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O
SENHOR João Goulart perdeu o jôgo no momento
em que, abandonando a tática da conciliação
política, que prevaleceu nos dois primeiros anos
de seu govêrno, preferiu comandar ostensivamente
o esquema da esquerda radical que tinha numa entidade
juridicamente ilegal, o Comando Geral dos Trabalhadores,
o centro de suas atividades revolucionárias.
Chegando ao Poder pela sua extraordinária habilidade
política, usada principalmente no amaciamento
dos impulsos revolucionários do seu cunhado Leonel
Brizola e de uma paciente e longa viagem da Ásia
a Pôrto Alegre quando ganhou tempo para assumir
de modo pacífico a Presidência vaga com
a renúncia de Jânio, o Sr. João
Goulart passou a estruturar um dispositivo de segurança
baseado em alguns oficiais de sua confiança pessoal.
Êsse
dispositivo teve que ser revisto mais de uma vez. As
contingências do regime parlamentarista obrigaram
o Presidente Goulart a manter no Ministério da
Guerra o General Nelson de Melo, notòriamente
anticomunista. Derrubado o sistema parlamentar de govêrno,
através de uma intensa pressão política,
sindical e militar, pôde, então, o Sr.
João Goulart preparar o caminho para sua futura
aliança total com as esquerdas.
A Marinha e a Aeronáutica passaram a ter, a partir
do primeiro ano de govêrno presidencialista, comandos
fiéis ao Presidente. O Ministério da Guerra
foi entregue, então, ao General Amaury Kruel,
amigo pessoal do Presidente mas oficial tão anticomunista
quanto o seu antecessor na Pasta. O Sr. Leonel Brizola
iniciou, então, e vitoriosamente, uma intensa
campanha, pelo rádio e televisão, contra
a permanência de Kruel no comando-geral do Exército.
O General legalista Jair Dantas Ribeiro foi convocado
para assumir o Ministério da Guerra. Construiu,
então, um esquema militar inteiramente legalista
e anticomunista, substituindo mais de cem comandos em
todo o território nacional. Para manter, porém,
um dispositivo militar esquerdista, fiel às reformas
econômicas que propunha e à sua futura
aliança com a esquerda, o Sr. João Goulart
levou para a chefia de seu gabinete militar o General
Assis Brasil. Aí começou a estruturação
de uma ampla frente esquerdista, política, sindical
e militar, sob a orientação política
da Casa Militar da Presidência.
A um ano e meio das eleições presidenciais
o Senhor João Goulart recusava-se a conversar
sôbre a sua sucessão. O Sr. Juscelino Kubitschek,
que seria o candidato natural do esquema governista,
teve seu nome sumàriamente vetado pelas fôrças
esquerdistas mais radicais, que obedeciam ao comando
do Deputado Leonel Brizola. Deu-se o esvaziamento da
candidatura Kubitschek e o crescimento da candidatura
Lacerda, na área oposta.
As lideranças políticas, inclusive as
mais próximas do Presidente Goulart, passaram
a desconfiar das intenções continuístas
do chefe trabalhista. O PSD não lhe dava cobertura
parlamentar para as reformas. A UND liderava, no Congresso,
a anti-reforma. Estruturava-se, assim, um dispositivo
de defesa do regime democrático, que os principais
partidos e vários governadores comandados por
Adhemar e Lacerda puseram a funcionar inicialmente na
área puramente política para, mais tarde,
ganhar a consciência e o apoio das Fôrças
Armadas.
O Govêrno fêz várias tentativas de
contenção dêsse dispositivo oposicionista.
Mal aconselhado tanto política quanto militarmente,
o Sr. João Goulart contava, apenas, com apoios
populares, suportes sindicais e sua intuição
e habilidade política para sobreviver. A inflação
se agravava, desmoronavam-se os planos administrativos
do Govêrno. Necessário que o Presidente
apressasse sua aliança com as esquerdas, passasse
a comandá-las ostensivamente a fim de ocupar
o espaço de tempo, os dois meses que separavam
a primeira quinzena de março da oficialização
da candidatura Lacerda, já marcada para princípios
de abril. Com a candidatura Kubitschek já lançada
pelo PSD, restava ao Sr. João Goulart fazer a
sua opção: ou marcharia com ela, ou concentraria
seus esforços para a esquematização
de uma candidatura esquerdista com tintas democráticas.
