O
comêço do fim
Simplicidade
e franqueza, às vezes rude, é o que os leitores vão
encontrar em “Sexta-Feira
13”, relato
dos acontecimentos que precederam a deposição de Jango,
feito pelo Ministro da Justiça, Abelardo Jurema, agora no
exílio, em Lima, Peru. A Editôra O CRUZEIRO lançará
brevemente o livro – um depoimento absolutamente válido.
E a Revista “O
Cruzeiro”
começa, no presente número, a apresentação
de vários capítulos esparsos dessa obra, que servirá
ao julgamento crítico dos que buscam a verdade histórica.
“Sexta-Feira
13” é
uma outra perspectiva dos fatos que depuseram João Goulart.
NILO DE OLIVEIRA
Por
ABELARDO JUREMA
Fotos da Equipe de “O
Cruzeiro”
Manhã
de quarta-feira (Semana Santa), sou chamado com urgência ao
Palácio da Laranjeiras. Pareceu-me, pelo movimento, que o
Presidente tomava providências que o permitissem ausentar-se
do Rio por alguns dias. Era desejo sabido do Presidente se deixar
ficar em São Borja até domingo de Páscoa.
Também êsse era o meu
desejo. Antes de sair de casa, já havia combinado com a minha
mulher e alguns casais amigos, marcando-se uma peixada em Corrêas,
na casa de um dos meus conterrâneos da Paraíba, favorecidos
pela sorte, que nos prometia gorda e tranqüila Páscoa.
Na quarta-feira mesmo o meu conterrâneo subira com a espôsa
para Corrêas, levando os peixes e os condimentos necessários.
Teria muito que esperar, como os acontecimentos se encarregaram
de alterar todos os nossos planos de uma Feliz Páscoa.
Contrariando o habitual, o Presidente
não se achava com uma fisionomia muito boa, isto é,
tranqüila e confiante. Estava algo preocupado e conversando
muito amiudamente com o General Assis Brasil. Darcy Ribeiro participava,
vez por outra, dêsses conciliábulos. Algo estava contrariando
o Presidente e algo teria que ser determinado lá não
muito do seu agrado.
Lá
para meio-dia, convocado pelo Presidente, compareci ao seu gabinete
improvisado no Palácio das Laranjeiras (não há
palácio mais impróprio para despacho administrativo).
PONTO
CRÍTICO
Contou-me
o Presidente que o Ministro da Marinha, Almirante Silvio Motta,
estava em crise na sua Pasta. Disse-me que mais de vinte mil marinheiros
rebelavam-se contra determinações do Ministro. Falou
que já por várias vêzes falara ao Ministro para
evitar choques com a Associação dos Cabos e Marinheiros,
procurando contornar, pois se já o Govêrno não
dispunha do almirantado, não poderia perder a simpatia dos
inferiores. Disse-me, por fim, que, naquele dia à noite iria
se realizar uma reunião comemorativa do 2º aniversário
de fundação da Associação, no Sindicato
dos Metalúrgicos. Iriam comparecer para mais de 15 mil marinheiros,
segundo informações seguras. Não poderia comparecer,
em face dos atritos ocorridos entre o Ministro da Marinha e os marinheiros
e dos quais já haviam resultado algumas prisões que
estavam contrariando muito o Presidente.
Pediu-me o Presidente para representá-lo
na solenidade, falando em tom de conselheiro e de amigo. Fêz-me
recomendações várias, tôdas nesse sentido.
Por vários momentos repetia até o que teria eu de
dizer aos marinheiros.
Levantou-se, em seguida, e foi andando
pelo Palácio afora, numa escalada entre amigos que terminou
no aeroporto, rumo a São Borja.
Em seguida, Darcy Ribeiro me explicava
mais amiúde o problema da Marinha e que não me pareceu
de fácil solução. Inclusive achei, pela exposição
do Chefe da Casa Civil, que a minha presença na reunião
não seria muito aconselhável nem política.
Apesar do entusiasmo de Darcy Ribeiro pela reunião e pelo
meu comparecimento representando o Presidente, confesso que saí
do Palácio da Laranjeiras meditando muito sôbre o assunto.
“A
MOÇADA” DE ARAGÃO
Dirigi-me,
de imediato, ao Almirante Cândido Aragão. Apesar de
tôda a sua fama, encontrei-o cordato e também contrário
à reunião, mas esclarecendo que não tinha mais
fôrça para impedi-la. Censurou também o Ministro
Silvio Motta por não ter sabido dialogar com o que chamava
de a moçada, achando ainda um êrro
as últimas prisões verificadas.
