De Cabral a JK
Bananal volta ao Brasil

Texto de UBIRATAN DE LEMOS - Fotos de INDALÉCIO WANDERLEY

O VISCOUNT de JK apontou o nariz para um alvo de 300 km de comprimento por 160 de cintura: Bananal, a maior ilha fluvial do Mundo, agora promovida a fronteira avançada na marcha para o redescobrimento do Brasil. Será uma espécie de anexo de Brasília. O degrau n.º 2, rumo a chãos nunca dantes bem pisados. Bananal fica a 580 km de Brasília, com suas bananeiras, seus 300 carajás, que eram 800 índios taludos, vai para 20 anos, quando Getúlio acampou na ilha, levado pelas mãos saudosas de João Alberto. Bananal tem bossa de jardim. E cheira a mares do sul, entre seus rios que trazem o gôsto original de primeira água. A principal personagem do elenco silvestre é mesmo o ruivo Araguaia, que parece um arco-íris navegável. As praias brilham como neve. As areias, finas, dão ao tato sensação de sêda esfarelada. Escorregam pelos dedos de quem tenta prendê-las. A vegetação não tem mania de grandeza: é rasteira, espalhada, rodeando lagoas mansas. E possui tôdas as gamas do verde. O índio é o outro personagem marcante. Ao tempo das primeiras bandeiras eram 15 mil flechadores. A preia, as endemias, reduziram o rebanho de pescadores carajás. Hoje são êles 300, distribuídos por várias pequenas aldeias, ao longo do elegante Araguaia. Na banda ocidental da ilha (braço norte) existem as aldeias de S. Pedro, Guariroba, Fontoura, Manoel Joaquim, Crisóstomo, Jatobá, Carajá, Rosário e Macaúbas. Na banda oriental vivem os javaés. A sua aldeia principal é Imuti, que se liga por picada alagada a Santa Isabel, de onde JK invadirá aquêles pedaços rudes de Brasil. Os xavantes vivem para as bandas de Mato Grosso. Ao norte da ilha fica o famoso Bico do Papagaio, que marca a confluência dos Rios Tocantins e Araguaia. É lá que moram os apinaiés que, como os xavantes, costumam fazer caça pacífica no território dos tranqüilos carajás.

Pois nessa região pura vai entrar o traço de ballet de Oscar Niemeyer. A caravana pioneira, sob o comando do Doutor Geraldo Carneiro, secretário particular de JK e diretor da Carteira de Crédito Geral do Banco do Brasil, inaugurou há uma semana a submeta desenvolvimentista. E com parceria de jornalistas, do Engenheiro Juca Chaves, do sertanista Acary de Passos Oliveira e do Cel. Nélio Cerqueira, da Fundação Brasil Central. Essa miniatura de Borbas Gatos foi recebida com hurras pelos donos naturais da ilha. Jonas Ferreira Bonfim, representante local do SPI, providenciou danças nativas e feijoada, com intervalos de uísque - água-de-côco. A noite, com bola ao centro no céu de lua cheia, houve serenata do violão autêntico de Dilermando Reis, com agudos de César Prates. E por sinal afinados. Na manhã seguinte, Juca Chaves e Geraldo Carneiro esquadrinharam o terreno, conseguindo encontrar lugar enxuto para construção do Rancho-Pioneiro JK, com 100 apartamentos, na primeira etapa. Do rancho partirão esboços urbanos, que engrossarão com as correntes migratórias. Estas circularão também pela estrada de 120 km, sistema rodofluvial, que ligará a Belém - Brasília a Bananal, em 3 meses, se tanto. Notem que Bananal será menos atração turística que base de expansão econômica. Lá se colhem 200 mil sacas de arroz - produção sem vez de escoamento. Bananal tem terras fecundas. São vastos territórios de várzeas. É o rio que ajuda o homem. Nos 6 meses de cheia o rio deposita matéria orgânica nas margens. Quando as águas escoam, ficam as terras ricas, à espera de sementes, que resultam em opulenta lavoura. De novembro a março, Bananal mergulha para a operação fecundante. E flutua nos outros meses, quando o feijão, o milho, a mandioca etc. têm vez em seu lombo aluvionário. Uataú é o chefe dos carajás, desde que Getúlio Vargas, em 1942, o empossou no trono da taba. Ganhou aquêle cartório das selvas porque venceu na luta contra outros guerreiros (o idieçou). E Getúlio testemunhou a sua vitória. Agora Uataú está contente. Sabe que, desta vez, Bananal irá para frente. Por isso levou seu abraço a JK, no Palácio da Alvorada, onde conversou, inclusive, sôbre suas duas espôsas (Rotamaro e Narruira), que vivem sob o mesmo sapé. E sem puxarem os cabelos.

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