Prima
do currador revela:
Ronaldo além de tarado é ladrão
Texto
de ARLINDO SILVA - Fotos de GERALDO VIOLA

Na
Bahia, Mariza Eneider Castro, prima de Ronaldo Guilherme de Souza
Castro, atendendo a um brado de consciência, aparece e resolve
contar o que o matador de Aída Cúri é na
realidade. Um tarado, que a submeteu a vexames várias vêzes
e que além de tudo e ladrão. Mas o Sr. Edgard Castro,
“com o
seu dinheiro farto, vai comprando Deus e o mundo”,
e encobrindo as mil e uma peripécias do filho desvairado.
Inconformada com o júri que absolveu o tarado currador,
Mariza diz: “Sinto-me
culpada por não haver declarado antes o que declaro agora”.
Acrescentou que nada revelou a pedido dos pais de Ronaldo. Entre
outros fatos, Mariza conta, agora, que Ronaldo Guilherme, certa
vez, em Vitória do Espírito Santo, pretendeu entregá-la
por 20 mil cruzeiros a um indivíduo conhecido por “Mãozinha”.
Dez mil cruzeiros seriam para êle, Ronaldo Castro, os outros
dez para ela.
DURANTE o
segundo julgamento de Ronaldo, o Advogado Romeiro Neto perguntou
ao Médico-legista Mário Martins Rodrigues, que depunha
em plenário, se certas lesões encontradas nos seios
de Aída Cúri eram marcas de dente ou não.
O legista respondeu que, como na época surgissem dúvidas,
foi chamado o Prof. Raimundo Rodrigues, perito-odontólogo
da Faculdade Nacional de Odontologia, que fêz os exames
técnicos nas lesões suspeitas.
- “E pôde-se
afirmar precisamente o que eram tais lesões?”
- indagou Romeiro Neto.
- “Positivamente,
que não houve ação de dentes”
- declarou o médico-legista.
Voltando-se
para a platéia, Romeiro Neto sorriu, cheio de satisfação,
com aquêle sorriso já tão sovado e tão
manjado. Entretanto, a verdadeira história dessas marcas
de dente nos seios de Aída deve ser contada de outra maneira.
Certa manhã o Prof. Raimundo Rodrigues foi solicitado a
comparecer ao Instituto Médico-Legal, onde o corpo de Aída
Cúri estava sendo autopsiado pelo Dr. Mário Martins
Rodrigues. Pretendia-se saber se as lesões existentes em
ambos os seios da vítima eram dentadas ou não. Eram
equimoses em forma de arco com interrupções, dando
a impressão de marcas de dente. Na parte inferior dêsses
arcos havia um sinal puntiforme, uma pequena ferida provàvelmente
provocada por instrumento aguçado - talvez uma afiada prêsa
da arcada inferior. O Odontologista Raimundo Rodrigues examinou
o cadáver de Aída, tirou modelos em gêsso
dos ferimentos dos seios da jovem e fêz os estudos técnicos
periciais necessários. Concluídas as provas em gêsso,
deveria o perito odontologista passar à segunda fase do
seu trabalho: examinar as arcadas dentárias dos matadores
de Aída Cúri. A pedido do Juiz de Menores, Cácio
Murilo foi examinado nos laboratórios da própria
Faculdade Nacional de Odontologia, e o parecer do Prof. Raimundo
Rodrigues foi de que o menor delinqüente não fôra
o autor das possíveis dentadas no busto de Aída.
Afastada a culpabilidade de Cácio Murilo (no caso das dentadas),
restava ao perito examinar as arcadas de Ronaldo Guilherme e as
do porteiro Antônio João. Era preciso averiguar se
os dentes de um dêles, se encaixariam dentro dos vestígios
existentes no corpo de Aída. Entretanto, essa perícia
foi interrompida. Por ordem de quem? Ora. Por deliberação
do augustíssimo senhor doutor juiz Souza Netto. Vale a
pena reproduzir agora um trecho da gravação feita
com êsse juiz por um repórter da Emissora Continental,
logo após a escandalosa sentença de impronúncia,
que pôs em liberdade Ronaldo Guilherme e o porteiro Antônio
João, em fevereiro de 1958. Perguntou o repórter,
naquela ocasião: “Dr.
Souza Netto, por que não foram os réus Ronaldo e
Antônio João submetidos aos exames necessários,
isto é, das extensões papilares, das arcadas dentárias
etc. que provariam o grau de participação dêsses
dois acusados, ora impronunciados?”
