BANDEIRA:
LIBERDADE EM CONTA-GOTAS
Liberdade ainda
tem sabor de xadrez. Falta provar uma inocência
Texto
de UBIRATAN DE LEMOS - Fotos de ANTÔNIO RONEK e GERALDO
VIOLA
BANDEIRA
saiu no dia 18 de março. Mas não saiu com a sua
inocência reconhecida pela Justiça. O seu sofrimento,
no planêta de aço da Rua Frei Caneca, não
bastou para desagravar a deusa cega, que tem uma balança
num braço e uma espada no outro. Bandeira saiu cabisbaixo,
deprimido. Recebeu o livramento condicional com cenho cerrado
e palidez amarga. Segurou com mãos trêmulas a sua
carteira de liberado. Um homem que aceitou um favor da Justiça.
Jamais
o homem sem a pecha de matador do bancário. Na cerimônia
do Conselho Penitenciário teve palavras curtas e exatas:
- Aceito
o livramento em atenção aos rogos de minha mãe.
Não desejo que ela sofra mais do que já sofreu.
Depois
enfrentou a liberdade racionada, a liberdade em conta-gotas. Está
debutando nas rua do Rio. É um calouro das praças
e do sol. Um homem em “réprise”
de homem, na sua estréia de passos livres. Mas é,
sobretudo, uma criatura amarrada. Trouxe na sua bagagem mental
as paredes e as grades da cadeia. Trouxe um cadeado na bôca,
cuja chave está nas mãos do Juiz das Execuções
Criminais. O homem, que está proibido de falar, de dar
entrevistas, de encampar de viva voz a sua inocência, é
o mesmo que tem mêdo de tudo. Conserva no sangue os regulamentos
da prisão, na alma o cárcere subjetivo. Perturba-se
com o trânsito: o ruído da cidade é o avêsso
do silêncio, o companheiro de quase 8 anos do seu cubículo
21. A poeira das ruas também é novidade. A luz da
Cidade perturba o môço de 32 anos e de muitos cabelos
brancos. Está achando o Rio mudado, o asfalto envelhecido
para melhor. Espantou-se com o atêrro da Glória e
com a nova maquilagem no rosto da metrópole. Nas compras,
comportou-se como um soldado que recebeu um ordem para comprar.
Escolheu camisas, meias, gravatas, lenços, sapatos e três
ternos paisanos. A sua farda virou souvenir de guarda-roupa
antigo. Não presta atenção ao fã-clube
feminino. Seja pelo telefone, seja nas abordagens de rua. Receia
que êles entendam mal palestras gratuitas com senhoritas.
Tem pavor de passar por playboy, por mocinho de cinema.
“Bandeira,
vamos à praia? Não precisa ser Copacabana. Uma praiazinha
isolada, deserta, onde você possa ser fotografado tranqüilamente.”
Êle recusa, ofendido. Entende a coisa como proposta-cilada,
capaz de prejudicá-lo sèriamente. Reclamou junto
ao fotógrafo que o documentou dando água para o
corrupião do Ceará, que já cantava na gaiola
antes do episódio do Sacopã. Gosta das multidões,
do povo que o cumprimenta, com votos de sucesso na luta para comprovar
sua inocência, mas não consegue ocultar o seu constrangimento
íntimo. É um ser dopado, sinceramente tonto. Confessou
que o seu maior problema é pensar e agir normalmente. Seus
planos são vagos, desfocados. Pensa em aviação,
em trabalhar na “Luta
Democrática”.
Só uma coisa é violentamente real dentro dêle:
a luta para que a Justiça consagre a sua inocência.
O seu maior desejo é passar despercebido. Queria andar
na rua sem ser notado. Eis por que dribla os repórteres,
criando dificuldades inclusive para os que o defendem, desde os
idos de abril de 52. Nota-se-lhe, nìtidamente, a fixação
das grades no comportamento. No menor gesto, no reflexo mental
mais discreto. Está com o cordão umbelical prêso
na Rua Frei Caneca. E levará muito tempo, até que
supere o fantasma da cadeia, recompondo-se como homem livre. O
seu maior choque emocional são os horizontes, que formam
contraste com o cenário de paredes a que estava habituado.
