Saber
ganhar
AGORA,
êles sabem que a sua espada não é de pau, meu
velho Capitão, e eu volto o pensamento até aquêle
quarto da casa paulista, onde as suas mãos trêmulas
escreviam a história dêste país, dizendo-me:
“Péter
plus haut que son cul”.
AGORA, êles sabem
que a sua doença democrática só tinha êste
remédio. Deputado João Calmon, quando você,
na sua admirável teimosia, recusava todo e qualquer acôrdo
e desfraldava a bandeira suicida. Se teríamos que morrer
vergonhosamente amanhã, que morrêssemos com honra,
hoje.
AGORA, êles
sabem que as suas palavras não eram simples filigranas verbais,
Governador Carlos Lacerda, homem afirmativo, líder másculo,
democrata autêntico, brasileiro enlouquecido de amor à
sua Pátria - e que se desesperava ao vê-la conduzida
ao curral das nações arrebanhadas. Meses a fio, exposto
na primeira linha, combatente de vanguarda, sabendo que a cada esquina
um nôvo perigo o esperava, você, meu bravo companheiro,
só teve um guarda-costas: Deus. O capanga divino, que com
a sua infinita sabedoria enguiçava o carro do Faz-Tudo, iluminava
o espírito dos coronéis, cobria de lucidez a decisão
dos pára-quedistas, evitara a sua eliminação,
o caminho aberto, supunham êles, para a fácil conquista
de um resto de Pátria. Mas êles estavam enganados,
sempre estiveram enganados, continuam enganados. Nenhum de nós
era essencial, qualquer de nós, bem ou mal, seria substituído,
mesmo você, grande e insubstituível Carlos Lacerda.
Não se matam idéias.
AGORA, êles sabem
que a sua intransigência democrática, jovem Adhemar
de Barros, môço governador de uma terra indomável,
agora êles sabem que a fé o rejuvenesceu, o espírito
de luta o retemperou, e você, môço Adhemar, sejam
quais forem os erros do passado, a todos redimiu na bravura de sua
última jornada. Mil vêzes você, com todos os
pecados, Adhemar, diabo velho! Mil vêzes você que aquêle
falso honrado, Jânio Quadros, até agora escondido debaixo
da cama, à espera de que a última cidadela se renda,
que o último homem se defina. Ah, tivéssemos nós
ensarilhado as armas, tivéssemos nós tido piedade
dos canalhas, tivéssemos nós permitido com o nosso
silêncio que êles voltassem - e quem se encontraria,
agora, no govêrno de São Paulo? A cachaça cívica,
o fauno de Adelaide, o entreguista Jânio Quadros, responsável
primeiro pela guinada do Brasil para o Oriente, aliado dos comunistas,
traidor de sua Pátria. Graças a Deus, à Providência
de que nos fala Adhemar, como o instrumento divino, foi buscar no
museu dos canastrões, o canastrão maior - você,
velho, passado, cansado, desonrado, reabilitado, contestado, enquartejado,
encarcerado, processado, libertado, envergonhado, ressuscitado,
reabilitado - e agora numa demais exaltado Adhemar de Barros. A
História, se alguma verdade houve no balanço dos seus
erros, a História o passou por seu banheiro carrapaticida.
E o futuro o julgará pela importância de sua luta na
redemocratização de sua Pátria.
AGORA, êles sabem
que a sua coragem não se conta pelos fios de cabelo, ó
indecifrável Magalhães Pinto, mineiro silencioso,
patriota humilde, general sem farda de um dos movimentos mais perfeitos
da história revolucionária. O Brasil nunca se esquecerá
que o primeiro grito foi seu, o primeiro gesto de um ballet inesquecível,
o primeiro passo da longa marcha democrática.
AGORA êles sabem
que os três anos de silêncio do General Mourão
não significavam três anos de capitulação,
mas três anos de conspiração, três anos
de prudência, três anos de silêncio - para o grande
despertar da nacionalidade. Alguns generais que pareciam anestesiados
- hoje o sabemos - estavam apenas de vigília. Luiz Guedes,
Castello Branco, Costa e Silva, Décio Escobar, Correia de
Melo, tantos generais, tantos brigadeiros, tantos almirantes jurados
na intransigente defesa da democracia brasileira.
AGORA, êles sabem
que aquelas medalhas exibidas pelo General Amaury Kruel não
eram de lata nem foram conquistadas noutro campo que não
fosse o de honra. Êles sabem, meu bravo Kruel, que, acima
de sua fidelidade a um homem, você colocava a lealdade à
sua Pátria ameaçada por um bando de canibais políticos.
SABÍAMOS, todos
que estávamos na lista negra dos apátridas - que se
êles consumassem os seus planos, seríamos mortos. Sôbre
os democratas brasileiros não pairava a mais leve esperança,
se vencidos. Uma razzia de sangue, vermelha como êles, atravessaria
o Brasil de ponta a ponta, liquidando os últimos soldados
da democracia, os últimos paisanos da liberdade. Onde estaria
Carlos Lacerda a esta hora? Onde estariam Adhemar, Calmon, Armando
Falcão, Castello Branco, Mourão, Gustavo Borges, Anísio
Rocha, Alkimin, Magalhães Pinto, Ney Braga, Costa e Silva,
Décio Escobar, tantas, tantas vozes e tantas espadas que
não se calaram, não se embainharam em todos êsses
longos meses da comunização do Brasil? Se outros fôssem
os vencedores, não haveria contemplação.
