Ninguém conhece ninguém

Assis Chateaubriand

A TABA quase ficou sem cacique.
O caeté que tanto se agitou na floresta do asfalto, que tanto lutou contra quase tudo e contra quase todos (muitas vêzes até contra si mesmo) estêve empenhado na sua batalha decisiva. Numa batalha que poderia ter sido a derradeira.
E venceu o primeiro round.

Movimento & Quietação

Assis Chateaubriand numa cama, numa tenda, imobilizado - eis uma cena que ninguém poderia conceber. Coisa estranha, agoniante, inaceitável, algo assim como o Amazonas parado ou um oceano sem fluxo e refluxo. Não se cortam as asas a um condor. Assim, não se pode furtar a Chateaubriand o movimento. Pois se êle é justamente um símbolo de vida, de fôrça criadora, de revolução, de disseminação, de agitação. Um dinâmico, um tenso, um afinado para as grandes tocatas. Como aceitá-lo imóvel? Um homem que está com vinte anos de sono atrasado (sono, primo-irmão da morte), que dorme quando muito cinco horas por dia (ou por madrugada), que sempre teve a habilidade de espichar as manhãs, dilatar as tardes, alongar as noites, um homem assim não pode frear bruscamente seu ímpeto. Nada disso. Nada de doença. Um equívoco da natureza. Repouso, apenas.
- Doença é luxo de desocupado.

Convivência & Amizade

Existem duas condições fundamentais para se entender (um pouco) Assis Chateaubriand: 1) gostar dêle; 2) conviver com êle. Não há compreensão sem convivência. E sem compreensão não há amor. Eu sempre gostei dêle (nunca fiz mistério disso), mas nunca o temi, embora o respeite. Êle é gente, não é bicho. É um homem bom e autêntico. Mas para um cabra enfrentá-lo, para que haja coexistência pacífica, é preciso personalidade, ausência de complexos e muita disposição para o trabalho. Certa vez, no meio de um banquete, em New York, virou-se para mim e perguntou:
- Você tem um microfone aí, meu filho?
Pouco depois interrompeu o discurso que estava fazendo, em inglês, e perguntou-me bem alto:
- Como é mesmo que se diz fumaça em inglês?
Ao passarmos por famoso militar soviético, perguntou-me:
- Você sabe russo?
- Sei.
- Então não perca tempo, seu. Entreviste o homem. Jornalista precisa ser agressivo.
E eu sabia russo? Sabia coisa nenhuma.
É que a Chateaubriand, em trabalho, nunca se diz não.

Interpretação & Inconclusão

Sempre procurei interpretar seus atos, seus repentes, suas inclinações, suas contradições. Grande material humano, estudei-o à traição, sem que jamais suspeitasse. E em não muitas oportunidades, pois o fato de ser secretário desta revista me furta ao convívio diário de Chateaubriand, um absorvente por excelência. Estudei-o sem nunca chegar a qualquer conclusão definitiva, exceto que é um grande homem.
Duvido que alguém o conheça de verdade.
Nem êle mesmo se conhece, creio. Ninguém conhece ninguém, meus senhores e senhoras não minhas. Assim, ainda não me considero capaz de mostrar o seu outro lado. Não fiz tal entrevista. Como saber o que êle pensa das estrêlas, por exemplo, se nunca formulei a pergunta? E sei lá o que responderia. Provàvelmente isso:
- Você está doido.

Personagem & Autor

Assim, o que hoje escrevo é apenas um esbôço prévio. Quando êle estiver de novo em ebulição, inventarei algum artifício para perguntar-lhe o que pensa (mesmo) da vida, da morte, da lua cheia, do dinheiro, do poder, da injustiça, das crianças (sei que gosta delas), se acredita em fantasma ou em mula sem cabeça - e talvez então surja o ninguém conhece ninguém como vocês estão acostumados a ler. Faço esta prévia porque estou com vontade de fazer. Só isso. Se escrevo sôbre todo mundo, se aprovo quem me dá na veneta, por que não realçar os valores do capitão desta imensa cavalaria à qual pertenço? Um homem que durante mais de meio século escreveu seu artigo diário, seus discursos marcantes (sempre se renovando), um homem cujo berço foi pràticamente uma linotipo e que no momento está impossibilitado de escrever, de revisar provas, de sujar os dedos de tinta - um homem assim não pode estar fora da imprensa. Êle sempre foi autor de peças jornalísticas. Agora está em descanso.
Passou a personagem.

