Cannes foi só ‘Doce Vida’

Reportagem de HELDER MARTINS
(enviado especial de O Cruzeiro)

COTE D'AZUR (Via Panair do Brasil)

CHEGAMOS ao fim da primeira semana do XIII Festival Internacional do Cinema, em Cannes. Dos primeiros dias de atividades restaram, no plano das realizações cinematográficas, as discussões em tôrno do filme a Doce Vida, de Frederico Fellini. Êste filme narra, em alguns capítulos sem seqüência e com certo simbolismo, a doce vida da sociedade romana dos nossos dias. Trata-se de uma obra magistral, cuja importância pode ser resumida na fórmula que encontrou um crítico: É ao mesmo tempo o melhor e o pior dos filmes do realizador de La Strada. As histórias narradas pela câmara de Frederico Fellini, como motivo complementar de debates, junta-se a duração do filme (três horas). Lembrando a projeção de Ben Hur, outra produção demasiado longa, alguém disse: Êsse XIII Festival de Cinema surgiu sob o signo do gigantismo. O que é certo é que a obra de Frederico Fellini descongestiona a atmosfera.

Êste ano, os jornalistas brasileiros tiveram uma surprêsa: raros experts e os próprios interessados anunciavam a participação do Brasil no Festival de Cannes. No ano passado, a possibilidade de sermos representados se desfez pouco antes do Festival. Orfeu Negro só pôde ser exibido como produção francesa, segundo deliberação dos velhos críticos do Itamarati que se recusaram a autorizar a sua exibição como filme nacional, conforme se desejava. Mais uma vez prevalecia o tabu do negro. Em 1960, não tivemos maiores chances. Já as fotos dos nossos filmes anunciavam um dêsses impertinentes lugares-comuns - um novo Gimba -, com histórias de favelas, a corrupção policial, o sensacionalismo da imprensa, a macumba e quejandos. Salvava-se apenas o interêsse comercial, bem como a boa intenção artística da fita, que os criticos combateram assim mesmo com veemência só igual à falta de inibição dos autores de Cidade Ameaçada.

No plano mundano, registrou-se a tentiva de suicídio (felizmente contrariada) de Perrete Pradier, vedete de Os Celerados. Pensou-se em golpe publicitário, mas a atriz entrou no Hospital de Nice, em estado de coma. Não houve bilhetes para dizê-lo, mas se soube que o gesto derivou de contrariedades sentimentais.

As grandes vedetes do cinema - as que provocam furor e que incendeiam o ambiente do Festival de Cannes - ainda estão por chegar quando redigimos estas notas. Como sempre, anunciou-se a vinda iminente de nomes famosos: Michèle Morgan, Daniel Gelin, Gina Lollobrigida, Brigitte Bardot, Sofia Loren. Quem quiser vê-los, por enquanto, deve consolar-se com os retratos profusamente distribuídos pelas vitrinas das lojas da cidade. Ontem, talvez por falta de matéria, um jornal anunciou, sem convicção, a chegada de Sacha Distel, ex-noivo de Brigitte Bardot e uma espécie de Caubi Peixoto francês. Centenas de jovens acorreram às imediações do Hotel Carlton. Foi o maior agrupamento dêste Festival Internacional.

A falta de inspiração chegou até mesmo ao domínio dos tradicionais escândalos, de que é exemplo típico o caso daquele suicídio. Uma agência de Paris resolveu fabricar assunto para reportagens, promovendo festa à beira de uma piscina. Aguardava-se um acontecimento excepcional, tal o mistério com que a anunciavam. A atração da reunião consistiu simplesmente em empurrar-se algumas môças dentro dágua, estando elas vestidas... Mais tarde, os organizadores do Festival promoveram um jantar. A parte de espetáculos foi confiada a uma vedete russa, mas não houve animação...

Aconteceu, ainda, o concurso de Miss Festival. Reuniu-se sôbre um rochedo uma dezena de biquínis em disponibilidade. Foi eleita (sem discussões maiores) uma bela crioula norte-americana.

Enfim, a parte mundana, a geralmente mais apreciada pelo público e a que faz o prestígio do Festival de Cannes, passou quase despercebida. Há apenas a lembrá-lo furtivas pin-ups posando para fotógrafos (amadores) e alguns senhores idosos, de ar severo e de gravata-borboleta, que à noite passam com jovens starlets para as soirées do Palácio do Cinema.

TOUREIRO DE SAIA

NUMA tourada que um grupo de cavalheiros idealizou à margem do Festival Internacional de Cannes, o touro negou-se a atacar o toureiro. Criou-se sério embaraço, até que a artista norte-americana Tina Louise se decidiu a salvar a tarde mexicana, enfrentando um touro adhoc, protagonizado por um dos fãs franceses em disponibilidade, que se muniu, inclusive (e necessàriamente), de pontiagudos chifres. Na foto, a toureira improvisada em plena ação contra o touro, com capa e tudo. Várias pessoas presentes asseguraram que aquela pode não ter sido a tourada mais violenta, todavia foi, sem dúvida alguma, a mais desejável...

À MARGEM do concurso do Festival de Cannes, Roberto Rosselini fêz projetar uma de suas películas, sôbre a qual buscara convergir o noticiário. Era Noite em Roma explora uma história já abordada por outros cineastas: os problemas do após-guerra. Os críticos, unânimemente, proclamaram que o ex-marido de Ingrid Bergman conseguiu, mais uma vez, produzir uma fita de lentidão soporífera, fria e sem brilho no relato. Nem mesmo a presença do ator soviético Sérgio Bondartchouk, pela primeira vez integrando um elenco ocidental, conseguiu alterar a monotonia da última produção de Rosselini.

A Argentina seguiu o exemplo (negativo) de RR, pois a fita que a representou no Festival, La Processión, não conseguiu agradar os comentaristas reunidos em Cannes. Coube ao México, entre os países de menor expressão na arte cinematográfica, apresentar a melhor película. Macário, de Roberto Gavaldon, conta a história terna de um lenhador do interior do México, que, um dia, sob as dificuldades financeiras mais terríveis, resolve roubar um peru. A fita é desenvolvida com bom gôsto, tendo uma fotografia excelente.

Macário transformou-se, destarte, numa agradável surprêsa do Festival Internacional de Cannes, projetando de forma marcante a cinematografia mexicana. A fita não alcançou, é óbvio, a repercussão de Doce Vida, tema central dos comentários de Cannes, mas também não recebeu as críticas amargas com que essa película foi contemplada - em meio aos elogios de alguns - por certos cronistas.

Por último, poderíamos destacar, na categoria das pequenas metragens, Le journal dun certain David, de Pierre e Sylviane Jalud, que narra a história de um menino de Copenhague. Fita de grande teor de lirismo, poderá ela, ao final, ser incluída entre as menções honrosas do Festival.

Não obstante, à margem dos espetáculos cinematográficos, Cannes conseguiu manter intatas as suas tradições neste XIII Festival Cinematográfico. As fitas exibidas só em pequeno número terão logrado êxito; muitos dos cartazes anunciados não compareceram; houve a desorganização de sempre; espetáculos marginais foram pobres de técnica ou de imaginação - mas as praias se encheram das belas mulheres de sempre, de pin-ups sensacionais, que podem não entender rigorosamente da Arte Cinematográfica, mas entendem perfeitamente da arte (às vêzes mais difícil) de aprisionar novos e velhos corações.

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