Respondeu Souza Netto: “Isso
às vêzes é uma questão para impressionar
o leigo. Ora, se Ronaldo se afastou do edifício às
8.15, conforme prova testemunhal incontroversa existente nos autos,
não interessava para o julgamento de Ronaldo fazer êsses
exames, porque está provado pelo depoimento das testemunhas,
que êle apenas deu um tapa em Aída, não lhe
cravou as unhas, não lhe deu dentadas e não a lançou
ao piso da rua”.
O repórter voltou a perguntar: “Dr.
Souza Netto V. S.ª tem conhecimento de que o acusado Ronaldo
Guilherme teria saído do Presídio do Distrito Federal
e se dirigido ao consultório de um dentista particular
onde teria se submetido a um longo tratamento nas arcadas dentárias?”
O juiz respondeu: “Ronaldo
saiu para um tratamento de dentes. Ignoro se fêz tratamento
das arcadas dentárias”.
Viram bem esta, senhores:o digníssimo senhor doutor juiz
Souza Netto achou que Ronaldo estava inocente na morte de Aída
Cúri e por isso o dispensou dos exames que poderiam ter
comprovado sua participação integral no crime. O
eminentíssimo senhor doutor juiz Souza Netto considerou
que existia “prova
testemunhal incontroversa”
da não participação de Ronaldo no crime,
e por isso não via razão para apurar, por meios
técnicos, o grau de validade dessa prova testemunhal. Afinal,
em que testemunho se apoiou o ilustríssimo senhor doutor
juiz Souza Netto para concluir que Ronaldo deixaria o terraço
do Edifício Rio Nobre às 8.15, fato que o inocentaria
do crime? Ora, baseado nos depoimentos dos próprios curradores!
O honorabilíssimo senhor doutor juiz Souza Netto desprezou
testemunhos de várias pessoas, que afirmam terem visto
Ronaldo ao lado de Aída Cúri passeando pela Rua
Miguel Lemos, depois das 8.15 h., quando o tarado ainda procurava
local para levar sua prêsa. O curador Cordeiro Guerra, que
reduziu a pó a sentença de impronúncia do
iluminadíssimo senhor doutor juiz Souza Netto, define muito
bem a atuação do Presidente do I Tribunal do Júri,
ao decretar a soltura de Ronaldo Guilherme e do porteiro Antônio
João. Disse Cordeiro Guerra, homem que enobrece a Justiça
do Distrito Federal: “Entre
a prova técnica e a palavra suspeita dos acusados, interessados
exclusivamente na própria impunidade, a sentença
desprezou a primeira e se ateve às versões mais
favoráveis aos acusados”.
Acrescentou Cordeiro Guerra, que a sentença (do ilibadíssimo
senhor doutor juiz Souza Netto) não analisou as declarações
dos acusados de modo a atender a psicologia judiciária,
- de que ninguém confessa sua participação
num crime senão naquilo que não pode negar. Não
examinou a personalidade dos réus, sua vida pregressa,
não confrontou o alegado pelos réus e as testemunhas
com provas técnicas, não conferiu, não meditou.
Daí a conclusão injusta a que chegou. E foi assim
que Ronaldo e o porteiro foram postos em liberdade, através
da escandalosa sentença de impronúncia do meritíssimo
senhor doutor juiz Souza Netto. E foi assim que o mesmo honorabilíssimo
senhor doutor juiz deixou de mandar fazer exames periciais nos
dentes do crapulóide Ronaldo.
* * *
Existe
um ponto-chave no processo, que destrói todos os alibis
e tôdas as “testemunhas-bomba”
arranjadas pelos defensores do monstro de óculos escuros.
É a questão da hora em que Ronaldo foi visto em
companhia de Aída, passeando pela Rua Miguel Lemos, perto
do Edifício Rio Nobre. Quem viu o tarado com a sua infeliz
vítima? Vários moços que freqüentam
a “turma”
da Miguel Lemos. Um dêles, rapaz de boa família,
estudante e atualmente empregado num cartório na Rua do
Rosário, D.F., chama-se Luiz Beethoven Cabral Leme. Rapaz
honesto, de fibra, não teve mêdo de apresentar-se
à Polícia para contar que estava na Miguel Lemos
em companhia de duas mocinhas, Suely Weydt e Ivani Prado. Foi
quando passou outro rapaz, então cabo no Forte de Copacabana,
Amaury Freire, ao qual Beethoven perguntou que horas eram, de
vez que Suely e Ivani precisavam estar em casa , no Pôsto
Seis, antes das nove horas, segundo ordem de seus pais. O cabo
Amaury respondeu: 20.20. E foi embora. Dali a alguns instantes
Beethoven, Suely e Ivani viram Ronaldo passar ao lado de Aída.