Êle desprezou a solução eleitoral
e decidiu romper a barreira da conciliação
política, indo ao encontro das lideranças
identificadas com o pensamento marxista.
Estaria absolutamente convencido o Presidente Goulart
de contar com apoios militares para essa jogada? Estaria
certo que as fôrças militares dariam cobertura,
ao menos parcial, às teses defendidas pela esquerda
radical e comunistas no palanque armado em frente ao
Ministério da Guerra no dia 13 de março?
O simples fato da presença do General Jair Dantas
Ribeiro naquele palanque não autorizava a ninguém
a acreditar que Exército, Marinha e Aeronáutica
estavam solidárias com a nova posição
do Presidente da República.
A partir do comício do dia 13 radicalizaram-se
as posições políticas e as Fôrças
Armadas começaram a sensibilizar-se. O Decreto
de desapropriações de terras, o do tabelamento
dos aluguéis, o de encampação de
refinarias de petróleo foram os dados menos importantes
na crise que se armava. Para exercer a sua autoridade
de Presidente da República e para tomar medidas
administrativas até mesmo reformistas, o Sr.
João Goulart contava, ao menos aparentemente,
com a cobertura militar do esquema montado pelo Ministro
Jair Dantas Ribeiro. Mas o próprio Ministro confessava,
em conversas confidenciais, que não teria condições
para mobilizar seus comandos no sentido de prestigiar
uma solução golpista para o problema sucessório,
nem de esquerda, nem de direita.
Na realidade - verificou-se mais tarde - O Presidente
Goulart não tinha estruturado um dispositivo
militar de esquerda, capaz de prestigiar sua aliança
com os revolucionários. Se estava mal-informado
pela sua assessoria militar chefiada pelo General Assis
Brasil, não se sabe. Se agiu conscientemente,
certo de que contaria com a cobertura popular para a
sua ação, só êle poderá
responder.
A verdade é que, a partir do momento em que consolidou
sua liderança esquerdista, o Senhor João
Goulart foi radicalizando sua posição
política e arrastou suas teses para os quartéis.
Do outro lado, as fôrças oposicionistas
passaram da tática política para a estratégia
militar. Construiu-se, ràpidamente um poderoso
dispositivo militar inicialmente defensivo, para evitar
que o CGT, a UNE, a Frente Parlamentar Nacionalista,
os Comandos do Deputado Brizola, o Governador Miguel
Arraes - o esquema da esquerda radical - pudessem dar
solução prática às teses
revolucionárias que defendiam.
De um lado, o Sr. João Goulart estimulou a reação
de sargentos e praças, soldados e marinheiros
à política tradicional das Fôrças
Armadas, provocando um clima de indisciplina que se
generalizou na Marinha sob a orientação
do Almirante Aragão. A insubordinação
de marinheiros e fuzileiros navais, e a solução
dada pelo Presidente à crise na Armada, fazendo
o Almirante Aragão retornar ao comando dos fuzileiros,
pondo no Ministério um almirante identificado
com o marxismo e designando o Almirante Suzano para
o Estado-Maior - já encontravam, do outro lado,
uma poderosa aliança de governadores do Centro-Sul,
com cobertura militar do II Exército do General
Kruel.
Há mais de dois meses que essa aliança
estava sendo esquematizada. Ney Braga aderiu a ela quando
da visita do Governador Lacerda a Curitiba. Adhemar,
Lacerda e Meneghetti já estavam entendidos. Faltava
a adesão de Magalhães Pinto. O próprio
Lacerda a obteve, entregando ao Governador mineiro o
comando-geral das fôrças democráticas.
Mato Grosso e Goiás foram adesões que
se fizeram naturalmente, devido à situação
geográfica dos dois Estados centrais e da posição
ideológica de seus governadores.
