O
adeus do peixe-vivo
Repórteres:
Eduardo Ramalho, Douglas Ferreira da Silva, Geraldo Viola e Elias
Nasser
Juscelino
Kubitschek de Oliveira, de 64 anos, nascido em Diamantina, descendente
de tchecoslovacos, casado com D. Sarah, tendo duas filhas, Márcia
e Maristela, avô, político desde 1930, deputado federal
em 1934, Constituinte de 1946, Prefeito de Belo Horizonte, Governador
de Minas Gerais, Presidente da República de 1956 a 1961,
candidato oficializado do PSD à Presidência em 1965
– eis a personalidade mais importante do cenário político
nacional que teve seu mandato de senador e seus direitos políticos
cassados por ato do Presidente Castello Branco.
Vitoriosa
a revolução democrática e anti-comunista, o
Sr. Juscelino Kubitschek de Oliveira passou a viver seus dias e
noites mais dramáticas. Estava êle convencido de que,
mais cedo ou mais tarde, os chefes revolucionários marchariam
de encontro aos seus direitos políticos, pois julgavam que
o candidato do PSD à Presidência da República
representava os interêsses contra-revolucionários e
através dêles, caso fôsse eleito, poderiam voltar
ao comando da política nacional os janguistas, comunistas
e esquerdistas. Era, êle, pois, o inimigo número um
da revolução vitoriosa. Os grupos militares batidos
na luta política de 1954, quando tentaram impedir a posse
de JK, empenharam-se duramente na liquidação do dirigente
pessedista, e o Presidente Castello Branco convenceu-se de que a
melhor forma seria, mesmo, a cassação do mandato de
JK e a suspensão dos seus direitos políticos, afastando-o,
dessa forma do páreo sucessório de 1965 e assegurando,
também, a consolidação da revolução
vitoriosa.
Kubitschek
passou dias e noites de angústia, jogando tôda a sua
imensa capacidade de articulação, sua arte política
aprendida entre as velhas rapôsas mineiras, a prudência
de Benedito Valladares, as conversas ao pé do ouvido de José
Maria Alkmin, cercado de assessôres importantes e desimportantes
– JK, otimista, ainda guardava uma tênue esperança
de vir a ser poupado pela Revolução. Mas na semana
decisiva, êle já compreendia que a solução
encaminhada ao Presidente da República era fatal para seu
destino político: não sobreviveria o candidato pessedista
à Presidência. Sua sorte estava selada. Convocou seus
redatores e preparou um discurso que pronunciou no Senado, pràticamente
despedindo-se do povo brasileiro.
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Desenvolveu-se
uma intensa luta política e militar entre os grupos que defendiam
teses diferentes: cassar ou não cassar Juscelino Kubitschek
– era a questão. Prevaleceu a tese do Professor Francisco
Campos, de que a Revolução teria de agir politicamente,
eliminando o maior obstáculo político que a ela se
opunha. O obstáculo era JK. O obstáculo foi removido,
num ato frio e cortante do Presidente Castello Branco.
Às
20 horas do dia 8 de junho de 1964, a voz forte do locutor da “A
Voz do Brasil”
lia para todos os brasileiros a decisão tomada pelo Chefe
da Nação. JK já não era senador. JK
já não tinha direitos políticos. Desaparecera
sua candidatura que apontavam vitoriosa.
Centenas
de pessoas acorreram ao apartamento do Sr. Kubitschek, na Avenida
Vieira Souto, em Ipanema. Grupos mais exaltados, lacerdistas e juscelinistas,
chegaram a entrar em luta corporal na rua. Choques da polícia
postaram-se diante do edifício onde reside JK. Os salões
do seu amplo apartamento encheram-se de amigos, correligionários,
gente comum, choros, euforia, risos, beijos, despedidas. JK mantinha-se
aparentemente otimista. Lançou uma proclamação
ao povo brasileiro, defendendo-se e atacando. Carregaram-no nos
braços os que lá estavam. Houve quem quisesse que
êle fôsse à rua, incorporar-se à manifestação
popular. D. Sarah, Márcia, Maristela, que são mineiras
e prudentes, opinaram de forma diversa. Houve entrevistas a emissoras
de rádio e tevê nacionais e estrangeiras. Jornalistas
de tôdos os países lhe pediam entrevistas. Era a noite
da despedida.
SÁBADO,
13 - GALEÃO
A
dramática saída de JK
Fotos
de Douglas Ferreira da Silva
“Deixo
o Brasil porque essa é a melhor forma de exprimir o meu protesto
contra a violência de que fui vítima e, ainda, porque
não subsistem, neste instante no País, as condições
mínimas que me permitam prosseguir na luta de que jamais
desertei, pela preservação das instituições
democráticas.”
São palavras pronunciadas
por JK no momento em que, em meio a tremenda balbúrdia, embarcava
para Madrid, em companhia de sua mulher, D. Sarah, depois de ter
seus direitos políticos suspensos por ato da Revolução.
Sôcos, pontapés, vaias,
gritos, vivas, ameaça de tiros. Era o ambiente no Aeroporto
Internacional do Galeão no fim da tarde de sábado
13, três meses depois do comício das reformas na Central
quando Jango provocou a sua própria deposição.
-
O senhor impõe a ordem, pare com essa bagunça, se
não... – disse, de revólver em punho, o comandante
da Base Aérea do Galeão, Coronel Alfredo Corrêa.
Os partidários do JK gritaram: “Gorila,
gorila!”
enquanto JK respondia ao Coronel: “Nada
posso fazer. É o povo”.
Momentos
depois o jato decolava. JK partia para o exílio voluntário,
prometendo fazer dezenas de conferências na Europa e EE.UU.
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