Futebol foi o fim

NEWTON Cardoso reuniu um time à base do Fluminense, que não é o melhor do futebol amador brasileiro, e lhe deu toques de selecionado. De falso selecionado. Depois, deitou falação aos jornais para dizer que o quadro era individualmente superior à seleção que levara a Helsinque (e que tambem não era lá grande coisa) em 52. Partiu todo lampeiro. Quando chegou a Chicago, botou banca de professor. No campo de treino, os garotos o cercavam para aprender alguma coisa do futebol campeão do mundo. Vieram os primeiros compromissos e o timinho fêz para o gasto. Foi ganhando de quem devia ganhar. Até que aconteceram os Estados Unidos, com 4 gols de Murphy. O resultado, bem, é melhor virar a página. Aquilo foi pior que foguete soviético na garganta da gente. Muito pior do que o vexame que os inglêses sofreram na Copa do Mundo de 50, em Belo Horizonte. Na partida final, com a Argentina, o Brasil entrou em campo perdendo feio no goal average. Teria de ganhar com diferença de quatro para voltar campeão, como campeão havia chegado. Um modesto empate foi o máximo que conseguiu. A seleção voltou ao Brasil com quase todos os jogadores culpando o treinador pelos maus resultados. Só o treinador desceu no Galeão sem mágoa e sem rancor. Anunciou que havia conseguido programar uma excursão do Fluminense aos Estados Unidos. A missão fôra cumprida.

Boxe desconhecido fêz mais do que seu dever

QUANDO o juiz levantou o braço direito do pêso-médio Abrão de Sousa, os brasileiros que estavam no Ginásio do Illinois National Guard não se contiveram e começaram a entoar o canto da vitória: Brasil! Brasil!

No começo eram poucas as vozes, mas logo o côro cresceu, na mais espontânea e entusiástica homenagem prestada a um campeão dos III Jogos Pan-Americanos. Os próprios norte-americanos, que com tristeza haviam assistido à derrota de Bobby Foster, ficaram de pé e ovacionaram o vencedor. Tony Zale, ex-campeão mundial da categoria, comentou com um amigo:
- Êsse pêso-médio é terrível. Não me admirarei se êle ainda conquistar o campeonato do mundo.

O velho treinador Kid Jofre chorava quando a bandeira do Brasil foi hasteada.

Na mesma noite, um outro brasileiro vencera o campeonato. O pequeno Waldomiro Pinto, crioulinho bom na batida do samba e no ritmo do ringue, também conquistou sua medalha de ouro. Para reinar no trono dos galos, Waldomiro Pinto precisou derrotar três rivais: o canadense Alphonse Chabot, o norte-americano Petros Spanakos e o argentino Carlos Cañete.

Johnny Coulon, que de 1907 a 1914 foi o campeão mundial dos galos, ao cumprimentar o brasileiro segredou-lhe:
- É assim que se ganha um título: com o coração.

Ninguém acreditava muito na equipe de boxe. Nem mesmo o Comitê Olímpico, que só queria mandar seis pugilistas, um treinador e um delegado. Mas o Coronel Vicente Ságuas, presidente da Fundação Paulista de Pugilismo, abriu mão de seu lugar em favor de um lutador e quebrou lanças pela vinda de mais dois homens, Conclusão: nenhuma outra delegação conseguiu tantas glórias para o Brasil.

Além daqueles dois campeões, o pêso-môsca José Neves Martins, um metro e pouco de coragem e fibra, sagrou-se vice-campeão. O meio-médio Manuel Teixeira, o médio-ligeiro Hélio Lambreta Crescêncio e o pêso-pesado Jurandir Nicolau terminaram o torneio no terceiro pôsto, conquistando vitórias expressivas.

Dois nomes faltam nessa relação: o meio-pesado Pedro Leite e o meio-médio-ligeiro Jorge Sacoman. O primeiro, eliminado do certame por uma decisão discutível, pagou sua passagem, lutando com extraordinária coragem. Quanto a Sacoman, êste nem os jurados conseguiram derrotar. Foi preciso que o médico norte-americano, aplicando um autêntico golpe baixo, o impedisse de subir ao ringue para enfrentar seu compatriota Vicent Shomo. Sacoman estreara na véspera e não deixara dúvidas de que o título seria seu. Quando ia conquistá-lo, entretanto, o médico o declarou sem condições físicas para lutar. Diagnóstico: uma espinha no tórax!

Na galeria de nossos campeões de boxe, um nome deve ser incluído. É o nome de Éder Jofre. O oitavo pêso-galo do mundo, sacrificando seu próprio regime de treinamento, embarcou para os Estados Unidos e veio servir de sparring para nossos rapazes, ensinando-lhe um pouco do muito que sabe.

A vitória coletiva do torneio de boxe coube à equipe norte-americana e o segundo pôsto aos argentinos. Os brasileiros ficaram em terceiro lugar. Com seus punhos enluvados, os meninos de Kid Jofre superaram as representações do Canadá, Chile, Cuba, República Dominicana, Uruguai, Nicarágua, Panamá, Pôrto Rico, Venezuela, México e Guiana Britânica.

 
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