Falei
dialèticamente com o Almirante Aragão. Disse que aquela
reunião não capitalizaria nada para o Govêrno,
nem renderia, politicamente, nada para a sua moçada.
Disse, em tom eloqüente, que iria ela servir para mais uma
campanha contra o Presidente e que o esvaziamento do Almirante Silvio
Motta era um êrro, pois até aquela data tinha sido
êle corretíssimo, disposto, leal e atuante –
ainda há alguns dias o Presidente havia participado com o
maior entusiasmo de homenagens prestadas por milhares de servidores
do Arsenal de Marinha. Em tom até veemente cheguei a dizer
que êle, Aragão, se era líder mesmo, devia impedir
a reunião. Não compreendia que a moçada
não ouvia ninguém, pelo que assim, acrescentei eu,
não teriam êles direito a querer o nosso apoio e a
nossa compreensão às suas reivindicações.
Aragão respondia sempre que a coisa chegara a um ponto que
“não dava mais pé”
para uma ação conciliatória dêle. Não
tinha mais autoridade. Disse-lhe para procurar o Cabo Anselmo
(um menino) e outros dirigentes, inclusive líderes sindicais
e deputados que davam cobertura às reivindicações
dos marinheiros. Andamos de seca e meca e não eram encontrados
os protagonistas da crise da Marinha. Fui, com o Almirante Cândido
Aragão, ao Ministro da Marinha. Entrei no gabinete de Silvio
Motta, sòzinho. Aragão ficou na chefia de gabinete.
SILVIO
MOTTA CONFIANTE
Ouvi
tôda a história oficial da chamada crise. O Ministro
Silvio Motta se mostrava confiante de que podia debelá-la.
Disse-me que não compareceriam nem quinze nem vinte mil à
noite e sim uns mil a mil e quinhentos. Disse-me que várias
das reivindicações (casamento, vestir à paisana
fora do serviço, melhoria de salários (um marinheiro
fazia quatro a cinco mil cruzeiros por mês), reconhecimento
dos Estatutos da Associação com pequenas modificações),
já estavam aceitas e me mostrou estudos reservados realizados
pelo seu “staff”
e que indicavam o atendimento daqueles pontos. Explicou que não
seriam conferidas de imediato, porque, primeiramente, teria que
ser mantida a disciplina. Mostrou-se inflexível e, ao ser
indagado por mim sôbre o meu comparecimento à reunião,
foi compreensivo mas muito lógico, dizendo-me que iriam sair
críticas à sua gestão, na minha presença,
e que, naturalmente, iriam me constranger, não apenas como
seu amigo mas como membro do Govêrno a que ambos servíamos.
O
DEDO ELEITORAL
Durante
tôda a tarde, ainda promovi “démarches”
e entendimentos para evitar a reunião. Havia o propósito
deliberado de fazê-la. Devia haver interessados na substituição
do Ministro da Marinha. Devia haver irresponsável manobrando
pelos bastidores. Devia haver inocente sendo manobrado. Devia haver
muita coisa, mas o fato é que, sob todos os aspectos em que
examinava o problema, me parecia um êrro a reunião,
um êrro maior a presença de qualquer Ministro lá
e, muito mais ainda, a minha, com o titular da Justiça e
que seria interpretada como a própria presença de
Jango. Só me preocupava o número de manifestantes
que iria comparecer ao Sindicato. O argumento era de que o Almirantado
já era contra Jango, por isso não se podia perder
a moçada, que era tôda da legalidade
e do Jango.
Senti em tudo, também, o
dedo da exploração eleitoral. Os marinheiros não
votavam, mas suas famílias, amigos, parentes e aderentes
votavam. Era um colégio eleitoral carioca a ser disputado
por deputados ativos e atuantes.
O CGT também queria ser dono
da bola para refletir prestígio nos seus quadros e assim
resultar o fortalecimento dos seus líderes.
Os marinheiros eram uma prêsa
de guerra política. Não há a negar que focos
de infecção estavam, já há tempo, provocando
todo êsse quadro.
