Carta
aberta ao Presidente da República
Rachel
de Queiroz
Senhor
Presidente:
Uma grande mulher brasileira, D. Maria Celeste Flôres da Cunha,
acaba de me escrever uma longa carta, que tomo a liberdade de resumir
para o Presidente, porque, suponho, os ouvidos bons de escutar a
saga dos que lutam pelo menor abandonado, no Brasil, são
os seus e não os desta sua criada, que nada pode fazer por
coisa nenhuma, senão clamar.
Conta D. Maria Celeste que, no comêço da década
de 50, como presidente do Departamento de Ação Social
da UDN, teve que vistar o Serviço de Assistência a
Menores - o famigerado SAM -, e de lá saiu prêsa de
profundo horror. Movimentou amigos, contou o que vira, solicitou
ajuda do nosso grande e saudoso Odilon Braga; e Odilon se encarregou
de preparar um projeto à Câmara, propondo criação
de órgão nôvo, já que, no consenso geral,
o SAM se revelava irrecuperável. Formou-se, então,
uma equipe que se pôs a estudar sèriamente o problema
e começou a agir. Dificuldades de todos os lados. Crise política.
Queda de Getúlio, nôvo govêrno Café Filho
nomeia para diretor do SAM a Paulo Nogueira Filho, já conhecido
pelo seu interêsse ante o problema do menor. E Paulo se apavorou
com o que viu, e escreveu o livro bem conhecido de todos que se
embrenham nesse labirinto: “Sangue,
Corrupção e Vergonha”,
onde relatava o que encontrou no SAM. Ajudado então por Prado
Kelly, Paulo Nogueira elaborou um anteprojeto de lei que extinguia
o malfadado Serviço e o substituía pelo Instituto
de Assistência ao Menor (INAM). Em cinco dias estava o projeto
na Câmara! Ia haver o milagre - mas o que houve foi novembro
de 55 e o “retôrno”
do General Lott. Parou tudo, sumiu o projeto.
Nessa altura a Ação Social Arquidiocesana (ASA) resolveu
entrar na briga. Formou uma equipe excelente, de gente provada no
assunto - D. Anita Carpenter, Guiomar Mancini, a própria
Maria Celeste e Prado Kelly. Foi essa equipe desenterrar o projeto
desaparecido na Câmara. Modificaram-no, atualizaram-no, e
o projeto voltou ao Parlamento. Os maiores nomes da Câmara
o apoiaram, entusiasmaram-se com êle - mas aí, estava-se
em plena era Juscelino. Interferiu a política, tumultuou-se
o projeto, deram nome diferente ao futuro órgão (já
agora seria o CONSELHO DO BEM-ESTAR DO MENOR) e, sob diferentes
pretextos, pararam com tudo.
O grupo da Asa, entretanto, não desanimou e, bem ajudado
por gente de bom coração e boa cabeça, teimou
em furar o bloqueio oficial. O SAM vivia um dos seus piores momentos.
Mas o Senhor sabe, Presidente, como é difícil fazer
o Congresso andar quando não está em jôgo algum
interêsse grande da maioria - e aqui no Brasil as maiorias
parece que não consideram o problema do menor como de interêsse
nacional! Afinal, o grupo obstinado conseguiu desencantar o projeto
Kelly (o do INAM); Pedro Aleixo tomou a si apresentá-lo;
mas vieram as eleições, e pouco depois morreu Odilon
Braga, um dos comandantes do movimento pró-menor. Parou tudo
outra vez.
Govêrno Jânio Quadros: nôvo escândalo nacional
com revelações sôbre o SAM, inquéritos,
o Presidente manda que se estude um órgão para substituir
a horrenda instituição. Na comissão nomeada
para êsse fim entram dois veteranos do combate - Pedro Vieira
e Paulo Nogueira Filho. E a comissão recomenda ao Presidente
que envie ao Congresso aquêle dito projeto, já pronto
e perfeito... nas logo depois Jânio renuncia.
Serenada um pouco a confusão daquela fase tumnultuosa, foi-se
desentranhar na Câmara o projeto do menor - de nôvo
desaparecido! Jango, apesar de tudo, se interessou e, depois de
nomear para diretor do SAM Eduardo Bartlett James, um dos lutadores
da campanha, nomeia o mesmo James presidente de nova comissão
destinadas a estudar o problema do menor. Tudo parecia,
afinal, sanado, e os cruzados se encheram de esperança.
Foi então que, num assalto noturno, dois meninos, duas crianças
matam outro menino - o môço herói Odylio Costa,
neto. O confôrto único do pai, naquela hora de grande
desgraça, foi dedicar-se à solução do
drama do menor abandonado, para que tragédias como a sua
não se repetissem - e assim a batalha em prol do menor ganhou
um dos seus mais preciosos recrutas. (Já nela estavam empenhadas
outras grandes figuras, como D. Cândido Padim e Helena Iraci
Junqueira, nome conhecido internacionalmente no campo da Assistência
Social). Recrudesceu o trabalho. A Comissão vivia a correr
de Brasília para o Rio; João Mangabeira, Ministro
da Justiça, pràticamente oficializou o velho grupo
de combatentes, chefiados por James. Trabalhavam dia e noite, literalmente,
e de graça, claro. Mas então morreu Bartlett James,
outro! E João Mangabeira demitiu-se, sendo substituido por
Abelardo Jurema.
A essa altura, o grupo no poder tinha outros gatos a açoitar,
- e desinteressou-se do menor abandonado. Voltaram os teimosos à
Câmara. Pedro Aleixo, líder da Minoria, releu o projeto,
que as vicissitudes sucessivas iam aperfeiçoando cada vez
mais, e prometeu dar-lhe andamento sem mudar uma vírgula;
assim o fêz, mas aí Deus Nosso Senhor e os chefes militares
suscitaram o 31 de março de 64 - e Jango caiu.
Assumiu o Ministério da Justiça essa flor do gênero
humano que é o mineiro Milton Campos. Nôvo alvorôço
dos cruzados, nova busca do projeto que, na Câmara, mais uma
vez tinha desaparecido! Milton arranjou nova cópia,
adotou o projeto sem alterações, ficou tudo pronto...
e então o projeto parou. Agora só pode andar se receber
uma palavra do Ministro da Fazenda. É só uma linha
e meia do projeto que precisa da aprovação do Dr.
Bulhões. - uma linha só atrasando solução
de tal gravidade. (Trezentos mil menores só no Estado da
Guanabara!) Odylo e D. Maria Celeste foram ao Ministro, que os ouviu
e disse sim (pouco depois Odylo teve também o seu enfarte
do qual se recupera, graças a Deus) - o Ministro disse sim,
mas o projeto está parado, sumido sabe-se lá em que
assessoria, falam até que no Ministério do Planejamento.
E, Presidente, assim termina D. Maria Celeste a sua corajosa carta:
“Cheguei
a esta conclusão: a maior fôrça dêste
País, desde 1941, chama-se SAM. Tudo se altera, menos a crescente
desgraça da criança abandonada. E entretanto creio
que nada há mais trágico do que vemos crianças
(são internadas em geral aos 7 anos), que estão sob
a guarda do Estado, serem transformadas em assassinos”.
Presidente, pelo amor de Deus, ouça D. Maria Celeste e os
seus dedicados companheiros de luta. Mande apressar as tecnicalidades,
os vagares burocráticos - o senhor mandando, tudo corre!
Aliás esta carta é só um lembrete - ninguém
precisa lhe dar lições de patriotismo e amor ao bem
público. E assim, depois de lhe contar o caso, sinto-me tranqüila.
Confio e espero.
R.
de Q.
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