Não há repouso para o guerreiro

Rachel de Queiroz

Com a vitória da revolução de 31 de março, houve um guerrilheiro que resolveu ensarilhar armas declarando que ia repousar, depois de tantos anos de diário combate. Mas creio e espero que não consiga se manter afastado por muito tempo do serviço ativo: o espírito não se aposenta, e o espírito de Eugênio de Gudin – pois é dêle que falo – não conhece fadiga, nem velhice, nem carece de repouso, nem se acomoda com a inação.

Quer fazer mestre Gudin como Deus Nosso Senhor depois do sétimo dia: considerou que tudo estava bem e que podia repousar. Mas isso era no mundo contemporâneo do Paraíso terrestre, professor. E assim mesmo, mal Deus começou o seu repouso, lá veio a serpente e arrastou anjos e homens na queda.

Aqui então, tudo ainda está muito longe de andar bem – e as serpentes pululam como minhocas. Os homens da revolução estão fazendo um esfôrço hercúleo – e o senhor quer tirar de debaixo do pêso os seus ombros, só aparentemente frágeis, mas que nós sabemos capazes de levantar montanhas? Ah, isso não.

Muito engraçado: quando estavam no poder os desatinados, os corruptos, os levianos, os malvados, o senhor aceitava a obrigação de clamar diàriamente, quase sòzinho; êles eram o inimigo, mas o senhor não lhes negava o favor da sua advertência, a ajuda dos seus sábios conselhos, chegavam a dar a honra do debate aos mais esclarecidos, embora de vez em quando os castigasse com o bom açoite da verdade e da ironia. (Mas quem castiga faz obra de amor, não é mesmo?)

Agora, porém, que os nossos amigos estão tomando conta deste País saqueado (a expressão é do Presidente da República) e tratam de reerguer o que virou ruína, e tentam recuperar o que não caiu por terra, e se empregam a caçar os facínoras fugitivos, e iniciam o processo dos grandes criminosos, o senhor – testemunha e profeta solitário que passou tantos anos, tão compridos, a clamar naquele deserto cuja fauna quase única eram os escorpiões e os gafanhotos – o senhor agora quer encostar o seu cajado à parede e ser apenas espectador? Torno a dizer que não.

Afinal, tenho autoridade para falar assim, para lhe exigir alguma coisa. Porque a verdade é que o senhor é um pouco responsável pela minha presença neste mundo. E sendo responsável, tem a obrigação de me arranjar para viver um mundo mais habitável, mais decente.

A história dessa responsabilidade é comprida e velha, mas conto-a, resumida. Lá por 1909, o jovem engenheiro Eugênio Gudin recebia o encargo de construir a barragem do Acarape, no Ceará. E um jovem estudante de Direito, Daniel de Queiroz, para ter um dinheirinho enquanto se formava, arranjou um emprêgo na Inspetoria Contra as Sêcas – justamente de almoxarife nas obras do Acarape. Acarape fica pertinho da Monguba, antiga fazenda dos Franklin de Alencar; e a flôr da casa-grande assobradada da Monguba era a môça Clotilde, muito linda, tocadeira de piano, amiga de passear num cavalo prêto chamado Vampa, vestida numa amazona azul e com um chapelinho de véu lhe protegendo o rosto. E com essa proximidade de Acarape e Monguba, o môço almoxarife de louros bigodes à Kaiser e a môça da casa-grande se conheceram, se amaram, se casaram – e antes do açude acabar nascia esta vossa criada. Quer dizer que se não fôsse o senhor fazer o açude, se não dessem emprêgo ao môço almoxarife, se o almoxarife não conhecesse a môça da casa-grande, não teria eu nascido... É ou não é o senhor um bocado responsável?

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É este o grande mal da nossa terra. Os bons, os ótimos, os que poderiam mais ajudar, os sabedores, os honestos, os sinceros, têm o mal costume de se retrair fastidiosamente quando passa a hora heróica do perigo e da briga, quando chega a hora prosaica e tão difícil de lamber as feridas, encanar os ossos quebrados, de executar os trabalhos de paz.

Sua especialidade, professor Gudin, é uma ciência sutil que muitos dizem entender, mas que na verdade muito poucos possuem e sabem praticar. E o seu comentário inteligente, sua interpretação segura, a sábia e viva aplicação que dá aos preceitos dos compêndios, vão fazer uma falta tremenda se se calarem nesta hora trabalhosa.

São homens bons que estão no poder, lembre-se, professor. Aquêles por quem suspirávamos no nosso vale de lágrimas. Aquêles para quem apelávamos, de quem exigíamos que fizessem o que fizeram, que assumissem os duríssimos encargos que agora tomaram a si.

Ajudá-los na medida das nossas fôrças é a nossa obrigação. A sua, a minha, a de todos nós. Mesmo que não estejamos de acôrdo em tudo e com todo mundo; nossas divergências serão honestas e nossas diferenças de opinião terão um terreno comum que é o desejo do bem geral.

Pegue no seu bastão e volte para o deserto, professor. Verá com alegria que êle já não está tão deserto assim, que onde só havia espinheiros e bichos venenosos já brota alguma fonte de água limpa, já se abre alguma flor...

 

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