DE
CIMA PARA BAIXO
As constantes demonstrações
de indisciplina de oficiais superiores, como no caso da nomeação
e promoção do Almirante Aragão, a atuação
do ex-Ministro Silvio Heck, as constantes publicações
de manifestações hostis ao Govêrno, tudo isso
estimulou a marujada que devia estar sendo trabalhada com igual
intensidade, de fora para dentro. As contradições
foram fatôres ponderáveis que se juntaram a todos os
erros cometidos.
Não é à toa
que se leva uma situação como aquela que se verificou
no Sindicato dos Metalúrgicos, uma juventude garbosa e que
se constitui orgulho da Pátria, nos convés dos nossos
navios de guerra!
À
noite, deixei-me ficar em casa de prontidão, de ouvidos colados
aos telefones, enquanto observadores pessoais meus compareciam ao
Sindicato dos Metalúrgicos, informando-me dos preparativos
da reunião e depois de suas fases iniciais. As informações
previam um grande comparecimento. Indicavam, entretanto, discursos
violentos. As previsões eram pessimistas com relação
à ordem. Consegui, ainda por intermédio dos meus observadores,
falar com vários líderes da reunião, civis
e militares. Fiz apelos, mostrei que era uma reunião sem
desdobramento, como num processo reivindicatório, salientei
que o Govêrno não poderia ficar com a indisciplina
e disse ainda da disposição do Ministro Silvio Motta
para o entendimento, desde que as armas fôssem ensarilhadas.
Não houve jeito. Os ouvidos foram fechados à razão.
Pressionavam até o Govêrno, com a convicção
de que, entre almirantes do contra e uma marujada a favor, o Govêrno
não teria mais o que escolher e que contavam com o apoio
sindical para uma greve geral no caso de conseqüências
mais graves da reunião. De nada adiantaram, para os líderes,
os meus últimos argumentos que tudo aquilo vinha somar mais
dificuldades para o Govêrno, fortalecer o inimigo comum na
exploração do dia seguinte e levantar novas fôrças
contra nós, com o slogan da inquebrantabilidade da disciplina.
Foram palavras ao vento...
Todo o sossêgo de uma Semana
Santa foi devorado pelos insensatos e por uma juventude mal conduzida.
Pela manhã cedo de Quinta-Feira
Maior, já coisas mais graves se juntavam aos acontecimentos
do Sindicato dos Metalúrgicos. Um médico responsável
e muito meu amigo, procurava-me para dar notícias intranqüilizadoras
para a segurança do País. O Ministro da Guerra que
se havia internado na segunda-feira da Semana Santa entrante, na
presunção de voltar para casa e ao despacho normal,
no fim de semana, tinha sofrido acidentes operatórios, pelo
que os prognósticos, mais otimistas, lhe davam trinta dias
de um pós-operatório, se não ocorressem novos
imprevistos.
O
DILEMA DA DISCIPLINA
Comuniquei
cêdo, dêsse mesmo dia (Quinta-Feira Maior), a Darcy
Ribeiro e a Riff (Raul – secretário da Presidência
da República) todo o ocorrido. Lembro-me que entre os atropelos
que se seguiram nesse dia, Raul Riff dizia – “Seu
Jurema, estamos fritos, o Presidente fora (São Borja), o
chefe da Casa Militar (General Assis Brasil, em Pôrto Alegre)
igualmente fora, o Ministro da Marinha demissionário e ainda
por cima, sem Ministro da Guerra!”...
Tivemos um dia cheio de dificuldades.
Vários foram os entendimentos com o General Morais Âncora,
comandante do 1º Exército. Providências acauteladoras
da ordem foram adotadas. Sentia-se, a todo instante, a falta do
General Jair Dantas Ribeiro, hospitalizado no Hospital dos Servidores
do Estado!
O
Ministro Silvio Motta, preocupado e muito justamente ferido no seu
orgulho de chefe da Marinha, procurava o apoio do Exército
apara abafar o movimento indisciplinar. Fuzileiros mandados para
o sindicato haviam aderido ao movimento, jogando as armas fora e
ingressando no recinto do sindicato para se unirem aos manifestantes.
Impossível ao Exército, entrar numa operação
limpeza que se afigurava sangrenta, contra companheiros de outra
arma. A situação se tornava extremamente delicada
e a meu ver sem solução conciliatória mais,
àquela altura. Alguém teria que se arranhar, descapitalizar-se,
perder substância popular em favor da ordem e da disciplina!
