Diálogo no escuro

HERBERTO SALES é dos mais sérios escritores da língua portugêsa. Não é um best-seller, não se trata de um romancista popularesco, voltado exclusivamente para os sucessos de livraria e para a consagração imediata. Êle prefere trabalhar com seriedade e manejar com honestidade e perícia e riqueza vocabular do idioma que domina. Sua linguaguem, porém, é acessível a todos: a nós, brasileiros, e a qualquer povo. Cascalho, um dos seus mais importantes trabalhos literários, acaba de ser lançado em língua tcheca, numa edição que prima pelo extraordinário bom gôsto e concepção de arte gráfica. Jornalista profissional, dirige a revista A Cigarra e a Editôra O CRUZEIRO. É uma extraordinária figura humana, com idéias próprias e inéditas sôbre as soluções dos problemas nacionais - desde o problema do negro à solução que defende para o turismo e as praias da Guanabara, que, segundo êle, devem funcionar com entrada paga e sessões de duas horas. É um homem metódico, prêso a padrões nada baianos, pois se assemelham aos melhores padrões saxônicos. É um saxônico que nos sabe fazer rir a sério e que, quando menos se espera, surpreende-nos com um formidável romance destinado à galeria dos clássicos.

 

CARLOS HEITOR CONY foi seminarista e virou ateísta. Não faz propaganda do seu ateísmo, que é puramente amadorístico. Mas só o ateísmo é nêle amadorístico, pois Cony é um competente profissional do jornalismo diário, da crônica e da literatura. Seus livros já eram consagrados entre os críticos e os escritores, quando o amável cronista do segundo caderno do Correio da Manhã transformou-se ràpidamente num terrível panfletário, num censor implacável da Revolução de Abril e de seus principais comandantes civis e militares. Estêve e ainda está ameaçado de prisão e seqüestro. Processado pelo Ministro da Guerra, ninguém pode negar a êsse excelente escritor e jornalista a coragem de dizer o que pensa e, principalmente, no momento em que poucos ousavam fazê-lo. Foi durante os primeiros meses do nôvo Govêrno o conduto por onde respiravam, alegremente, os partidários do Govêrno deposto e os que não concordavam com a linha dura militar tenazmente perseguida por Cony. A alta qualidade literária das crônicas de Cony e a sua ousadia fizeram-no o intérprete legítimo, na imprensa diária, dos sentimentos e ressentimentos, da tristeza e da ânsia.
E seus livros viraram "best-sellers".

 
Coordenação de Leda Barreto
Fotos de Douglas Alexandre
 
QUAL a relação entre seu regionalismo baiano e o regionalismo do romance nordestino?

R. Homem, para falar a verdade, acho que a relação é de tema: o drama da terra, tomado numa acepção ampla. Mas não creio que eu tenha recebido influência profunda do regionalismo nordestino nos seus romances regionais da Bahia. De qualquer modo, sem a leitura dos romances das sêcas e da cana-de-açúcar, eu talvez não me sentisse tentado a escrever, um pouco por espírito de imitação, o romance dos garimpos, com que iniciei, bem ou mal, a minha carreira literária.


P. Você acredita que sua obra, conquanto descrevendo situações sociais, pertence à littérature engagée?

R. O sentido social de minha obra é uma fatalidade decorrente das situações que ela retrata. E, conquanto a tenha marcado tão fundo, exclui qualquer intuito deliberado de littérature engagée. Isso não impediu, entretanto, que um amigo, em conversa, me tenha feito esta observação surpreendente: Além dos Marimbus seria um romance a serviço da reforma agrária!


P. Que você acha da exigência de renovar o romance brasileiro por uma renovação de linguagem? Você pretende enveredar por êsse caminho?

R. A renovação de linguagem, sem dúvida, é um caminho válido para a renovação do romance brasileiro, e temos dois notáveis exemplos disso: Guimarães Rosa, com o Grande Sertão: Veredas, e José Cândido de Carvalho, com O Coronel e o Lobisomem. Mas não é, no meu fraco entender, uma exigência para renovar o romance, que pode ser renovado à base de outros elementos, como sejam, a estrutura, o estilo e a concepção. De minha parte, faço o que posso enveredando por outro caminho: o neoclassicismo.