É algo assim como ter voltado de um mergulho de oito anos.
E depois esbarrar num céu azul, lavado de sol. Confunde-se
com as distâncias, com as grandes dimensões de espaço.
Só o tempo parou para Bandeira. Voltará a girar,
quando a Justiça absolvê-lo do crime cuja autoria
continua negando.
TENÓRIO
RECOMPÕE DETALHES DA INOCÊNCIA DE BANDEIRA
O
Deputado Tenório Cavalcanti ocupará êste capítulo.
Falará o parlamentar, já que Bandeira aceitou a
imposição do Juiz João Claudino de Oliveira
e Cruz: silêncio. Tenório (de memória) ditou
alguns pontos “que
definem a inocência do ex-Tenente”.
Não fará comentários. Exporá fatos
secos, resumidos. Ei-los:
1 - Avancini
(farsante) afirma ter testemunhado o crime. Disse ser amigo intimo
do bancário, com quem teria viajado de S. Paulo para o
Rio, na véspera do crime. Pois bem: Bandeira, no dia seguinte
ao do crime, foi ao 2.º Distrito Policial, porque viu, nos
jornais, fotos de Marina. Queria saber o que havia com a môça.
Pergunto: se êle sabia que "o seu crime" tinha
sido testemunhado, como iria ao 2.º DP fazer perguntas, se
lá encontraria, na certa, Avancini?
2 - As testemunhas
de vista (verdadeiras) não constam dos autos. Exemplo:
Elsio Andrade e sua companheira, o vigia do Caiçaras e
dois sargentos, com suas respectivas acompanhantes. Apenas Gilda
Pecini prestou depoimento na Delegacia. Mas, como afirmou não
ser Bandeira o criminoso, passou 5 dias a pão e água
no 2.º DP. E o Delegado Hermes Machado não deu maior
importância ao seu depoimento.
3 - As testemunhas
(de vista) encontradas pela Polícia são contraditórias.
Cada uma descreve o criminoso a seu modo. Exemplo: o motorista
Gomes afirma que o assassino trajava terno completo, era alto
e tinha cabelos negros, escorridos. O Engenheiro Taunay (que afirmo
ser testemunha falsa) disse que o criminoso usava calça
e camisa da Aeronáutica e era parecido com Bandeira. “Viu”
tudo isto, num ambiente escuro, na Lagoa, num simples lance de
vista...
4 - Eis o
caso das Peres (mãe e filha). Eram vizinhas de Bandeira.
No comêço, propalavam a inocência de Bandeira.
Deram entrevistas nesse sentido. Depois, aceitaram o convite de
Rui Dourado (ainda Comissário) para umas férias
no Luxor Hotel. Essas testemunhas de acusação
passaram 15 dias no hotel, comendo bem e bebendo melhor. E no
fim produziram depoimentos mentirosos. Afirmaram esta coisa desopilante:
que Bandeira tinha ido à casa delas pedir que lhe escondessem
um revólver. Foram precisas, porque citaram o calibre da
arma, (32 duplo), a marca (Smith and Wesson) e outros detalhes.
Pergunto: como duas mulheres, que não entendem de arma,
notariam os detalhes referidos? Qual seria o criminoso capaz de,
ao invés de desfazer-se de uma arma, jogando-a em qualquer
lugar, optar pela estranha atitude de pedir a vizinhos que a escondessem?
Aliás, a conta do “Luxor
Hotel”
não foi paga pela Polícia. O dono do estabelecimento
não aceitou o pagamento proposto por repórteres
de “O
Cruzeiro”.
Argumentou: mêdo de represálias de Rui e Hermes Machado.
5 - Irmão
de criação de Rui Dourado, um certo Joãozinho,
infiltrou-se entre as Peres, e terminou como “idônea
testemunha de acusação”.
