8 medalhas de ouro: saldo de um fracasso
Salvaram-se volibol, boxe, salto, iatismo, pentatlo e ciclismo
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Reportagem de LUIZ CARLOS BARRETO e E. PACOTE
(enviados especiais de O Cruzeiro a Chicago)
 

Chicago, setembro - (Via Varig)

Nos III Jogos Pan-Americanos, o volibol brasileiro foi uma das boas coisas desta tournée verde-amarela. Em jôgo e graça. Como técnica e como beleza. Em coração, em disposição tática, em personalidade para chegar à grande vitória. A medalha de ouro conquistada foi de ouro do melhor quilate. E as garôtas a conquistaram depois de dois meses de preparativos. Depois de conquistarem a platéia da Proviso High School, que só teve olhos para os calções curtinhos da sereias e as cortadas eletrizantes. De Vera e Marina, que são funcionárias públicas, a Marta e Iriana, que são estudantes, elas formaram uma só família em talento e simplicidade. Foram uma família de legítimas campeãs. Quando terminou o jôgo com os Estados Unidos, elas cantaram, chorando, o Hino Nacional. Eram lágrimas de felicidade que o esporte brasileiro recordará como um dos seus melhores momentos.

No atletismo, a atuação do Brasil foi ridícula. E dêles se esperava muito. Esperava-se de Teles da Conceição, que no Flamengo é homem-equipe, ganha campeonato sòzinho. Esperava-se de um punhado de bons atletas, que passaram razoàvelmente os índices olímpicos e em Chicago nem sombra foram.

Uma vez mais, ficou evidenciada a necessidade de uma revisão completa em tôda a estrutura dêsse esporte. Os quadros dirigentes devem ser renovados e, com êles, substituída uma mentalidade já superada. O atletismo no Brasil não pode continuar sendo hobby de alguns respeitáveis senhores e de alguns divertidos rapazes que vão às pistas apenas para obter índices para periódicas viagens turísticas.

A maneira como se organizou a equipe de atletismo que competiu em Chicago é a condenação definitiva dos atuais dirigentes dêsse esporte no Brasil. Os atletas participaram das provas para índices e depois, em sua grande maioria, só voltaram a tomar conhecimento do Pan-Americano no dia de fazer as malas e de pegar o avião. A escolha do técnico foi feita à última hora e ao Sr. Aloísio Queirós, treinador de reconhecida capacidade, parecia ter sido reservado o papel de simples acompanhante dos atletas. Sem dispor de tempo para estabelecer um contrôle rigido sôbre o treinamento dos atletas, o técnico limitou-se a assisti-los no que era possível. Assim, sem orientação e sem comando, cada atleta treinando como bem entendia, uns fazendo o interval training e outros não, nossa equipe quase nada obteve, a não ser discretos quartos lugares.

Do fiasco, só escaparam Ademar Ferreira da Silva e Vanda dos Santos.

O público presente ao estádio de Soldier Field viu e lamentou quando Ademar teve que abandonar a prova do salto triplo devido a uma distensão muscular. Ainda lhe restavam dois saltos da fase final que êle não pôde completar. Mesmo assim venceu a prova, pois sua marca de 15,90 m não foi igualada por nenhum dos outros competidores.

José Teles da Conceição e Ademar Ferreira da Silva eram as grandes vedetes do atletismo para os compromissos difíceis do Soldier Field. Ademar confirmou sua categoria de bicampeão dos Jogos Pan-Americanos. Saltando pouco, mas o bastante para vencer. José Teles ficou na promessa. Só Ademar e Vanda dos Santos falaram bem do atletismo.

O BASQUETE masculino foi quem desembarcou em Chicago com o título mais pomposo: campeão do mundo. Com um plantel quase à base do que havia voltado em triunfo de Santiago do Chile. Perdeu para os Estados Unidos. Muito certo. Os Estados Unidos têm o melhor basquetebol do mundo e não estavam em Chicago com a mesma caricatura de seleção que os representou no Chile. O que não se esperava - mas aconteceu - foi a derrota diante do México. Essa complicou tudo. Deixou o basquete masculino em posição inferior até ao basquete feminino. De qualquer forma, afirmam alguns técnicos americanos que o Brasil tem progredido sensivelmente em basquetebol. Vem jogando com extraordinária velocidade. E, sem dispor de homens de dois metros acima do nível do mar (como os Estados Unidos), o Brasil faz um basquete prático, simples, bonito. Com mais arrumação, poderá mandar a Roma, em 1960, uma equipe de primeira categoria.

TAMBÉM no volibol masculino se concentrava uma das maiores esperanças de sucesso do Brasll. Tinha credenciais como o volibol feminino, mas não as confirmou. Só nos trouxe uma medalha de prata (segundo lugar): uma das nove que o Brasil ganhou. As de ouro foram oito e as de bronze (terceiro lugar) foram seis (basquete masculino entre elas). Foi um saldo meio melancólico para uma representação tão numerosa (a segunda em número de atletas), mas que dará aos responsáveís pelo nosso esporte uma orientação nova para a festa mundial dos esportes a ser realizada em Roma.
 
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