Ministro da Aeronáutica está ao lado de Tenório Cavalcanti

CENÁRIO: o gabinete do Ministro da Aeronáutica, Major-Brigadeiro Francisco de Mello. Personagens: Tenório, o Ministro e um grupo de Brigadeiros. O Deputado assume um tom confidencial na conversa. Êle se propõe a não só destruir as pseudoprovas contra Bandeira, como contar ao Ministro o que existe fora do processo - pois é às margens dos autos que o crime do Sacopã se torna mais palpável. É lá, além-processo, que o caso tem as suas melhores tintas de verdade. Os falsos indícios contra o Tenente perdem totalmente a expressão em confronto com a forte matéria indiciária que o Deputado Tenório está mostrando à Nação. Observem, agora, êste episódio, através de perguntas nossas e respostas de Tenório.


Ubiratan: - É verdade que o Ministro da Aeronáutica não deseja participar das suas investigações em tôrno do crime? É verdade que êle foi procurado por pessoas prestigiosas, que argumentaram contra Bandeira?

Tenório: - Não e sim. Não, porque das 3 vêzes que estive com o Ministro, as suas palavras foram de incentivo e solidariedade. Mandou até chamar o Brigadeiro Jair, do Contencioso do Ministério, para que, juntos, estudássemos a forma legal de a Aeronáutica participar da campanha. Direi por que sim, também, à sua pergunta. Houve alguém que garantiu ao Ministro ser Bandeira o criminoso. Mas o argumento foi infantil: uma briga do Tenente Pôrto com Bandeira. Motivo: Marina. É um fato sem importância, truncado pela Polícia, parcialíssima neste caso. O outro fato que abordei é o detalhe de Bandeira ter sido apresentado como tipo esquisotímico. Ora, êste tipo não é figura morfológica. Os tipos esquisóides não são de matar, assim como os ciclóides não são de calar, e sim de falar. A testemunha Gilberto Nogueira Bastos (contra Bandeira) é suspeita. A sua história, segundo a qual deu carona para Marina e sua mãe, e que Marina pediu a êle que rodassem para o Leblon, pois receava que seu namorado matasse outro homem (Afrânio), é inverossímel. Os 3 quilos de processo contra Bandeira são do mesmo diapasão: conversa fiada. Provas desprezíveis - acentuaria Romeiro Neto. Como seria possível que Marina pedisse carona para a Urca, a um desconhecido, a quem reforçaria o pedido para ir ao Leblon, e a êle contaria intimidades, sem mais aquela? Ora, Comissário Rui Dourado (exclamação de Tenório para o Ministro), isto é abusar da inteligência de um anão mental! Outro fato explorado contra Bandeira foi o seu alibi. Bandeira apresentou o motorista Domingos Figueiredo que, na noite do crime, o levou para a casa de sua avó. Na ocasião, refrescou a memória do motorista, relembrando a conversa sua com o profissional do volante, naquela oportunidade. O motorista identificou Bandeira. Entretanto, não precisou o horário. O alibi caiu. Pois êste fato (continua argumentando Tenório para o Ministro) foi explorado contra Bandeira, pelo Promotor Emerson Lima. Ora, como Bandeira construira um alibi, sem testar a hora do crime? O ponto essencial da história? Também serviu à acusação o depoimento de Avancini, depoimento falho, mentiroso. O próprio autor, Avancini, já se confessou testemunha falsa, embora depois, amedrontado por Leopoldo Heitor, houvesse recuado. Quanto à semelhança do Tenente Bandeira com o homem que atirava de fora, visto, na penumbra, por certa testemunha, é fato relativo. A própria testemunha não garantiu tratar-se do Tenente. As outras pseudoprovas são uma hilaridade jurídica.

Ubiratan: - Você argumentou algo mais com o ministro?

Tenório: - Claro. Contei a êle muito do que sei e que nem você mesmo sabe, Ubiratan. S. Ex.a disse-me, textualmente: O SR. ESTÁ COM RAZÃO, DEPUTADO, É ABSURDO O QUE SE FÊZ COM ÊSTE RAPAZ - E ainda: Conte comigo, conte com o meu Ministério. Procure-me quando desejar. Declarei ao Ministro, que é um homem duro e correto, que estaria disposto a recorrer mesmo a uma Comissão Parlamentar de Inquérito, para que tôda a Nação conheça os fatos em tôda a sua extensão. Também fiquei de dar entrada de requerimentos, na Câmara, dirigidos ao seu Ministério. Quero saber quais as conclusões a que chegou a Aeronáutica, no caso específico do depoimento falso de Avancini. Quais são os oficiais acusados de ter extorquido depoimento do marginal? Se estas acusações são justas, ou injustas. Quero provas no sentido de saber se houve ou não coação de oficiais contra o ladrão Walton Avancini.

JOVENTINO Galvão da Silva, entre o leito branco de um hospital e as grades da cadeia de Araçatuba, venceu mais uma semana. Continua negando, em atitudes dramáticas, muitas vêzes posando de mártir, a sua participação no crime do Sacopã. Enquanto isto, no Rio, vão surgindo elementos que o condenam inapelàvelmente. O depoimento de Manèzinho, por exemplo. Agora, o pistoleiro já não poderá dizer, sôbre a fotografia publicada por O Cruzeiro: - Vocês não têm olho na cara? Êle aparece na fotografia sem bigode, mas Manèzinho sabe por quê. E Joventino também. Dificilmente poderá continuar, como até agora, a mentir. Suas contradições, cada vez mais freqüentes, terminarão por levá-lo a dizer a verdade. Muitos de seus alibis vão caindo por terra. Exemplo: nas declarações prestadas ao Delegado Ernâni Ferreira, em Araçatuba, dissera que saíra do Rio a chamado do pai, residente em Andradina. A carta de chamada fôra escrita por um sargento Félix. Agora, aparece o sargento Félix, que é o Tenente reformado da Fôrça Pública, Ermelindo Félix da Silva, e declara que não se lembra de ter escrito nenhuma carta para Joventino. Êste, que deixou o hospital reclamando que não estava bom, precisa de calmante para dormir o sono que não é dos justos. Um de seus advogados gasta trunfos para evitar a sua remoção de Araçatuba. Joventino treme de mêdo, quando se fala em remoção. Na última têrça-feira, 15, dia de seu aniversário (47 anos), recebeu doces de presente, de uma alma boa que não quis ser identificada... (Foto de Ronaldo Moraes.)
 
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