Seria o Presidente João Goulart. Os limites toleráveis
já haviam sido alcançados. Não mais poderia
o Presidente dialogar com uma tropa que já não obedecia
aos seus superiores.
Várias
reuniões de Ministros se seguiram. Oficiais da Aeronáutica
também compareciam procurando ajudar numa solução.
Lembro-me bem que o Cel. Lino Teixeira, que era sempre um juscelinista
apaixonado e um janguista ortodoxo, dizia a todo o momento: “qualquer
que seja a solução não esqueçam, é
sagrada e até rudimentar, a disciplina”.
Creio que foi do Cel. Lino a primeira idéia de conduzir presos
os marinheiros para os quartéis do Exército, pois
o ambiente entre oficiais e tropas, na Marinha, não era muito
animador, nem inspirava confiança.
A noite de quinta-feira ia alta
e tôda gente esperava pelo Presidente João Goulart
que já havia partido de São Borja, com escala em Pôrto
Alegre.
VOLTA
JANGO
Em
tôdo êsse cipoal, ninguém havia compreendido
como era que o General Assis Brasil, chefe da Casa Militar, havia
viajado na madrugada dessa quinta-feira agitada, deixando atrás
de si um mundo turbulento, na vã esperança de uma
Páscoa tranqüila no Rio Grande...
Chega afinal o Presidente. Tôda
a noite de Quinta Maior para Sexta-Feira Santa, foi gasta em conferências
sucessivas – do Ministro da Marinha demissionário (Silvio
Motta) ao Ministro da Marinha nôvo (Paulo Mário).
Nas
aparências, a solução do Presidente parecia
justa e a única. Remoção dos marinheiros sublevados
para os quartéis do Exército, abertura de inquérito
e regresso ao trabalho, de todos oficiais e marinheiros, no início
da próxima semana, segunda ou terça-feira.
Assisti à posse do Almirante
Paulo Mário e o comparecimento de quase todo o Almirantado
me tranqüilizara. Parecia que o Presidente havia acertado na
escolha e na hora precisa. De regresso ao Palácio da Laranjeiras,
essa também era a impressão de tôdos, inclusive
a do próprio Presidente.
Pensava-se que afinal iria reinar
paz na Semana Santa. Regressei para casa, no comêço
da noite de sexta-feira, com convicção de que a tempestade
havia passado.
Alguns
telefonemas de repórteres me indicavam mais tarde que o ambiente
voltava a agitar-se. Haviam sido libertados os marinheiros que se
achavam nos quartéis do Exército e já realizavam
passeatas rumo ao Ministério da Marinha.
MINISTRO
LIBERTA
Confesso, não entendi nada
a essa altura. Voltei ao Palácio da Laranjeiras e tôdas
as explicações diziam que o Almirante Paulo Mário
havia anistiado a gregos e troianos, num licenciamento geral, para
na próxima semana, apurar as responsabilidades. Na manhã
do sábado estive longamente com o Ministro Paulo Mário.
Tinha eu recomendações do Presidente João Goulart
para explicar, pela televisão, tôda a decisão
do Govêrno. O instituto da anistia era vitorioso no Brasil
que não era uma País de penas eternas, vários
exemplos me foram alinhados, inclusive da anistia concedida pelo
Ministro Pedro Paulo de Araújo Suzano aos oficiais-generais
que haviam devolvido condecorações. Falou-se da anistia
que Juscelino Kubitschek concedera aos sublevados de Jacareacanga,
logo no dia seguinte às últimas prisões, sem
que ao menos tivesse sido aberto inquérito.
Apesar de preocupado, pareceu-me
razoável a atitude do Ministro da Marinha, cuja figura me
inspirava confiança pela sua serenidade e sobretudo pela
sua firmeza.
Mas,
ao sair do Ministério já os jornais publicavam clichês
de Aragão e Suzano à frente de marinheiros que realizavam
passeatas pelas ruas da cidade. A repercussão, realmente,
em tôda a cidade era a pior possível. Ninguém
entendia a pressa na libertação dos marinheiros que
não chegaram a passar mais de horas nos quartéis do
Exército. Muito menos compreendia alguém, que tudo
fôsse comemorado festivamente como parecia pelos noticiários
da imprensa e do rádio.
