Rússia.
“Não
deporemos armas enquanto não expulsarmos tôda a canalha
vermelha. Caçaremos os mandatos de todos os parlamentares,
governadores e prefeitos comunistas. Não mais permitiremos
a infiltração no nosso meio, pois não podemos
nos reerguer enquanto tivermos comunistas em nossos alicerces. Não
aceito acôrdo de espécie alguma com comunistas.
“Êles
jamais quiseram reforma de base. O que êles queriam era fazer
delas escudo para a reforma da Constituição. Mas nós
não o permitimos. Agora terminou tudo. O Presidente Mazzilli
vai revogar todos os decretos espúrios (SUPRA, aluguéis,
encampações etc.). A SUPRA é uma entidade comunista.
“Nós
começamos em 60 muito mal (refere-se a Jânio) mas,
graças à Virgem Maria, dois jotas nós já
conseguimos derrotar. Agora só falta o terceiro (JK), que
sempre foi o principal conselheiro de Jango. Quando êste procurava
o caminho democrático, êle colocava lenha na fogueira.
Os três jotas estavam unidos para derrotar a Democracia.
“Voltamos
ao poder para pacificar. Não quero nada. Apenas a democracia
autêntica, sem receber ordens de Moscou.
“Vamos
começar imediatamente o expurgo dos comunistas. Darcy Ribeiro,
Jurema, Valdir Pires, Ryff, Pinheiro Neto, Eloy Dutra e outros canalhas.”
Finalizando
disse: “Goulart
bolchevizou a família brasileira. Mandou mais de 11 mil estudantes
paulistas fazerem cursos comunistas na Rússia. Agora, vou
mandar os comunistas falar em liberdade em Moscou”.
LACERDA
Antes,
durante e depois da crise, o Governador Lacerda estêve no
centro dos acontecimentos. E, como é de seu feitio, pronunciou-se
diversas vêzes com a maior veemência. Na tarde do dia
1º de abril, anunciando ao povo a vitória das fôrças
comandadas pelo General Olímpio Mourão Filho, o Governador
da Guanabara fêz declarações através
do rádio, declarações que constituem verdadeira
súmula do que êle dissera até então.
Depois
de se dirigir às donas de casa, pedindo-lhes que se mantivessem
calmas, o Governador passou a analisar o Sr. João Goulart,
seu Govêrno e as causas que determinaram a necessidade do
seu afastamento. “De
herdeiro de alguns hectares de terra, transformou-se, em poucos
anos, em proprietário de mais de 550 mil hectares –
uma área igual a quatro vêzes e meia o território
da Guanabara.”
E
prosseguiu: “Associado
do Sr. Wilson Fadul (que por isso foi ser Ministro da Saúde,
e não porque seja um cientista), em quatro anos, com dinheiro
do Banco do Brasil, e com dinheiro cuja origem não explica,
o Sr. João Goulart transformou-se num dos homens mais ricos
dêste País, com três bois por hectare em suas
fazendas”.
“O
Sr. João Goulart é um leviano que nunca estudou –
e não estudou porque não quis, não é
porque não pôde. E agora, no Govêrno do País,
queria levar-nos ao comunismo.”
Explicando
que discordara da investidura do Sr. João Goulart na Presidência
da República, mas terminara aceitando-a, disse o Governador
Lacerda: “Eu
o conhecia bem. Mas, como bom democrata, submeti-me à vontade
da maioria, quando entrou em vigor a fórmula do Parlamentarismo.
Mas o Sr. João Goulart não queria governar. Adulava,
de dia, os trabalhadores que condenava ao desemprêgo, de noite.
O Sr. João Goulart jurou fidelidade ao Parlamentarismo, para
logo em seguida impor o plebiscito, e todo o povo votou. Eu não
votei porque achava que o plebiscito era uma palhaçada, e
repito que era”.
“Quem
quiser fazer reformas deve ter a honestidade de dizer que as fará
sem reformar a Constituição. Há necessidades
de se fazer reformas, e eu acho que se pode fazer isso sem se mexer
na Constituição. Mas o Sr. João Goulart não
queria isso. Montou um dispositivo sindical nos moldes fascistas,
com dinheiro do Ministério do Trabalho, dinheiro roubado
do impôsto sindical, roubado do salário dos trabalhadores,
para pagar as manifestações de banderinhas e as farras
dos homens do Ministério do Trabalho.”
“Ao
mesmo tempo, começou a criar dificuldades para a Imprensa,
para os jornais, para o rádio e a televisão, iniciando
um processo de escravização dos homens livres que
fazem a imprensa do nosso País. Depois de criar as dificuldades,
o Sr. João Goulart oferecia-se para resolvê-las, enquanto
dava curso ao processo de entreguismo do Brasil à Rússia.
O Sr. João Goulart foi o maior entreguista que já
teve êste país.”
