O prêto que ficou branco
Texto e fotos de MÁRIO DE MORAES
 

Francisco Gregório esfregou os olhos. E não podendo acreditar no que via:

-A voz é a mesma, mas você não pode ser o Hugo!
E como argumento definitivo:
- O Hugo era prêto!

Hugo Ferreira Gomes, nascido prêto no dia 1 de setembro de 1920, começou a rir. Realmente o seu caso era para espantar qualquer um. Da última vez que vira seu ex-patrão, era um negrinho que dava duro na roça e, agora, se transformara num forte e despachado homem branco. A história da transformação inexplicável que se operou em Hugo Ferreira Gomes, de prêto para branco, remontava há 5 anos.


- Hoje é dia de cuidar dos tomates - dissera-lhe bem cedo o patrão, Celso da Fonseca Veiga.

Antes, porém, Hugo achou melhor consertar de uma vez por tôdas aquela cêrca de arame farpado. Trabalhou nela durante algum tempo. Terminou com alguns cortes na mão. E foi para a plantação, onde os suculentos e avermelhados tomates atraíam a gula de um sem-número de parasitas. Hugo, porém, tinha um remédio para êles, a poderosa calda bordalesa. Mistura fácil de fazer, mas de efeito decisivo. Batia em cima da praga e era tiro e queda. Apanhou o barril, despejou nêle o conteúdo de algumas latas de Radiotox, mais alguns quilos de cal virgem e sulfato de cobre e começou a mexer tudo com grande colher de pau. Um movimento mais brusco, porém, fêz com que ela se partisse em dois, ficando o prêto com um dos pedaços na mão. O outro afundou na mistura. Numa fração de segundos, que poderia ter-lhe custado a vida, Hugo esqueceu a fôrça venenosa daquela substância. Arregaçou a manga da camisa e meteu o braço dentro dela, continuando a mexê-la com a mão. Não demorou um minuto. A vista foi ficando turva, sentiu náusea e tonteira e caiu ao solo desmaiado. Foi acordar na sua cama, rodeado pela mulher e filhos. O patrão fôra correndo à cidade de Teresópolis, cuidar de arranjar um médico. Veio o Dr. Mozart de Oliveira, conceituado facultativo da cidade serrana, e chegou à conclusão que Hugo estava envenenado, receitando-lhe poderosa medicação antitóxica. Durante uma semana o prêto esteve entre a vida e a morte, e foi acometido de fortes dores na cabeça e nos olhos. O que causou surprêsa, no entanto, é que a côr de sua pele foi ficando cada vez mais preta. Hugo Ferreira Gomes chegou a ser mais negro que o carvão.

Em casa, os filhos, Maria Elisete e Proxédio, não o reconheciam. Não viam naquele tição o seu bom e compreensivo pai. D. Iracema, a espôsa, estava horrorizada. O seu mulato já não era o mesmo. Mal sabia ela que coisa mais surpreendente haveria de acontecer. Com sete dias, Hugo levantou-se e voltou ao campo. A dor nos olhos e na cabeça, porém, não o largava. Perdera o apetite e o sono. Mas, para sua felicidade, a côr ia voltando ao normal. Chegou a ser escurinho como antes. O fenômeno de clareamento da pele, porém, não parou por aí. Hugo Ferreira Gomes continuou clareando. Dos pés à cabeça. Passou a mulato, moreno e, em menos de um ano, estava completamente branco. Durante três meses não conseguiu comer nem dormir direito. Depois sua saúde foi voltando ao normal e, com um ano, era o mesmo homem, trabalhador e forte como um touro. O Dr. Mozart de Oliveira, depois de salvá-lo do envenenamento, ficou algum tempo sem o ver. Morando no distante Frades, 3° Distrito de Teresópolis, poucos conheciam a transformação que se havia operado no prêto Hugo. Foi, portanto, com espanto que seus amigos o receberam em Teresópolis, quando apareceu por lá, totalmente branco, para fazer compras. Primeiro foi seu antigo patrão, Francisco Gregório, que fôra criança com êle, quem arregalou os olhos de espanto. Depois, seu próprio médico, Dr. Mozart, que não acreditou no que via. Seu antigo cliente, como num passe de mágica, de prêto virara branco. Em casa, D. Iracema não via com bons olhos a transformação do marido: - Meu mulato ficou aleijado. Hugo, porém, não se desgostou. Pequenas manchas (no rosto e na orelha), existentes no corpo provavam que fôra realmente prêto. E pedia ao Dr. Mozart: - Será que não é possível tirar estas manchas?


Hugo Ferreira Gomes nasceu em Sumidouro, no Estado do Rio, mas, há mais de 30 anos, vive em Frades. Hoje em dia trabalha como meeiro de Celso da Fonseca Veiga, com quem está desde 1939. Casou-se há 13 anos com Iracema Francisco, que lhe deu dois filhos: Maria Elisete (com 12 anos) e Proxédio (com 11). Hugo tem um grande desejo: rever seu velho pai, "crioulo forte e simpático", que não vê há mais de 12 anos. E explica.

- Êle vive no Distrito Federal, em Campo Grande. Seu nome é Antônio Ferreira Gomes e faz parte da Igreja Presbiteriana.

Estivemos em Frades, em companhia de Francisco Gregório, de Jair de Aguiar Jatobá, sócio de Francisco, e do prestativo vice-prefeito de Teresópolis, Dr. Irineu Dias da Rosa. Encontramos Hugo Ferreira Gomes trabalhando no campo e com êle visitamos sua casa, conhecemos sua êsposa e filhos e terminamos batendo um longo papo com seus amigos. Confirmamos tudo que havíamos ouvido sôbre a incrível transformação operada no lavrador. Depois viemos com o próprio Hugo ate Teresópolis, pois desejávamos ouvir as impressões do Dr. Mozart de Oliveira, que o atendera por ocasião do envenenamento. E dêle recebemos uma declaração, por escrito, que transcrevemos na íntegra:

Atesto que há mais de cinco (5) anos atendi o Sr. Hugo Ferreira Gomes com estado tóxico, proveniente de uma mistura de ‘Radiotox’, sulfato de cobre e cal virgem. Naquela época o citado senhor era de côr negra e hoje está completamente branco. Desconheço caso idêntico na literatura médica. Será que uma intoxicação pela citada mistura é capaz de produzir albinismo? O assunto requer estudo acurado, a fim de servir de orientação futura. Acho conveniente submeter o paciente aos especialistas em dermatologia.

O Dr. Mozart, não sendo especialista em doenças da pele, faz questão de frisar que sua opinião, embora tendo valor, pois é um estudioso da matéria, deverá ser corroborada por dermatólogos de renome. Contou-nos que, quando Hugo apareceu no seu consultório, completamente branco, examinou-o dos pés à cabeça. Fêz vários testes, inclusive picou-o com várias agulhas e terminou por constatar que êle estava completamente são.

Ouvimos a palavra do Dr. Waldir Barbosa Moreira, outro médico de Teresópolis, que também nos declarou desconhecer caso semelhante na literatura médica mundial:

- Em geral - disse êle - o sujeito, vítima de certas doenças da pele, vai ficando branco em placas e não como aconteceu com o Hugo, de uma só vez, o corpo inteiro. O caso é digno de estudo.

 

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