TODOS
INSEGUROS
O Presidente João Goulart
a mim me disse que havia determinado a prisão do Almirante
Cândido Aragão e Suzano, em face das fotografias publicadas,
apesar, dizia-me o Presidente, do Ministro da Marinha haver explicado
que aquêles oficiais-generais haviam deixado o Ministério,
por ordem sua, para encontrarem a massa de marujos na Candelária
e evitarem a sua vinda maciça ao Ministério.
Tudo isso fêz voltar intranqüilidade,
desconfiança e apreensões, em todos os círculos
oficiais. Ninguém se sentia seguro.
Jantando
num restaurante da cidade, na noite de sábado, com a minha
família e amigos, fui abordado pelo Cel. Lino Teixeira. Estava
furioso. Havia tido um choque com o próprio irmão,
Brigadeiro Francisco Teixeira. Não compreendia a solução
e me dizia, expressamente, que o que êle estava sentindo de
revolta, de mal-estar e de surprêsa, todo mundo militar janguista
estaria também. Salientou que o Govêrno havia perdido
substância total no seu dispositivo militar. Êle que
era um ortodoxo, que havia sido prêso pelos mesmos oposicionistas
de hoje e que ontem negavam a posse do Sr. João Goulart,
êle que tinha um irmão num dos postos chaves do dispositivo
militar (3ª Zona Aérea), êle que lutaria até
ontem com armas na mão ao lado do Presidente e das reformas,
hoje não titubearia em lutar ao lado até de Carlos
Lacerda, para manter a disciplina que, a seu ver, havia sido violentada
irreparàvelmente.
FRANQUEZA
Impressionou-me o Cel. Lino Teixeira
e nunca mais pude esquecer a sua advertência – Seu Jurema,
a causa é tão ingrata que você, que sempre escuto
com agrado na televisão, não estava no programa de
hoje, nem convincente nem tão pouco convicto da tese que
defendia...
Se o Cel. Lino que era um janguista
politizado assim estava, podia-se bem imaginar como se achariam
outros setores apenas de simpatizantes!
No domingo, almoçava eu com
generais do dispositivo militar do Presidente, no Rio. Todos inquietos
com a ausência do General Jair, do Ministério. Faltava
comando e as notícias de Minas já indicavam que o
Governador Magalhães Pinto estava à frente de um movimento
agressivo pelo menos, naquele momento, de mobilização
da opinião. Havia reformulado o seu secretariado, integrando-o
com figuras nacionais mineiras como Alkmin, Milton Campos e Afonso
Arinos.
Era voz unânime que, em tempo
de paz, Jair poderia ser substituído interinamente pelo Ministro
da Aeronáutica, Anísio Botelho, que teria livre trânsito
no Exército. Acontece que já começava a soprar
fumaça de guerra e todos achavam que o Presidente teria que
quebrar o seu natural constrangimento e designar um General para
Ministro Interino. A Guerra não podia ficar sem comando na
hora da guerra. Era doutrina mansa e pacífica, entre todos
os presentes e creio que de uma evidência meridiana!
BARCO
SEM COMANDO
Não
sei se o Presidente subestimou os acontecimentos ou se a sua sensibilidade
foi maior do que o senso de realidade. A verdade é que, ainda
hoje, aguarda alta no hospital o General Jair Dantas Ribeiro por
mais de 40 dias, tudo dentro dos prognósticos do médico,
que lhe foram transmitidos por mim. O Presidente foi deposto e nunca
foi designado um ministro substituto. Vencera em Jango o sentimentalismo
e, sem querer ferir suscetibilidades do General Jair, deixou o barco
militar sem direção. Os quatro Exércitos ficaram
exclusivamente ao arbítrio dos seus comandantes que não
tinham com quem se entender, nos acontecimentos que se sucederam.
Não houve comando, nem comandante, na hora da procela!
Jair Dantas Ribeiro no leme, talvez
não tivesse regressado aos navios com tanta rapidez, a marujada
sublevada. Talvez a crise da Marinha não tivesse atingido
aquelas proporções. Jair Dantas Ribeiro nos comandos,
os campos de batalha teriam tomado outra conformação
e a legalidade seria mais uma vez salva ainda mesmo por um preço
alto ao prestígio e ao poder do govêrno. O Presidente
talvez tivesse tido outra decisão e a disciplina resguardada!
O destino tem mais fôrça
do que os seus participantes. Os acontecimentos envolvem os homens.
Só grandes figuras, na hora exata, podem alterar, com um
gesto, o curso da História. São, entretanto, homens
carlylianos que surgem de cem em cem anos.
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