P. Existe tradição ficcionista na Bahia (de Xavier Marques a Adonias Filho e Jorge Amado)? E você se considera enquadrado nessa tradição?

R. Não acredito, a rigor, na existência de uma tradição ficcionista na Bahia. Xavier Marques, Adonias Filho e Jorge Amado representam três tendências inteiramente diversas e até antagônicas no conjunto do romance baiano. E neste, para ser sincero, não foi onde me possa enquadrar. Vá ver que me enquadro na ficção mineira... por influência de uma certa área de interpenetração com o romance baiano: a área dos garimpos e dos gerais.


P. Qual é o lugar da análise psicológica no romance social-regional?

R. A análise psicológica, em maior ou menor grau, está presente em todo romance que verdadeiramente o seja. Sem psicologia, nenhum romancista poderá criar um personagem válido. O romance, em suma, é a história do Homem, como ser social e humano - a história das suas fraquezas, ambições, angústias, e, como tal, a análise psicológica lhe é inerente.


P. Você acredita nas experiências de Robbe-Grillet, Butor e Simon?

R. Modéstia à parte, nunca li Grillet nem Simon. Estou naquele período em que, como dizia Jules Renard, é mais importante reler os autores eternos que ler os novos - com exceção dos amigos. Butor eu conheço. Li A Modificação. É uma experiência fascinante, e acredito nela como uma tantativa eficaz de renovação do romance.


P. E a literatura e o cinema?

R. Minha experiência com o cinema foi desastrosa. Fizeram de Cascalho um mal filme, como acontece, em geral, quando os cineastas resolvem melhorar os livros da gente. Enfim, literatura e cinema são coisas bem diferentes, sem um campo comum de linguagem. Êste ano, porém, escrevi sob encomenda, uma história especialmente para o cinema, a ser filmada dentro em breve. Vamos ver que bicho dá!


P. Você está escrevendo um nôvo romance?

R. Sim, estou escrevendo, ou melhor, pràticamente acabando um nôvo romance, que já tem uma parte composta na oficina. Deverá sair nos primeiros meses de 1965. Você não me perguntou qual o título. Nem eu o diria. A experiência me ensinou que não se deve divulgar, sob nenhum pretexto, o título de um livro, antes de têrmos escrito o último capítulo.


P. Além dos Marimbus entusiasmou o melhor público. Pergunta: você prefere êste romance ou Cascalho? Por quê?

R. Gosto dos dois. Êles significam, para mim, dois momentos diferentes, na minha vida e na minha literatura. Gosto de cada um dêles a seu modo.


P. Você tem ganho dinheiro com a literatura?

R. Dinheiro, mesmo, tenho ganho pouco. Êste ano, porém, a coisa vai melhorar, com a publicação, na Tcheco-Eslováquia, de Cascalho, e, em Portugal, de Além dos Marimbus. Entrei na chamada área internacional do dollar. E que o câmbio me ajude!

 
 
NOS dias de terror que se seguiram à Revolução de Abril, quando as liberdades individuais estiveram sob permanente ameaça, você teve uma atuação histórica: foi a única voz que se ergueu, possìvelmente em todo o Brasil, em defesa do espírito contra o sabre, para usarmos a expressão insuspeita de Napoleão. Pergunto: você temeu, em algum momento, durante aquêle período, pela sua integridade física?

R. Sim e não. De início, não. Depois sim. Principalmente quando classifiquei o movimento de abril como uma revolução de retrógrados e caranguejos. As ameaças chegaram ao ponto crítico. Minha casa foi cercada por militares decididos a punirem o jornalista que se insurgia contra a progressiva militarização da política e da administração pública. Passei por alguns momentos aborrecidos, mas valeu a pena.

P. Mussolini, na mocidade, tentou a literatura, e escreveu, inclusive, uma novela, que passou despercebida. Goebbels, antes de entrar para o Partido Nazista, escreveu duas peças teatrais e não conseguiu vê-las encenadas. Hitler - para não falar em Minha Luta, que é um livro político - também teve as suas veleidades literárias, chegando a formular conceitos sôbre a arte de ler. Pergunto: não acha você que a frustação literária, refletida no campo da Política, pode conduzir à intolerância política, e, havendo clima, até mesmo ao despotismo político?