6 - Gilberto
Nogueira, desenhista dos escritórios do pai de Rui Dourado,
também foi “preciosa
testemunha de acusação”.
7 - O segundo
depoimento de Marina (acusador) foi produto de violência,
no apartamento do Brigadeiro Guidon, cunhado do escroque Pandiá
Pires. A môça permaneceu das 9 da manhã até
as 3 da madrugada seguinte. Depôs de revólver no
peito, empunhado pelo Promotor (promovido) Emerson de Lima. No
seu terceiro depoimento, a própria Marina narrou as violências
por que passou, naquele apartamento odioso.
8 - Os principais
depoimentos, a Polícia os tomou fora da Delegacia, sob
coação, no tal apartamento do Brigadeiro Guidon.

9 - Eis a
estranha figura de Pandiá Pires, peça da guarda
pessoal do Catete. Funcionou em todo o processo. Era a sombra
do Delegado Hermes. Foi êle quem descobriu o apartamento
do seu cunhado, Guidon. Êste Pandiá é pessoa
de vida escura. São impublicáveis as suas intimidades.
10 - Avancini
é testemunha postiça. Nunca estêve no Citroen
do bancário. A prova é que, livremente, escreveu
no caderno do Repórter Calazans Fernandes ter sido testemunha
falsa. Repetiu a sua confissão para oficiais da FAB. Depois,
apavorou-se com as conseqüências (tinha mêdo
de Leopoldo Heitor) e acabou desdizendo-se, na Polícia.
11 - Vocês
se lembram de que Avancini afirmou, em seu depoimento, que telefonara
para o bancário da casa de “uma
dama ilustre”,
cujo nome não poderia declarar? Vejam isto: oficiais da
FAB obtiveram, do marginal, o enderêço da tal “dama
ilustre”.
Pois ela declarou que, em tempo algum, Avancini estivera em sua
casa. Jamais usara o seu telefone.
12 - E o
“dossier”
Tornaghi? É uma peça-mistério, desaparecida
por império da magia dos verdadeiros assassinos. Eu já
o tenho, extra-oficialmente. O “dossier”
absolve Bandeira. Nêle trabalharam policiais honestos, alguns
dos quais (vivos) sustentam a inocência do ex-Tenente.
13 - Acabo
de receber um documento importante, com assinatura reconhecida
do tabelião. Com base nesse documento, posso afirmar que
o bancário freqüentava assiduamente o Caiçaras,
em companhia de uma môça que não era Marina.
Não é meu propósito divulgar o documento.
Farei tudo para inocentar Bandeira, sem prejuízo de reputações.
As idas do bancário ao Caiçaras, em companhia da
môça misteriosa, ocorreram 20 dias, se tanto, antes
do crime do Sacopã.
14 - Milton
Pedro Gomes confessou (verbalmente) ter conduzido, em seu carro,
o assassino do bancário, lá da Ladeira do Sacopã,
do local onde o matador deixou o Citroen. Milton, que chegava
sempre às 8 horas ao emprêgo, dirigindo a sua Dodge,
no dia seguinte ao do crime apareceu no trabalho às 11
horas, e sem carro. No outro dia, viajou para S. Paulo. Além
disso, Milton foi visto por um doceiro, pouco antes da meia-noite
do dia do crime, na Ladeira do Sacopã. Estava só.
E não em companhia de Ana Mazur, como veio a declarar.
15 - Leopoldo
Heitor disse, primeiro, que era advogado do criminoso, não
da testemunha Avancini, repetiu isto na sessão secreta
da Ordem dos Advogados.
16 - Joventino
funcionou como peça secreta dos embuçados. Era um
despistamento, no caso de alguém cavoucar no rumo certo
do crime. Joventino dizia, na Central, que era o matador. Foi
por isso que o mandaram para S. Paulo. Foi por isso que queimaram
os seus documentos na Central - a sua ficha, precisamente. Chegaram
a conseguir um atestado de óbito de Joventino Galvão
da Silva. Também providenciaram a troca do nome do bandido.