Temperamento & Ubiqüidade

Chateaubriand gosta muito de narrar as histórias que viveu, que presenciou, que ouviu contar, mas detesta falar a seu próprio respeito. Só se revela aos pedacinhos, quase sem querer, ao sabor das circunstâncias. Emotivo, dissimula a emotividade. Lírico, esconde o lirismo. Sensível, faz caretas de bicho-papão. É capaz das atitudes mais nobres, mais delicadas, mas sempre as faz metido numa armadura. Diz que detesta sentimento de família, mas já foi surpreendido em contradição. E quando está furioso? Saiam de perto. Embora eu nunca tenha sofrido diretamente suas irritações, nem merecido um dos seus famosos esbregues, sei de fatos arripiantes. Às vêzes, por nadinhas, explode. É capaz de esguelar um auxiliar menos atento, mas cinco minutos depois o convida para jantar no Au Bon Gourmet. Quantos Chateaubriands existirão, de fato, nesse homenzinho simpático, de olhar infantil? Não sei. Conheço uns dez, uns quinze, talvez vinte. E não sou dos que conhecem mais. Tímido num instante, ousado em demasia no outro. Carinhoso agora, quase apoplético daqui a pouco, é um homem enigma. Compreende os defeitos até de seus inimigos e reconhece alguns dos seus. Com o barulho dêle, ninguém dorme. É ubíquo. Está em todos os lugares ao mesmo tempo, se desdobra, se supera, se multiplica. Tem vivido completa e intensamente a sua vida.
Suas nuvens temperamentais, embora carrancudas, escondem montanhas de compreensão humana.

Espaço & Tempo

- O doutor Assis está?
- Foi ao Japão.
- O doutor Assis já voltou?
- De onde?
- Do Japão.
- Voltou, mas está em Santa Maria de Bôca do Monte.
- E amanhã?
- Segue para a Alemanha.

Nobreza & Beijocas

Êle sabe quem é quem em todo mundo. Amigo íntimo de reis, de príncipes, de personalidades internacionais, de mexeriqueiros famosos, nunca perde a naturalidade ou deixa de ser fiel a si próprio, ao seu torrão nordestino. É um homem que está ligado à terra. Em New York, em Paris, no Cairo - onde quer que esteja - é um não acabar de telefonemas, de visitas, de encontros, de banquetes, de entrevistas importantes. Quando chega a uma festa, entra com êle madame animação. De saída, beija tôdas as senhoras presentes (e as môças também). É um beijoqueiro incorrigível. Em vários salões da Europa, vi-o beijando imensas marquesas, alentadas condêssas e esguios brotinhos. Todos o adoram. É o embaixador estrangeiro mais popular na Inglaterra, conforme li outro dia em jornal londrino. Assim que soube de sua doença, a Rainha da Inglaterra enviou-lhe bonita mensagem. Tão conhecido na Europa como aqui, é constante notícia internacional. Sua personalidade representa grande promoção para o Brasil. Lá, como aqui, está em todos os lugares ao mesmo tempo. Com as damas, é gentleman absoluto. Ninguém melhor do que êle para mestre-de-cerimônias (não tenho culpa se o homem é múltiplo). Em Roma, numa boite, disse-me:
- Você é um selvagem, meu filho. Tire a princesa para dançar.
Teria uns sessenta anos. Era alegre, jovial. Usava um longo vestido de cauda com fartura de enfeites.
E que fôlego!

Fermento & Evolução

Parece que usa fermento em tudo o que realiza. Como aquelas velhas do nordeste, tem boa mão. Elas plantam qualquer mudinha raquítica e anos depois o cajueiro está em flor. Assim é Chateaubriand. O que planta, dá. Faz crescer tudo o que toca. Os negócios, os museus, as fazendas, as campanhas. Cada uma de suas obras públicas, isoladamente, justificaria uma existência. O Museu de Arte de São Paulo. A campanha de aviação. A campanha dos centros de puericultura. A campanha dos cafés finos. As experiências arrojadas em suas fazendas (Manga, onde se recupera o Rio São Francisco através da irrigação é um exemplo disso). O lançamento da televisão no Brasil. Sua carreira é impossível de comensurar, como disse Gilberto Amado. Jornalista, fazendeiro, escritor, industrial, senador, acadêmico, embaixador, como enquadrá-lo em estudo, em reportagem, mesmo em livro.
Êle está sempre realizando e se realizando.