Quando o Governador Adhemar de Barros afirmava que tinha
condições de reagir à investida
esquerdista, não estava blefando. Quando os dirigentes
da esquerda radical afirmavam que a revolução
estava ganha e êles já se aproximavam do
Poder, estavam mentindo. Não contavam as esquerdas
com a opinião pública, e o esquema adversário
era tremendamente mais poderoso.
O choque pareceu inevitável no momento em que
o Presidente João Goulart resolveu tornar irreversível
sua posição de comandante de um esquema
mal estruturado, e baseado tão-sòmente
na sua liderança popular e nas falsas lideranças
sindicais comunistas. Quando falou a sargentos e marinheiros,
no dia 30 de março, atacando seus adversários
e mantendo sua determinação de ir mais
adiante nos seus propósitos, o Sr. João
Goulart fêz, definitivamente, sua opção.
Preferiu contar com as fôrças populares
que esperava se rebelassem em todo o País para
enfrentar a reação política e militar
ao seu nôvo govêrno, à quebra da
hierarquia nas Fôrças Armadas e ao poder
sindical representado no CGT.
Essas fôrças, porém, não
foram suficientes para manter o Sr. João Goulart
no Poder e garantir a sobrevivência de seu esquema
político. Muito mais poderosas do que elas, melhor
articuladas, e com apoio da opinião pública
do principais Estados do País, eram as fôrças
contrárias.
O Sr. João Goulart marchou, então, para
a luta, consciente de que contava ao menos com os trabalhadores
mobilizados pelos sindicatos e com a lealdade dos chefes
militares à autoridade do Presidente da República.
Mas os sindicatos falharam totalmente na mobilização
das massas operárias, e os chefes militares viram-se
na contingência - cruel para êles - de sacrificar
o mandato do Chefe da Nação para evitar
a desagregação das Fôrças
Armadas, a tomada do Poder pelo esquema esquerdista
radical e, quem sabe, a guerra civil no País.
O General Kruel não desejava a deposição
do Presidente. O General Jair nunca a desejou. Nem o
General Âncora, nem o General Castelo Branco .
O Comandante do II Exército chegou a sugerir
ao Presidente, no momento em que suas fôrças
se preparavam para marchar sôbre o Rio, que desarticulasse
o sistema esquerdista, fechasse o CGT, normalizasse
a situação na Marinha e êle, Goulart,
contaria com o apoio das Fôrças Armadas.
Mas o Presidente disse não. Não sacrificaria
seus aliados, frase que repetiria, mais tarde ao Ministro
Jair Dantas Ribeiro, quando êste lhe fêz
idêntico apêlo. Estava o Presidente diante
de uma opção que lhe era colocada pela
quase totalidade das Fôrças Armadas: ou
desarticularia o dispositivo de esquerda que passara
a comandar, ou os generais teriam que tomar posição
para defender a integridade do regime democrático
que juraram defender.
Conscientemente, o Sr. João Goulart marchou para
o sacrifício. Não recuou um passo, quando
poderia ter declarado a ilegalidade do CGT, reformado
o comando da Marinha e mantido a prisão do Almirante
Aragão, decretada pelo Ministro Silvio Mota.
E quando já se esperava o choque das fôrças
do II Exército com as tropas da Vila Militar,
que se mantinham fiéis ao Presidente, o General
Jair - recusado o apêlo que fêz ao Sr. João
Goulart - renunciou ao pôsto, deixando ao Estado
Maior do Exército a decisão suprema. O
Presidente pensou em resistir, mas nunca na Guanabara,
onde os comandos militares agiam com extraordinária
rapidez na mobilização de tropas e no
encaminhamento de uma solução política
para a crise.
Não tendo renunciado ao pôsto nos momentos
decisivos da crise, o Presidente quis que se caracterizasse
a sua deposição. Escolheu o seu caminho,
quando teve todas as condições para contornar
a crise no seu primeiro instante. Trocou o seu mandato
pela liderança popular que espera exercer na
faixa revolucionária que o Sr. Brizola ocupou
sòzinho nos dois últimos anos.
ADIRSON DE BARROS |