Eis como funcionaria a “chave”
Joventino: a culpa dos tiros lhe seria atribuída, e quando
procurassem o homem, êle estaria “morto”.
Mostrariam o atestado de óbito. Acontece, porém,
que Joventino foi reconhecido em Araçatuba, através
de uma foto publicada pelo “O
Cruzeiro”.
Sei, hoje, que Joventino só pode ser responsabilizado pelas
pancadas na cabeça do bancário. Aliás, se
o bandido bater na Paraíba, êle mesmo contará
essa história estarrecedora. Posso informar que os advogados
(caros) de Joventino tudo fazem para conservá-lo em Araçatuba,
por motivos óbvios. Quanto ao depoimento prestado pelo
pistoleiro, no interior de S. Paulo, é todo falso. Esta
Revista já estampou documentos da Central que atestam a
falsidade de suas declarações ao Juiz de Araçatuba.

17 - Setímio
Mártire era chofer de um ex-prefeito do DF, à época
do crime. Um ex-prefeito cujo filho deixou uma impressão
digital no Citroen do bancário. Setímio funcionou
na farsa Avancini. Estêve, com êste, na Fazenda da
Grama, escondido, quando Avancini decorava a sua infâmia
contra Bandeira. Depois Setímio caiu na Penitenciária.
Cometeu um furto. E lá andou lhe doendo a consiência.
Foi por isso que escreveu um manuscrito confessional. Garatujou
tôda a história de Avancini no papel de testemunha.
Contou segredos do escritório de Leopoldo Heitor, que funcionava
com um viveiro de testemunhas. Levou o seu manuscrito ao Dr. Hélio
Tornaghi, então diretor da Penitenciária Lemos Brito.
Estava sinceramente arrependido, e queria colaborar com Bandeira.
Eis quando se movimenta o sindicato protetor dos embuçados.
Promete o indulto a Setímio Mártire. Cumpre a promessa.
E Setímio passa a dizer que o seu manuscrito é pura
obra de imaginação...
18 - Eu sei
agora quem telefonou para o bancário, convidando-o para
o passeio trágico. Também o sabe a família
de Afrânio. O silêncio dessa família, depois
de explicado, estarrecerá o País.
19 - As impressões
digitais recolhidas do carro não pertencem a Bandeira.
A palmar (mão esquerda), encontrada no painel do carro,
é do criminoso. Eu consegui recolher parte da palmar esquerda
de certa personagem. Depois mandei confrontar com a do painel.
E conferiu. Brevemente esta Revista estampará um laudo
sôbre o assunto.
20 - Suzana
Stepanoff, secretária de Leopoldo Heitor, confessou (documento)
que foi ela quem chamou Avancini, em S. Paulo, a mando do seu
patrão Leopoldo.
21 - Estive
no esconderijo de Avancini, na Fazenda da Grama. Lá, onde
êle aprendeu a farsa a ser representada.
22 - Marina,
meus amigos, era companheira de praia de Bandeira, que conviveu
com ela pouco mais de 30 dias. A Marina do Sacopã, o pivot
do crime, é outra. Mas sôbre ela manterei silêncio,
a qualquer custo.
23 - Geovan
Ferreira é outra testemunha falsa. Êle afirmou que
viu Bandeira ao lado do bancário. Estava num pôsto
de gasolina, no Leblon. Acontece que, de onde disse encontrar-se,
não poderia ver nem Bandeira, nem ninguém. Detalhe
técnico, compreendem?
24 - Saibam
que a Terceira Câmara Criminal, ao julgar (desfavoràvelmnete)
um pedido para novo julgamento de Bandeira, apoiou-se em dois
depoimentos: no de Avancini e no de Geovan. Os desembargadores
acharam que pessoa alguma seria capaz de afirmar o que aquêles
dois afirmaram, se realmente não tivessem vivido o fato.
Doce ilusão dos desembargadores...