Continuando
seu discurso, acusou o ex-Presidente Goulart de iniciar o solapamento
da autoridade militar, entregando os comandos militares a gente
sem prestígio nas Fôrças Armadas. “O
desprestígio”
– disse Lacerda – “atingiu
a todos os setores do Govêrno, os Ministérios Civis
e a própria Casa Civil da Presidência, onde estava
Darcy Ribeiro, um instrutor de tupi-guarani, que acabou reitor da
Universidade de Brasília sem jamais ter sido professor”.
Dizendo
que os brasileiros honrados que votaram em João Goulart não
tinham dado seu voto ao comunismo (“portanto
Jango enganou o povo”),
Lacerda fêz referências elogiosas aos Generais Castelo
Branco e Mourão Filho, atacando em seguida o Almirante Aragão
(“sem condições
para ser almirante”),
e aludindo ao Cabo José Anselmo: “A
Marinha é tão ruim que um cabo pode ser estudante
de Direito. Em nenhuma Marinha do Mundo, nem nos Estados Unidos,
nem na Rússia – um cabo tem tempo para estudar Direito.
E o Sr. João Goulart acobertou, patrocinou, estimulou tôda
essa gente, jogando marinheiro contra soldado, farda contra farda,
classe contra classe, brasileiro contra brasileiro”.
“Assim,
não era possível que Marinha, Aeronáutica e
Exército suportassem mais tamanha impostura e tamanha carga
de traição.”
E concluiu: “Deus
é bom. Deus teve pena do povo”.
JUSCELINO
Dizendo
que a legalidade é anticomunista mas não é
antipopular, o ex-Presidente Juscelino Kubitschek, candidato do
PSD ao Palácio do Planalto em 1965, afirmou em entrevista
exclusiva a “O Cruzeiro” que a hora é de grandeza
democrática, e que o Brasil precisa de reformas contra os
privilégios e contra os extremismos. A palavra do líder
que estêve, também, no centro dos últimos acontecimentos
é decisiva para o desarmamento dos espíritos, agora
que o País volta à paz e ao trabalho.
É
com o pensamento voltado para Deus, grato à sua proteção
ao Brasil e ao seu povo, que saúdo a nossa gente pela restauração
da paz, com legalidade, com disciplina e com a hierarquia restauradas
nas Fôrças Armadas.
No
auge da crise, quando era próxima a possibilidade de derramamento
do generoso sangue brasileiro, o apêlo à paz, com legalidade,
disciplina e hierarquia, tinha de ser ouvido. E foi ouvido. A paz
está mantida. A legalidade engrandecida. A disciplina e a
hierarquia rejuvenescidas.
Mas
do que nunca o Brasil precisa de paz: nos espíritos e nos
corações. A mente clara, para pensar sem ódios
e sem rancores. A convalescença terá de ser curta,
sem radicalizações e sem ressentimento. Não
manteremos a paz da Democracia representativa com sentimentos de
vingança e rancores condenáveis.
A
hora é de grandeza democrática. De grandeza da própria
Democracia. De volta à rota do progresso pela criação
da riqueza e da multiplicação das oportunidades de
viver melhor. Sem progresso não haverá liberdade para
alcançar a justa distribuição da riqueza. Continuaremos
a socializar o escasso.
A
paz não exclui, todavia, a vigilância democrática.
O perigo comunista não estava, como se viu, no comportamento
do povo e dos trabalhadores, ordeiros e democratas. O perigo comunista
estava na infiltração em comandos administrativos.
A
vigilância democrática não significa, porém,
a oficialização em qualquer ponto do território
nacional do liberticídio, do desrespeito às liberdades
individuais e associativas. E muito menos daquelas liberdades que
mais de perto se relacionam com as aspirações populares
e com os direitos associativos, com os sindicatos libertados de
influências políticas de cúpula.
A
legalidade é anticomunista, mas não é antipopular.
A legalidade democrática deverá estar aberta, em todos
os seus canais de comunicação, ao livre curso dos
debates.
A
legalidade democrática abre também a possibilidade
de recolocar o problema das reformas de base. As reformas realmente
democráticas, dentro da ordem social e econômica. Reformas
que elevem o padrão de vida do povo, nos campos e nas cidades,
significando socialização da riqueza, com a preservação
integral do princípio da propriedade privada, que cumpre
estender e generalizar, dando prioridade aos que nada possuem.
Não
temos dúvida em afirmar que a Democracia só será
consolidada e enriquecida com a conquista permanente da devoção
popular.
A
legalidade democrática nos conduzirá às eleições.
Será a continuidade do regime, já restaurado com a
posse, pelo Congresso, do meu eminente companheiro de partido, o
Presidente Ranieri Mazzilli. O ritual democrático está
firme. É preciso, agora, que os fins que êle simboliza
sejam realizados pela ação dos brasileiros lúcidos
e tolerantes.
O
Brasil das reformas é o Brasil democrático, contra
privilégios e contra extremismos. É o Brasil sem frustrações.
Esperançoso, rico e mais justo.
|