Fumo & Jerimum

Detesta o fumo e vive em constante conflito com seus amigos fumantes. Certa vez, em Santiago do Chile, depois que consegui localizar suas abotoaduras na balbúrdia do quarto, disse-me:
-Se você não fumasse, seria um lacaio perfeito. Até hoje, o melhor que encontrei foi o Baby Pignatari.
Gosta de brincar assim. Gosta de piadas. Às vêzes, em seus discursos, chega a ser desconcertante. Diz coisas que, anunciadas por qualquer outra pessoa, provocariam tiros. Zé Lins do Rêgo disse num discurso, batizando avião, que Chateaubriand, com suas irreverências, tira a roupa das pessoas no meio da rua. Seu humor tem provocado barrigadas de riso em várias gerações de comensais seus. No entanto, à mesa, é quase sóbrio. Bebe pouco (champanha ou de quando em quando uma bicada de vinho). Jamais o vi alto. Cochila nas ocasiões menos propícias (êsse é um dos segredos da sua excepcional resistência). Gosta de água de côco, de cajuada, de jerimum, de maxixe, de picadinho na faca, de frigideira, de camarão ao leite de côco, e afirma que no Brasil se come melhor do que em qualquer parte do mundo. A cinema, nunca vai (ainda cita Theda Bara e Lida Borelli). Dança bem e gosta de dançar. Num roof em Veneza, cinco horas da manhã, todo mundo cabeceando de sono, disse-me:
- Meu filho, dá dinheiro aos músicos. Peça o Tico-Tico no Fubá. Vou dançar com tôdas as mulheres da mesa.
Eram doze convidadas.

Genealogia & Atraso

É incrível que no vendaval de sua existência encontre tempo para ler, mas encontra. Sua cultura é sólida e surpreendente sob certos aspectos. Na mocidade, teve intimidades filosóficas com Nietzsche. Pluralizou seus conhecimentos em fontes diversas. Estilista, neologista, muitos de seus artigos são antológicos. Sua memória é espantosa. Especialista em árvores genealógicas, cinco minutos depois de ser apresentado a um estranho, está explicando:
- Ah, você é da família tal, do Maranhão? Pois conheci seu avô. Êle era sobrinho-bisneto do coronel tal que foi degolado na Revolução Farroupilha...
Atrasa banquetes, atrasa aviões, atrasa enterros, já atrasou até uma procissão no interior de Minas. Na Europa, entretanto, é pontual. Quando oferece jantar-sentado a alguém, na casa de seu primo (e amigo) Leão Gondim de Oliveira, D. Lili pergunta, vagamente aflita:
- Quantos são os convidados, Chateaubriand?
- Uns trinta, prima Lili.
Aparecem quarenta e cinco.

Solidão & Aconcágua

Não obstante estar sempre rodeado de gente, considero-o um solitário. Há qualquer coisa de triste talvez na sua maneira de olhar, talvez no seu modo de sorrir quando não deseja responder a uma pergunta.
Já lhe perguntei, num avião:
- O senhor não se sente sòzinho?
Fitou-me dois instantes e perguntou-me:
- Você já sobrevoou o Aconcágua?
O avião é o seu meio natural de locomoção. Conhece tôdas as bibocas do Brasil e é enamorado de seus rios, de suas florestas, de suas possibilidades. Se às vêzes se irrita contra nossas realidades, contra nossos governos, é porque se considera o inimigo público n.º 1 do atraso e da burrice. Se os brasileiros atentassem melhor para a proporção e diversificação da obra de Chateaubriand em prol do seu país, nem sei o que aconteceria. O império em que transformou os Diários Associados é obra que qualquer outro levaria duzentos anos para realizar. Se realizasse.
Às vêzes desconfio que tenha nascido póstumo.

Lágrimas & Milagre

Na manhã de sábado de carnaval, o chefe estava desenganado. Alguns médicos haviam perdido as esperanças. Nunca vi tanto homem chorando ao mesmo tempo. Chorava Spitzman Jordan, chorava Antônio Galdeano, chorava Leão Gondim de Oliveira, chorava Autregésilo de Athayde, chorava João Calmon. Outras pessoas, atônitas, se entreolhavam em mudo desespêro. Era algo que o cérebro entendia, mas o coração não queria acreditar. Disse Zézinho Gueiros, para aliviar a tensão:
- Se jogassem uma bomba neste hospital, o Brasil ficaria sem govêrno e sem oposição.
A quase totalidade dos donos desta república acompanhava de perto a agonia do gigante. Ministros, senadores, governadores, deputados, desembargadores, acadêmicos, velhos amigos, velhos companheiros que nada podiam fazer, mas prestavam a quente solidariedade da presença. E eu acredito em fôrça de pensamento coletivo. Acredito em correntes positivas. Falou um dos médicos:
- Só um milagre.
E um milagre aconteceu.

Esperança & Tacape

O caeté está-se recuperando. Já há vida nova em seus olhos. Já há sorrisos em seu rosto. Na semana passada, chamou um familiar de muar - e não poderia haver melhor sinal de recuperação. Era a ressurreição do gigante. Desde o Presidente da República, sua espôsa e filhas, todos os que o têm visitado, saem da casa de Saúde Dr. Eiras com esperança nos olhos e alegria no coração.
Qualquer dia êle estará brandindo de novo o tacape.

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