A VIRTUDE da democracia
está em saber ganhar. Em seu nome, em nome da Democracia,
não se pode permitir que a injustiça se pratique em
nome da Justiça, que sejam anulados, sem processo legal,
os mandatos populares, que a Constituição seja rasgada
em nome da Constituição.
TODOS sabem o desprêzo
vegetariano que voto a certos homens fistulizados que compunham
o cerne dêsse Govêrno que caiu. Mas - advertiu na sua
cristalinidade política o próprio Governador da Guanabara
- um democrata autêntico não odeia um homem, odeia
uma idéia. Odeia, não a figura ridícula de
um Ministro comendo feijoada e bebericando enquanto a lama corria
sob os pés de um regime vilipendiado. Odeia, não os
gestos febris de um adolescente político saído de
uma taba espiritual para a Casa Civil da Presidência. Odeia,
não aquelas figuras tenebrosas do CGT, aquêles pobres
moços ensandecidos da UNE, aquêles sargentos equivocados,
mas tudo o que a idéia que êles defendiam, honesta
ou estùpidamente, representava.
NÃO é
porque eram criminosos, que em criminosos vamos nos transformar.
Não é porque representavam o totalitarismo, a radicalização,
o que de mais vergonhoso, mais sórdido, mais brutal e mais
brasileiro pudesse existir no Brasil que devemos nós, os
democratas, pedir-lhes as armas e as usar com a mesma ausência
de liberalidade democrática. O que nos diferencia dêles
é justamente isto. O mesmo que diferencia a carniça
que êles são do abutre que não somos.
NÃO significa
que os criminosos não devam ser punidos nem os responsáveis
irresponsabilizados. Significa que cada um pague pelo que fêz,
não pelo que foi. Ninguém tem culpa de ter sido Ministro
de um Govêrno legalmente eleito, constitucionalmente organizado.
Ninguém tem culpa de ter sido Ministro de João Goulart,
nem mesmo o Senhor Abelardo Jurema.
O QUE me enoja não
é ver os ratos fugirem do navio que se afunda, mas aquêles
que ontem lhes comiam a comida, ajudar a matá-los.
PARTE o Senhor João
Goulart para Pôrto Alegre, para o Uruguai, para a Espanha,
sem o meu ódio. Nunca consegui odiá-lo — e até
hoje —- permita-se a um adversário de suas idéias
e de seus métodos confessar após o crepúsculo
de um deus que tinha os pés de barro — não o
consigo odiar. Vejo-o ainda, no seu pequeno trono do Alvorada, como
um pobre homem, incapaz de governar, de distinguir amigos de aproveitadores,
inimigos de oponentes.
CAIU porque em seu
espírito engarrafado pela mediocridade mais positiva dêste
País, nunca deixou de existir o estancieiro que contava os
aliados como quem conta o gado no curral.
CAIU porque acreditou
que aquêles que lhe faziam planos de continuísmo, acenando
com o poder sindical, com o dispositivo militar, acreditavam no
que diziam. E lutariam por tudo aquilo que o Senhor João
Goulart acreditava. Mas o Senhor João Goulart não
acreditava realmente em nada. A não ser na sua boa estrêla,
que era a estrêla vermelha.
RECUSO-ME a pisar
sôbre os cadáveres morais dêsses homens sôbre
os quais, com o risco da própria vida, dentro das limitações
que me eram impostas por uma organização que êles
ameaçavam destroçar, tantas vêzes caminhei pela
estrada que nos conduzia ao imprevisto de um fim melancólico
ou de uma liberdade sonhada.
NÃO será
em nome dessa liberdade conquistada que iremos tripudiar sôbre
os vencidos. Aquêles que eram comunistas, continuarão
a sê-lo, talvez com menos esperança. Aquêles
que eram os pobres enganados dessa República — talvez
abram os olhos, os vencedores não procederem com a mesma
fúria, o mesmo despotismo, a mesma insensibilidade daqueles
que nem por isto deixaram de ser brasileiros e possivelmente democratas
equivocados. A compreensão e a justiça talvez os ajudem
a abrir os olhos.
WILSON FIGUEIREDO conta
que, em plena ocupação do velho órgão
da Condêssa, um fuzileiro pediu para telefonar para a mulher
a quem não via há três dias de longa e sofrida
prontidão. Não apenas deixaram o invasor telefonar,
mas serviram um cafezinho bem brasileiro. Nesse momento, também,
o Brasil estava voltando a ser brasileiro.
POIS é esse
cafezinho brasileiro que devemos servir aos que erraram por acreditar
demais ou erraram por acreditar de menos. Respeitemos as suas famílias,
as suas idéias falsas, e apuremos apenas os seus possíveis
crimes. A menos que voltem a ser inimigos, a se constituírem
em vírus vivos —- os inimigos vencidos deixam de ter
nomes.

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