R. Qualquer frustação pode garar qualquer tidpo de criminoso. Para não ir muito longe no tempo ou no espaço: temos um notório exemplo do intelectual frustado que já pode ser conceituado como um criminoso político. O Sr. Carlos Lacerda, depois de um estágio na subliteratura - com a agravante de reincidir nas horas vagas - , enveredou pelo crime: já prega o fechamento do Congresso e a abolição da liberdade de imprensa.

P. Os nossos varões de Plutarco resolveram abolir o privilégio constitucional de isenção de impostos para jornalistas e magistrados. Esqueceram-se de que Diocleciano, o gênio da organização, campeão dos impostos na velha Roma, admitiu, em casos específicos, a isenção dêles. Pergunto: a isenção de impostos para jornalistas e magistrados era porventura um privilégio absurdo?

R. A pergunta é complexa. Isentar jornalistas e magistrados dos impostos pode ser um absurdo. Mas no caso específico do impôsto de renda, não há nenhum absurdo. Absurdo é que apenas essas duas classes tenham isenção de tal impôsto. Considero que outros trabalhadores deveriam gozar dessa isenção. Todos sabem: rico, no Brasil, não paga impôsto nenhum. E quem tem rendas são êles.

P. Você é um escritor, um romancista, um criador literário, mas teve, por fôrça da Revolução de Abril, uma atividade política no jornalismo, de que resultou o seu livro O Ato e o Fato. Pergunto: que papel atribui você aos estudantes na vida política de um país?

R. Os estudantes atuam na vida pública de um país de diversas formas. Diretamente, tomando compromissos com as causas do momento; e indiretamente, formando novas gerações que, um dia, se diluirão na vida nacional. O primeiro contato do jovem com os problemas públicos é benéfico. Os exageros, as emoções - não serão culpa dos estudantes, e sim, da mocidade. Pois prefiro os exageros da mocidade à excessiva prudência dos velhos.

P. Além de sua atividade jornalística, você publica, todos os anos, um romance. Quer me dizer como disciplina o seu tempo, em face do seu trabalho literário?

R. Estabeleci uma híerarquia: sou, em substância, um romancista. E, em acidente, um jornalista, um motorista, um contribuinte, um cidadão. O meu trabalho literário está acima de qualquer outro compromisso ou causa. Quando estou com o romance estourando na cabeça, abandono tudo e vou escrever as cem ou duzentas páginas que estão pedindo passagem. Depois sim, me dedico ao resto.

P. Que lhe importa em sua obra de romancista?

R. Criar, em têrmos de arte, uma visão pessoal do Mundo e do homem. Do meu mundo, do meu homem.

P. Não falta quem considere chocantes os seus romances. Você está de acôrdo com isso?

R. Problema irrelevante. Quando tinha onze anos, vi um velho meter uma bala no crânio. Fiquei chocado. E daí? Quantos velhos e moços não continuam e continuarão a meter balas na cabeça? Quê que eu tenho com isso ou contra isso?

P. Você há de ter, certamente, dentre os seus livros, o de sua preferência. Qual dêles? E pode me explicar os motivos dessa preferência?

R. Sim. Tenho um preferido: O Ventre. O mais puro, o mais autêntico, o menos conspurcado pela literatura.

P. Embora você esteja em causa, ou, talvez, por isso mesmo, que acha do moderno romance brasileiro? Gostaria de ouvir a sua opinião.

R. Sem perspectiva para um juízo mais amplo, creio que já podemos classificar uma fase no romance brasileiro. Depois do ciclo regional, vigoroso em nomes e em obras, esboçou-se a reação do romance dito urbano. Não gosto de classificação, mas não posso fugir à realidade: há um tipo de romance que vem sendo escrito e lido. Os problemas do homem - e não os da região - voltaram a dominar em nossa culinária editorial. Evidente, não surgiu ainda nenhum Dom Casmuro ou nenhum Policarpo Quaresma, mas há gente fazendo fôrça para isso.

P. E, para terminar, com vistas a um furo: qual o seu próximo romance? Diga o título e o assunto.

R. Ballet Brancoé o título. Bailarinas, músicos, coreógrafos e tôda uma fauna de modestos artesãos teatrais estarão reunidos em uma excursão de ballet. Fiz parte de excursões assim, há tempos, e tenho muita coisa para contar. Ano que vem estará nas livrarias.

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