O Advogado Wilson Lopes Santos, numa das suas maçantes
falas na televisão, afirmou que o cabo Amaury não
poderia ter fornecido a hora porque não tinha relógio.
Pois bem: Amaury tinha e tem relógio, que adquiriu de um
sargento, no Forte de Copacabana. Êste rapaz atualmente
é bancário e trabalhista no departamento do pessoal
de um estabelecimento de crédito, no centro do Rio de Janeiro.
Êle confirma o que Beethoven, Suely e Ivani declararam e
exibiu ao repórter o relógio folheado a ouro, que
ainda conserva em seu poder. Mas pediu que o deixem em paz, e
não o envolvam neste processo, que está em vias
de virar Sacopã. Compreendemos sua situação,
no início da carreira bancária. Para que expô-lo
aos vexames por que deve ter passado, por exemplo, Luiz Beethoven?
Êste jovem, num depoimento à Justiça, afirmou
que fôra procurado em sua residência pelo pai de Ronaldo,
que queria saber o conteúdo das declarações
que êle iria fazer em Juízo. E lhe pediu que fizesse
um depoimento camarada. Mas Beethoven manteve tudo quanto anteriormente
declarara sôbre a questão da hora (20.20h) em que
vira Ronaldo e Aída na Rua Miguel Lemos. Isto foi suficiente
para que Ronaldo afirmasse ser Beethoven seu inimigo gratuito,
embora no início do processo houvesse declarado "nada
ter contra êste rapaz"...
* * *
A prima de
Ronaldo, afinal, apareceu. Chama-se Mariza Eneider Castro. Foi
entrevistada na Bahia pelos “Diários
Associados”
e desabafou. Disse que não podia aceitar o resultado do
julgamento de seu primo. - “Sinto
nojo do cinismo de Ronaldo e comove-me a triste sorte da desventurada
Aída. E me revolta muito mais ver o tio Edgard, com o seu
dinheiro, comprando Deus e o mundo, para ver aquêle verdadeiro
monstro prosseguir em seus ataques a pobres indefesas. Fiquei
decepcionada com a decisão dos jurados. Sinto-me culpada
por não haver declarado antes o que declaro agora. Em todo
caso, antes tarde do que nunca. Mas como Ronaldo está quase
sôlto, falo sem mêdo, procurando redimir-me dos males
do meu silêncio. Ronaldo, além de tarado, é
ladrão. Quase ninguém sabe disso, mas êle
é ladrão. Sem levar em conta os roubos na própria
família, é autor de furto (jóias e dinheiro),
numa pensão na lagoa Rodrigo de Freitas. O fato foi descoberto,
mas o dinheiro de tio Edgard silenciou a Polícia e indenizou
as vítimas. Uma ‘balzaquiana’,
amante de Ronaldo, era então a maior beneficiada, porque
o dinheiro do titio dava para o seu sustento. Quero mandar um
bilhete a meu tio e a Ronaldo. Começarei assim: ‘Ronaldo,
a pedido de seus pais, não fiz as declarações
que faço agora. Você, grande canalha, sabe que eu
tenho uma irmã de apenas 3 anos. Se um dia um monstro do
seu quilate fizer com ela o que você fêz com Aída,
fique certo, ‘bêsta
cínica’,
de que não esperarei que um Tribunal decida. Lembre-se
do dia em que quis me vender por 20 mil cruzeiros, num escritório
de aparência tão sórdida quanto a sua. Mas
lembre-se, também, da barra de ferro que eu apanhei então.
Lembre-se, Ronaldo, você e outros Ronaldos: farei justiça
com as próprias mãos.”
A prima de
Ronaldo contra que, em Vitória, êle a aproximou de
certo cidadão, conhecido por “Mãozinha”.
As intenções de “Mãozinha”
eram as piores, mas Ronaldo falou: “Fique
quieta, sua bôba, não vai lhe acontecer nada. Apenas
uns beijinhos, uns abraços e ganharemos 20 mil cruzeiros.
Dez meus e dez seus”.
Outra vez, no Leblon, Ronaldo quase estrangulou outra prima, porque
ela lhe entregou menos dinheiro do que o tio Edgard ordenara.
Só não consumou seu intento, porque a empregada
interveio. Finaliza Mariza suas declarações, dizendo.
“Ronaldo
é meu primo, mas é um tarado. Dizendo isto agora,
sinto que ainda há tempo para se esclarecer quem êle
é na realidade. Ronaldo é um ‘scroc’,
um ser nocivo à sociedade. Precisa ser punido”.